O SUICÍDIO E O PAPEL PREVENTIVO DA IGREJA

ULTIMATO | O suicídio é uma questão importante de saúde pública. Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, que tem como objetivo alertar a população a respeito da realidade do problema no Brasil e no mundo, e discutir as formas de prevenção. A prevenção precisa começar nas famílias, nas escolas e também nas comunidades, como as igrejas.

TAMANHO DO PROBLEMA

Segundo relatórios da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de Programas de Saúde Mental, cerca de 1 milhão de pessoas cometem suicídio por ano. Nas estatísticas de tentativas (suicídios não concretizados) este número sobe para entre 15 a 25 milhões por ano. Para cada pessoa que comete suicídio, cerca de seis a dez pessoas próximas sofrerão de adoecimento emocional decorrente desta situação. Atualmente é a segunda maior causa de morte entre jovens (15-29 anos), um alto índice também em idosos e grupos populacionais que incluem pessoas que foram vítimas de violência. Apesar de sua maior incidência ser em países de baixa renda e desigualdade social, vem apresentando crescimento em países desenvolvidos com o aumento de quadros depressivos e abuso de álcool/drogas. O Brasil é hoje o oitavo país do mundo em número de suicídios.

TABU DENTRO E FORA DA IGREJA

O tema da morte é historicamente um tabu ao ser abordado e em muitas culturas é evitado a todo custo. Mas o custo do silêncio é alto. O tema da “morte voluntária”, como no caso do suicídio, encontra ainda mais estigma e dificuldade de abordagem, por ser muitas vezes atribuído desordenadamente à temática da loucura, ou em círculos religiosos, ao pecado.

Se o tema do suicídio é tabu em muitos ambientes e culturas, imagine em comunidades cristãs! Muitas comunidades cultivam um discurso triunfalista que busca afastar qualquer vestígio de sofrimento e fragilidade, discurso que não condiz com o que realmente vivemos em nossa jornada de discipulado, intimidade com Deus e transformação contínua, tantas vezes permeada pela dor em um mundo caído. Outros tantos atribuem cruelmente as fragilidades à falta de fé, agravando ainda mais o quadro emocional.

O estigma, a vergonha, a impotência, a dificuldade em se compreender os fenômenos em saúde mental, as distorções teológicas que não abrem espaço para o diálogo. Como seres humanos, não estamos imunes aos sofrimentos psíquicos e angústias da alma. Leia sua Bíblia e encontrará uma diversidade de pessoas em sofrimento e questionamento, vivendo todas estas situações na companhia e amparo do Eterno.

Temos dificuldade em abordar questões emocionais, da subjetividade, que por tantas vezes nos parecem inacessíveis e inomináveis. Os sofrimentos de ordem psíquica mostram-se multifatoriais, sejam desequilíbrios químicos, aspectos biológicos, socioculturais e até mesmo “religiosos”.

Como comunidade cristã, sofremos de maneira geral com a dificuldade de integração entre temas da saúde mental e espiritualidade cristã, tão necessária e urgente nos dias atuais. Precisamos incentivar o diálogo para auxiliar na prevenção desta questão do suicídio, por exemplo, bem como de tantas outras que assolam a saúde emocional. A depressão, a ansiedade, o burnout, os transtornos de personalidade, o suicídio, o trauma, a violência, entre outras questões, afetam pessoas de todas as nações, classes sociais e crenças.

Afetam líderes e liderados, pastores e ovelhas. Precisamos cuidar uns dos outros e de nossas lideranças, tantas vezes exauridas em seus ministérios e necessitando de atenção e tempo disponível para cuidar dos aspectos de sua saúde física, mental ,espiritual, etc. Precisamos atuar tanto na prevenção quanto no cuidado com aqueles que já sofrem e os que são impactados pelas consequências desta realidade.

O PAPEL DA COMUNIDADE

O papel da comunidade no auxílio à prevenção é de singular importância nestes processos de adoecimento multifatoriais. Não podemos caminhar sozinhos em meio à dor. Quando a comunidade sai da postura da negação (“isso não acontece com discípulos de Jesus” – quantas vezes escuto isto…) e as pessoas se percebem humanas, frágeis, parte de um mundo caído e que necessita de restauração e ressurreição interior, aí sim, começamos a dialogar. Quando nos percebemos tão necessitados da Graça de Deus e tão dependentes Dele, buscando sentido para a vida e razão para a existência, nos aproximamos do sofrimento do próximo com uma escuta mais amorosa e misericordiosa. Quando nos tornamos conscientes acerca destas questões, a comunidade se torna um espaço potencial que pode promover cuidado e restauração. A construção de vínculos de apoio mútuo, o senso de pertencimento, o contexto para a busca de sentido da vida e o espaço frutífero para nutrir a esperança, desfrutando da intimidade de Deus e uns dos outros.

Precisamos da comunidade de amigos e irmãos que nos incentivem na vida devocional, nos integrem em serviço ao próximo. Comunidade que esteja atenta para discernir os sinais de adoecimento psíquico e fatores de risco. Que respeite as fragilidades, que caminhe na direção do outro com ação e oração. O primeiro passo é nossa abertura para ouvir sobre estes temas e falar abertamente sobre eles. Esta realidade está presente em todas as nossas comunidades.

É importante pontuar que precisamos reconhecer nossos limites. Deus age de diversas maneiras. Precisamos de abertura às parcerias e encaminhamentos, agregando todos os recursos que Deus nos doou e disponibilizou nas diferentes áreas de conhecimento e atuação, para que o cuidado seja integral. Somos seres bio-psico-sociais-espirituais e precisamos cuidar de todos estes aspectos que compõe o todo. Sejam líderes, membros da comunidade, psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, etc, todos contribuindo para que este cuidado seja mais amplo e eficaz.

• Karen Bomilcar é psicóloga clínica hospitalar, mestre em Teologia e Estudos Interdisciplinares pelo Regent College (Canadá). Atualmente reside em São Paulo (SP) onde serve no discipulado e cuidado pastoral de pessoas de diversas comunidades cristãs.

C.S. LEWIS E O PROPÓSITO PRINCIPAL DO SER HUMANO

ULTIMATO | “Digno és, Senhor e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e para o teu prazer vieram a existir e foram criadas” (Ap 4.11).

Qual é o fim supremo e principal do homem? O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.1

Eu sempre concordei plenamente com a resposta, até ler o livro “The Problem of Pain”, de C.S. Lewis, onde ele faz a seguinte declaração:

“Nós não fomos criados primeiramente para amar a Deus, (ainda que tenhamos sido criados para isto também) mas para que Deus nos ame, para que sejamos objetos nos quais o Amor Divino ‘descanse’ satisfeito”.2

Em Ap 4.11 a palavra usada para “prazer” pode ser traduzida por: propósito, vontade. Todas as coisas foram criadas para Deus, de acordo com sua vontade, seu desejo, seu prazer. Acho que não tem como separar a vontade e o prazer dele. Se Ele tem vontade de fazer algo, é porque isto o satisfaz. É o seu prazer. Cl 1.16, Rm 11.36, Ef 1.5. Se pensarmos que o propósito supremo do homem é que ele faça algo para Deus, estamos centrando a sua existência nele mesmo, e Deus como objeto da sua ação. Se pensarmos que o propósito supremo do homem é receber algo de Deus, então o homem é que é o objeto, Deus é o Centro de tudo, inclusive da existência humana. Deus não existe em função do homem, e nem o homem existe em função de si mesmo. O homem existe em função de Deus. Ele é o recipiente da ação de Deus. Fomos criados para que Deus nos ame. Fomos criados para o seu prazer.

Criados para sermos recipientes do seu amor, agora somos caídos, corruptos, carentes da Sua presença, e Deus não vai ficar satisfeito até que sejamos quem ele planejou que fôssemos, que tenhamos o caráter adequado para receber o seu amor. Ele vai até as últimas consequências, até a morte, e morte de cruz. Ele também vai nos conduzir por caminhos que nos transforme – às vezes, caminhos desconfortáveis e dolorosos. O verdadeiro amor não vai se contentar que o seu “amado” permaneça na sajerta, na sujeira, no estado de domínio do pecado. Ele nos mostra isto na história de Oséias e Gomer. Depois de Oséias tirar Gômer da prostituição e casar com ela, a esposa volta para a prostituição. Mas Deus o ordena comprá-la novamente. Diante disso, uma das declarações mais amorosas de Deus se encontra em 11.8:

“Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? (…) Está comovido em mim o meu coração, as minhas compaixões à uma se acendem”.
Lewis tenta mostrar este amor de Deus para conosco usando algumas ilustrações, bíblicas, de relacionamentos. Todas são limitadas, mas juntas, elas pintam um quadro que nos ajuda a contemplar este amor divino.3

A primeira é a relação do artista e sua obra. Jeremias fala do oleiro e do vaso (18). Pedro nos chama de “pedras vivas” (1 Pe 2.5), e Paulo de “edifício de Deus” (1 Co 3.9). Todas falam do desejo do artista em executar sua obra com perfeição. Ele não fica satisfeito até que a obra tenha o caráter intecionado. É o seu prazer. É assim que Deus nos ama.

A segunda é a relação do homem com animais. O Salmo 23 é a analogia bíblica mais conhecida. É melhor do que a anterior, pois o “objeto” aqui é senciente. A relação do homem com o animal (o cachorro, por exemplo), visa, principalmente, a intenção do homem. O cachorro existe para realizar este desejo do homem, e não o contrário. O bem estar do cachorro será preservado, e a intenção do homem só será plenamente alcançada se o cachorro também o amar de volta. Para isto, o homem interfere na realidade do cachorro e o faz mais amável do que ele é na natureza.

A terceira é uma ilustração mais nobre, o amor de um pai pelo filho. Embora as relações paternais no período fossem mais autoritárias do que as modernas, no entanto, o padrão continua. O amor paternal significa “amor-autoridade” de um lado e “amor-obediência” do outro. O pai usará seu amor e autoridade para moldar o filho na pessoa que ele, na sua sabedoria e experiência, deseja que o filho se torne.

Por último, o amor entre um homem e uma mulher. O amor deseja e busca o bem, o crescimento, o aperfeiçoamento da pessoa amada. Quando amamos não paramos de nos importar com o estado do outro, se está agradável ou desagradável, decente ou indecente. Se uma mulher perceber que o marido deixou de se importar com o estado emocional e a aparência dela, ela irá questionar o amor dele por ela. O amor perdoa todas as falhas, e ama apesar delas, mas nunca deixa de desejar a remoção destas.

Lewis fala que o amor de Deus é persistente como o amor do artista; autoritário como o amor de um homem por seu cachorro; providente e venerável como o amor do pai pelo filho; zeloso, e inexorável como o amor entre os sexos. Não dá para entender isto. Ultrapassa todo o entendimento pensar que o Criador, que não precisa ou depende de nada, deseja, tem prazer e dá tanta importância a criaturas como nós. Só podemos nos por de joelhos em adoração. O dever principal da nossa existência deve ser glorificá-lo para sempre. A vida na sua plenitude é gozar deste amor com Ele.

NOTAS:
1. Primeira pergunta do Catecismo Maior de Westminster.
2. CS Lewis, The complete CS Lewis Classics, pg 574.
3. Ibid, 570-574

• Rosifran Macedo é pastor presbiteriano mestre em Novo Testamento pelo Biblical Theological Seminary (EUA). É missionário da Missão AMEM/WEC Brasil, onde foi diretor geral por nove anos. Atualmente, dedica-se, junto com sua esposa Alicia Macelo, em projetos de cuidado integral de missionários.

DEZ MANDAMENTOS PARA COMEÇAR UM NAMORO

ULTIMATO | Para você que é solteiro, leia com urgência. E se já está namorando, faça um raio-x do seu namoro. Casado? Eu também sou e valeu muito a pena seguir os dez mandamentos abaixo antes de dizer “sim” para a minha esposa

1 – SEJA RACIONAL E NÃO SENTIMENTAL
As maiores causas de separação e divórcios hoje são: incompatibilidade de gênero, vida financeira e sexo. Veja bem com quem você está casando. Não veja só a embalagem, avalie bem o produto com a sua razão. Procure belezas que não passam.

2 – REPARE NA MANEIRA COMO ELA/ELE TRATA OS PAIS
Analise muito bem as palavras que ela/ele usa para tratá-los. Será provavelmente a maneira como essa pessoa irá tratar você. Quem honra os pais também honra o cônjuge. Um mau filho não será um bom marido. Não é a toa que às vezes eu ouço da minha esposa: “Você acha que eu sou sua mãe?”, mas a gente se perdoa. Ninguém é perfeito.

3 – OUÇA SEUS PAIS
Escute-os. A maioria dos casais que se unem com a desaprovação dos pais não vai adiante com o relacionamento. Procure também a opinião de pessoas que você respeita, seus líderes, livros sobre o assunto e amigos mais experientes. Não seja levado pela síndrome adolescente do “eu já sei de tudo”.

4 – DESCUBRA OS PRINCÍPIOS DE VIDA DESSA PESSOA
Ela certamente tem convicções firmes sobre verdade, família, caráter, honestidade, sonhos, trabalho, carreira, bondade, respeito. Você sabe quais são? Isso deve ser analisado antes e não depois do casamento. Se a pessoa que você quer namorar deseja levar você logo para cama, certamente não gosta de você. A verdade é que ela/ele quer apenas aproveitar e usar você, depois jogar fora. Respeito é fundamental. Conheça bem os seus valores.

5 – PROCURE ALGUÉM QUE AMA A DEUS E A SUA PALAVRA
Veja quais são as suas convicções a respeito da Bíblia, Cristo, culto, oração, igreja, espiritualidade, etc. Não se relacione com alguém que é indiferente para com Deus. Se essa pessoa for indiferente para com Deus, certamente também será para com os valores absolutos da Bíblia, na prática da oração, não terá vontade de ir aos cultos e muito menos ter relação com pessoas da Igreja. Isso faz toda a diferença.

6 – NÃO VIVA PROCURANDO A PESSOA PERFEITA
A “pessoa certa” é um mito, não se desespere se você ainda não encontrou alguém assim. Você não vai encontrar mesmo, não existe pessoa perfeita! Não existe “alma gêmea”, não existe princesa ou príncipe encantado. Não ande em busca da pessoa certa. Faça diferente: torne-se, prepare-se para ser a pessoa certa. O segredo é cultivar a si mesmo, como diz o poeta gaúcho Mário Quintana: “O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você”. Isso vale tanto para homens quanto para mulheres, mas que os homens não se acomodem mais do que já estão, querendo que as mulheres venham até eles. Já temos Homers Simpsons demais por aí.

7 – PROCURA ALGUÉM QUE O AJUDE A SER UMA PESSOA MELHOR E NÃO “MAIS FELIZ”
O casamento existe para somarmos na vida um do outro e experimentarmos mais de Deus. Procure alguém que te torne uma pessoa melhor no caráter e mais parecida com Jesus. Reflita se ela te torna mais “feliz” momentaneamente, mas te aproxima do pecado e te afasta de Deus frequentemente. Isso diminuiria muitos aconselhamentos pastorais.

8 – PROCURE ALGUÉM QUE TENHA OBJETIVOS PARA CASAMENTO
A maioria das pessoas hoje quer namorar para passar tempo e aproveitar o que as outras tem de bom: boca, corpo, coisas e sexo. Procure alguém para compartilhar a sua vida, coisas boas e ruins e não apenas o prazer R$ 1,99 de beijar, dar uns “amassos” e fazer sexo fora do casamento. Isso, no casamento, é cem mil vezes mais sensacional. Dou minha palavra.

9 – NÃO IDOLATRE A ATRAÇÃO FÍSICA!
Já falamos disso antes, certo? Mas como a gente é muito burro neste ponto, vale a pena repetir. Olhos verdes, ruivas, morenos, musculosos, cabelo liso, seios siliconados, barriguinha magra, branco, “negão”, lábios carnudos, e blá, blá… Não sou hipócrita para afirmar “não procure beleza”, até porque acho minha esposa linda demais, mas no fim das contas isso vale pouco. “Idolatre” mais a personalidade do que a aparência. O legal do amor é amar a pessoa inteira, não somente a casca.

10 – PROCURE ALGUÉM QUE SEJA BELO(A) NO CONJUNTO TODO
Para encontrarmos uma pessoa de Deus precisamos ter um conceito total, pleno e integral de beleza. Procure alguém que seja belo em seu jeito de ser, personalidade, temperamento, fé, amor, palavras, carinho, disposição, serviço, atitudes, conhecimento, caráter, sonhos, amizade, família, profissão, entre outras coisas. Beleza ultrapassa curvas e traços corporais passageiros. Beleza é o que somos e seremos para sempre, não apenas o corpinho de 20 anos.

RESUMINDO TUDO: pense bem. Os nossos sentimentos são especialistas em nos enganar e, pior, podem machucar bastante. Se você já está namorando alguém e depois de tudo que leu entrou numa crise, ouça meu conselho: leia o texto com seu namorado(a) e tenham uma D.R. urgentemente!

• Jean Francesco é casado com a Gesiê, teólogo, escritor e pastor da Igreja Presbiteriana da Penha, em São Paulo (SP).

DEZ DICAS PRÁTICAS DE COMO ORAR

ULTIMATO | A dimensão terapêutica da oração

O médico suíço Theodor Bovet percebeu a necessidade de ser mais aberto, criativo e acessível no relacionamento com seus pacientes. Ele passou, então, a priorizar a dimensão espiritual de seus pacientes, que alegavam ter “problemas com os nervos”.

No tratamento de seus pacientes, Bovet procurou, então, conciliar os seus conhecimentos de neurologia com calor humano, compreensão e espiritualidade. O Dr. Bovet observou que muitos de seus pacientes que “sofriam dos nervos”, careciam de uma espiritualidade mais envolvente, mais sadia. Dr. Bovet procurou ajudá-los, conduzindo-os pelo caminho da oração.

Ao ensinar os seus pacientes a orar, Dr. Bovet lhes sugeriu algumas regras bem práticas, que foram publicadas numa revista alemã. É com grande prazer que as compartilho com você. Acredito que possam ser úteis na sua vida, no seu processo de cura.

1. Separe diariamente alguns minutos para estar a sós. O seu corpo, a sua mente, o seu coração necessitam de descontração, relaxamento.

2. Conte a Deus tudo o que você guarda em seu coração. Fale a ele com simplicidade e naturalidade.

3. Sempre que tiver possibilidade, exercite o diálogo com Deus. Para evitar a dispersão, cerre os olhos e, com os olhos fechados, dialogue com Deus.

4. Creia firmemente que Deus está ao seu lado. Ore na convicção de que receberá a bênção de Deus.

5. Quando interceder a Deus por alguém, faça-o na certeza de que a sua oração atravessará terras e mares. O amor e o poder de Deus envolverão as pessoas pelas quais você ora.

6. Quando orar, tenha pensamentos bons, sadios.

7. Procure estar em prontidão para aceitar a vontade de Deus.

8. Ao orar, coloque tudo nas mãos de Deus. Peça-lhe para lhe dar forças para você poder fazer tudo o que estiver ao seu alcance. Então, entregue-se confiante a Deus!

9. Ore pelas pessoas que não lhe querem bem, e por aquelas que foram injustas com você. Isso lhe dará forças para perdoar.

10. Ore diariamente por sua cidade, por seu país, pela conservação da paz.

O Dr.Bovet costumava dizer aos seus pacientes: “Converse com Deus, como se ele estivesse sentado à sua frente, diante de você. Converse com ele como se ele tivesse acabado de entrar no seu quarto e lhe perguntasse: ‘O que você quer que eu faça por você?’”.

Você também pode contar com a possibilidade de se sentir envolto pelo Espírito de Deus. O autor do Salmo 139 experimentou a presença de Deus de um modo envolvente. Deus não está restrito a uma corporalidade, que ocupa um espaço determinado, mas é percebido como o Espírito que envolve o salmista por todos os lados. O salmista vivencia a presença de Deus com um “sentimento oceânico”.

A pergunta decisiva que Deus lhe dirige é esta: “O que você quer que eu faça por você?”. Um dia, quando Jesus e seus discípulos saíam de Jericó, um cego chamado Bartimeu, sentado à beira do caminho, gritou: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim!” Muitos o repreendiam para que se calasse, mas ele clamava cada vez mais alto pela misericórdia de Jesus.

Jesus pediu que chamassem o cego para junto dele. Então lhe perguntou: “O que você quer que eu lhe faça?” Respondeu-lhe o cego: “Meu Mestre, que eu torne a ver!” (Mc 10.46-52).

O que você quer que o Mestre lhe faça?

• Maria Luiza Rückert é pastora com especialização em Capelania Hospitalar. Cursou Teologia na EST e “Clinical Pastoral Education” no Hospital da Universidade de Minnesota. Fez pós-graduação em Ética, subjetividade e cidadania na EST. Atuou por duas décadas no Hospital Evangélico de Vila Velha (ES). Seu site é www.capelaniamarialuiza.org

O WHATSAPP E O (DES)CONFORTO DO SILÊNCIO

ULTIMATO – LEVI AGRESTE | Há poucas semanas, fomos assaltados por um fato inusitado e intolerável: era suspenso o uso do Whatsapp por até três dias, segundo ordem judicial. Dezenas de milhares – não! –, centenas, milhões de brasileiros desesperados, trocando as últimas notinhas do dia, aguardando o juízo final. O murmúrio foi grande: o que será das relações pessoais? o que será de nós? o que será do impeachment? Ó céus! Mas um silêncio se fez sobre a virtual terra desolada… e do que nada era, brotou vida.

Sérgio, um homem honesto e trabalhador, empossado das mais dignas responsabilidades de um analista de dados, descobriu que apreciava sua própria presença, uma vez que não se via mais atarefado com as intermináveis conversas virtuais. Parou para pensar na vida, lembrou da esposa, Márcia, de morenos cabelos curtos, e de como fazia tempo que não saíam para tomar um sorvete com as crianças. Lembrou que havia ficado de verificar as notas do Pedrinho do último bimestre, já que não estava indo muito bem em Português. Revisitou na memória a imagem do antigo amigo Orestes, com quem conversava horas a fio a respeito de política, economia e futebol – como fazia tempo que não conversavam!

Veio à mente a possibilidade de visitar os pais. Havia lhes prometido uma noite de jogos de cartas com os netos, mas já era tempos… As gargalhadas dos filhos ecoaram por detrás das memórias e já podia ver a mesa repleta de doces caseiros, preparados diariamente por quem não suporta ver uma única pessoa sem comida na boca. Quatro, seis, valete, escopa! E lá ia um feijãozinho marcar o ponto.

Recordou quando nutria um grupo de valentes jogadores amadores de futebol, todo sábado, correndo desnorteados pela rotina insalubre do trabalho. As pernas pesadas esmagando o chão, trançando umas nas outras em busca da bola, que quicava incessantemente. Um corte seco e um corpo entregue deslizava pelo chão, ralando tudo, ralando coxa. Um chute desengonçado que desviava na canela do adversário, girava até a trave, encostava – como que por capricho! – na luva do goleiro e batia no fundo das redes. Eram craques por alguns segundos e todo suor que encharcava o corpo, revigorava a alma.

Pensou naquele livro empoeirado na cabeceira da cama, de como havia se interessado pela narrativa, envolvendo-se com as motivações e limitações do personagem. Percebeu como via muito de si naquele estranho aventureiro, que era capaz de fugir de si mesmo para escapar de seus medos, mas que ainda persistia em sua jornada em razão de seus amores.

Notou que lá fora chovia… e que não chovia há tempos. Sentiu falta de algum verde no escritório e… onde será que foi parar o Roberto? – Está doente, é virose – ah, que pena, está de cama? – está sim, vou dar uma passada lá depois do trabalho. Quer vir? Eu… E o celular despertou.

Os olhos, como que em estado de abstinência, voltaram-se imediatamente ao aparelho, que piscava alegremente, com mensagens na tela do celular. Ele voltou, ele voltou! Enfim, estamos salvos, não haverá apocalipse – hoje não! Os dedos começaram a retumbar freneticamente na pobre tela, compondo palavras, frases, enviar, enviar, enviar… E assim que deixou de reinar o silêncio nas terras virtuais, voltou a reinar a morte na terra dos viventes.

COMO LIDAR COM AS DÍVIDAS?

ULTIMATO | A crise financeira no país já é real: crescimento de desemprego, da inflação, alta do dólar e previsões nada boas para 2016. Ninguém está protegido. Uma consequência da crise são as dívidas. Mas como os cristãos endividados devem agir?

Paulo Maximiano, especialista na área de finanças e diretor-executivo do Ministério de Finanças Crown*, concedeu uma entrevista sobre o assunto para a revista Comunhão, edição de janeiro. Selecionamos alguns trechos da entrevista, gentilmente cedida pela redação de Comunhão, e que você pode conferir a seguir.

QUEM É O MORDOMO
Hoje muitas pessoas querem um Deus imediatista, que resolva seus problemas. Muitos querem cura, bons empregos, dinheiro no bolso. É importante entendermos que Deus dá a cada um conforme Ele quer; nosso papel é sermos “mordomos fiéis” do que Ele colocou em nossas mãos.

DINHEIRO É ASSUNTO ESPIRITUAL
Muitos acham que finanças e Deus são coisas distintas, porém falar sobre finanças é falar sobre caráter. E o Senhor, por meio da Sua Palavra, nos diz que devemos ser santos assim como Ele é (1 Pe 1.15,16). Jesus equipara a maneira como lidamos com o dinheiro à qualidade de nossa vida espiritual. Em Lucas 16.11, diz: “Assim, se vocês não forem dignos de confiança em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem lhes confiará as verdadeiras riquezas?”. A verdadeira riqueza da vida é um relacionamento íntimo com o Senhor.

NOVE PASSOS PARA SAIR DA DÍVIDA
A Bíblia não diz que dívida é pecado, mas desencoraja essa prática. Romanos 13.8 diz: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma”. Em Provérbios 22.7, a Palavra de Deus nos fala: “Assim como os pobres são dominados pelos ricos, quem pede dinheiro emprestado se torna escravo de quem empresta”. Quero listar aqui alguns passos importantes para sair das dívidas:

1. Ore
Em 2 Reis 3.-17, temos a história da viúva e do azeite. Sabemos como Deus proveu aquela mulher que estava em uma situação muito difícil, porém ela obedeceu, buscou ajuda, confiou no Senhor, trabalhou, vendeu o azeite e ainda sobrou para que vivesse com seus filhos. O mesmo Deus que proveu sobrenaturalmente àquela viúva está interessado em vê-lo fora das dívidas. Ele pode agir imediatamente, como no caso da viúva, ou lentamente. Em qualquer uma das situações, a orientação é fundamental.

2. Venda o que não estiver sendo usado
Avalie os bens para determinar se pode vender algo para ajudá-lo a sair da dívida mais rapidamente.

3. Decida quais dívidas pagar primeiro
As dívidas com juros mais altos, como cartão de crédito e cheque especial, são prioridade. Também pode escolher eliminar seu débito com financiamento de veículo e empréstimos estudantis ou até mesmo começar a tentar antecipar seu financiamento imobiliário.

4. Estratégia “bola de neve”
Pague o cartão de crédito que tem o menor saldo devedor. Desta maneira você será encorajado a continuar os pagamentos de forma exponencial. Após pagar o primeiro cartão, use o valor desse pagamento para pagar o segundo cartão com menor valor devido, e assim por diante. Essa é a estratégia “bola de neve” em ação! Depois, concentre-se em liquidar as dívidas de consumo da mesma forma que liquidou as de cartão.

5. Considere obter uma renda adicional
Muitas pessoas têm emprego que não produzem renda suficiente para pagar suas dívidas. Um emprego temporário em tempo parcial pode fazer grande diferença.

6. Controle o uso do cartão
Somos diariamente levados por uma onda de ofertas de crédito e de cartões de crédito. Geralmente gastamos um terço a mais quando usamos o cartão de crédito, pois temos a sensação de não estarmos gastando dinheiro. Se você não consegue pagar todo o saldo devedor no fim do mês, faça uma cirurgia plástica em seu cartão! Qualquer tesoura afiada faz isso!

7. Contente-se com o que você tem
A indústria da propaganda usa métodos poderosos para fazer com que os consumidores comprem. Frequentemente, o objetivo da mensagem é criar descontentamento com aquilo que temos. 1 Timóteo 6.5,6 diz: “Homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro. De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento”.

8. Considere uma mudança radical de vida
Muitas pessoas baixaram significativamente seu padrão de vida para sair das dívidas de uma forma mais rápida. Alguns venderam suas casas e se mudaram para casas menores; outras alugaram um apartamento. Outras pessoas venderam carros com pagamentos altos e compraram veículos mais baratos. Em resumo, sacrificaram temporariamente o seu padrão de vida para tornarem-se livres das dívidas.

9. Não desista
Nunca desista de seus esforços para sair das dívidas. Isso pode requerer trabalho árduo e sacrifício, mas vale todo o esforço necessário para alcançar a liberdade.

DOMÍNIO PRÓPRIO CONTRA O CONSUMISMO
Na verdade, creio que falta o exercício do fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio. O domínio próprio é o freio de nossas paixões carnais, é o controle de nossos desejos. Muitas vezes compramos o que não queremos, com o dinheiro que não temos, para impressionar quem não conhecemos. Somos facilmente induzidos pelo marketing, compramos sem necessidade. Daí a importância do exercício do fruto do Espírito em nossas vidas.

POUPE – NÃO IMPORTA SE MUITO OU POUCO
O brasileiro não tem o costume de poupar, mas sim de gastar. Muitas pessoas consideram que poupar é somente para compra de uma casa ou de um bem de maior valor. Errado! Devemos aprender a guardar uma parte do que ganhamos todos os meses. Se você quiser tirar férias, comece o planejamento no primeiro semestre, se possível ainda em maio ou junho. Junte em todos os meses e você acabará tendo um bônus no final do ano para pagar seu combustível, sua hospedagem, etc.

Isso também serve para outros encargos que temos no início do ano. O seu 13º é para algo extra, e não para pagar dívidas, sejam do ano que passou ou sejam do ano que está iniciando.

Detalhe importante: muitos pensam que devem começar a poupar quando tiverem um valor ou montante considerável. Esse é outro erro comum. Você deve começar a poupar o que você tem, sejam R$ 5,00, sejam R$ 10,00 ou mais. O pouco em fidelidade se torna muito.

* O Ministério de Finanças Crown é conhecido mundialmente pelos cursos oferecidos a pequenos grupos sobre como ser um cristão que administra bem suas contas.

RESSURREIÇÃO: O FILME

ULTIMATO | “Risen” (no Brasil, Ressurreição), é um filme que trata, tal como indicado já no título, do principal dogma do cristianismo, que o difere de todas as demais manifestações religiosas de todos os tempos – a ressurreição de Jesus. O filme retoma o mote de “A investigação”, filme italiano de 1986 com atores americanos (Keith Carradine como um oficial do exército romano chamado Taurus e Harvey Keitel como Pôncio Pilatos), com algumas modificações: no filme de 1986 o próprio imperador romano Tibério ordena que se faça uma investigação para descobrir se os rumores a respeito de um crucificado judeu que teria ressuscitado eram verdadeiros. No filme de 2016 a ordem para a investigação é dada por Pilatos. O final dos dois filmes é bastante diferente (não vou dizer as diferenças para não dar “spoiler”).

“Ressurreição” tem Joseph Fiennes (que já foi Lutero) como Clavius, o tribuno romano encarregado de descobrir se os boatos a respeito da ressurreição eram verdadeiros ou não, Tom Felton (o detestável Draco Malfoy da franquia Harry Potter) como Lucius, o assistente do tribuno, e Cliff Curtis como “Yeshua” (sim, ele é chamado de Yeshua no filme, a forma aramaica de seu nome; a forma “Jesus” é derivada do grego). Curtis é neozelandês de ascendência maori, e em Hollywood, por conta de seu tom de pele morena já foi árabe, colombiano, e agora, um judeu galileu do primeiro século.

Para cumprir a ordem recebida, Clavius e seus comandados partem para revistar todas as casas de Jerusalém, para descobrir discípulos do nazareno recentemente crucificado. Eles levam um susto enorme ao descobrir que o túmulo no qual o corpo fora depositado, estava vazio! O que aconteceu? Na verdade, os romanos começam a descobrir evidências que, por mais estranhas e irracionais que pareçam, sugerem que talvez alguma coisa absolutamente incomum tenha acontecido… Em sua busca por discípulos do crucificado, Clavius interroga Maria Madalena, e ela lhe diz que presenciou acontecimentos que não podem ser explicados. Madalena tenta explicar ao tribuno que ele está procurando de maneira errada, mas o romano simplesmente não entende o que ela lhe diz. Clavius resolve procurar os seguidores de Yeshua sozinho, e Lucius, que assume o comando da investigação, diz a Pilatos que, talvez os boatos sejam verdadeiros. Pilatos, como era de se esperar, não concorda e não acredita.

Clavius por fim tem suas perguntas respondidas de maneira surpreendente. O filme do diretor americano Kevin Reynolds dá ênfase às narrativas da ressurreição do primeiro e do quarto Evangelhos, citando todavia trechos dos outros dois. Não há nenhum relato histórico que os romanos tenham ordenado uma investigação policial desta natureza. Mas não é de todo improvável que tal tenha acontecido. Neste sentido, o filme de 1986 é mais politicamente realista que o de 2016, que por sua vez é mais “catequético”, por assim dizer, que seu “irmão mais velho”, que sem dúvida o inspirou.

O filme toca em uma questão apologética importante: como, contra todas as circunstâncias, históricas, religiosas, culturais, um grupo de judeus pobres da Judeia então província romana do primeiro século, começou a falar de algo que nunca ninguém jamais em qualquer tempo ou lugar tivera coragem de falar? Mais estranho ainda, quem primeiro falou o que era contra todas as evidências foi uma mulher – a Madalena – de má fama (o filme de Reynolds mostra o que teria sido a vida pregressa da Madalena com uma pitada de humor ácido), isto em uma cultura em que o testemunho de uma mulher não tinha valor (tal como acontece até hoje em sociedades islâmicas). Ao redor do anúncio da ressurreição se formou a comunidade dos seguidores de Yeshua. O centro desta mensagem não era aceito por ninguém na época. E nem hoje. Contra tudo e contra todos, aquele grupo, que tinha tudo para dar errado, com uma mensagem que tinha tudo para “morrer no nascedouro”, como se diz, prosperou e cresceu. O assim chamado argumento sociológico para a ressurreição de Yeshua/Jesus é mais forte que seus críticos gostam de admitir.

O filme foi produzido em locações na Espanha e na ilha de Malta. Os diálogos são bem conduzidos, e a mensagem final, escandalizadora há dois mil anos e hoje, é que “de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos” (1 Coríntios 15.20). Mas tanto há dois mil anos como hoje, a mensagem da ressurreição é matéria de fé. Como disse alguém, para quem crê, nenhuma prova é necessária. Para quem não crê, nenhuma prova é suficiente. O fato é que o túmulo está vazio. E até hoje ninguém conseguiu produzir uma explicação melhor para isto que a dada por aquele grupo de judeus pobres da Judeia dominada pelos romanos há dois mil anos.

NOTA: Livros e mais livros já foram escritos a respeito da ressurreição de Jesus. Obra recente a respeito que sem dúvida ocupará por anos lugar de destaque na bibliografia especializada sobre o tema é o alentado e muitíssimo recomendado (mais de 1.100 páginas!) “A ressurreição do Filho de Deus”, de N. T. Wright (São Paulo: Paulus, 2012).

O PASTOR IDEAL

CRISTIANISMO HOJE | O chamado homem de Deus não é alguém sobrenatural – e o pastoreio não é algo simples

Ao longo de quase quarenta anos – desde que fui ordenado ao pastorado –, tem sido possível observar profundas mudanças em relação àqueles que exercem o ministério da Palavra. Elas não acontecem apenas no perfil dos pastores, como também nas práticas pastorais e até mesmo no modo com que o próprio povo de Deus os tem considerado. Lembro-me, com saudades, dos primeiros tempos, ainda jovem, ao ver colegas pastores envolvidos com alegria e muita esperança no ministério. Não é este o cenário que, em geral, hoje tenho assistido. O que se observa, e é extremamente preocupante, é a redução da alegria, da autorrealização e da esperança daqueles que ocupam o púlpito. E tal sentimento afeta suas famílias.

Sem dúvida, há muitos pastores que ainda nutrem elevado ideal ministerial. Mas, lamentavelmente, tem havido graves distorções sobre o que seja, de fato, pastorear o que chamamos de rebanho de Deus – mesmo porque, por outro lado, têm surgido pretensos pastores que mais se aproveitam do poder e do dinheiro das pessoas do que, de fato, exercem o pastorado com integridade. E, neste ponto, temos observado diversos caminhos perigosos. Em primeiro lugar, o que vemos é o Cristianismo sendo reduzido a atividades, programas e eventos eclesiásticos e pregação. O domingo acaba se tornando um transe de fim de semana, onde a celebração dá lugar à agitação. O domingo – dia de descanso e reflexão – acaba se tornando em dia de cansaço.

É claro que o pastoreio não é uma atividade simples. Pastores são chamados a dar conta de tantas atividades e responsabilidades que acabam não tendo tempo de pastorear, cuidar do rebanho, visitar um membro da igreja que foi hospitalizado ou mesmo telefonar parabenizando uma ovelha no dia de seu aniversário. A diretoria da igreja ou da denominação cobra produtividade; reuniões sem fim são realizadas; novos projetos são apresentados a cada instante, muitos dos quais envolvendo atividades bem diversas do verdadeiro pastoreio. E o ministro do Evangelho, de quem se cobra sempre uma palavra inspirada e uma conduta acima de qualquer crítica, acaba não tendo tempo para orar, ler a Bíblia, fazer seu devocional ou cuidar adequadamente da família. Filhos e cônjuges precisam ser pastoreados, e o pastor acaba não dando tempo para isso – e a família acaba se frustrando com seu pastor. Paradoxalmente, há um pastor dentro de casa, mas sua própria família é órfã de pastoreio.

Para ganhar o coração e a credibilidade de uma ovelha, leva-se muito tempo. Porém, para perder a confiança e criar frustração e desapontamento, basta um segundo – seja a falta de uma visita no momento mais difícil ou a ausência de uma palavra de decisão em um momento de conflito.

Durante mais de dez anos, fiz um levantamento de dados entre colegas de púlpito de uma grande denominação em nível nacional. Os resultados, em alguns itens, chegam a ser assustadores. Treze por cento dos pastores, por exemplo, dizem que as atividades eclesiásticas empobreceram sua vida familiar; 65% admitem-se incapazes para o exercício do ministério; e 30 por cento dos pastores que ouvi dizem que, se pudessem voltar atrás, mudariam muita coisa em sua vida e ministério.

Há mais. Cerca de 30% dos pastores não têm desenvolvido uma perspectiva de vida para daqui a cinco anos; e 75% dizem que não têm disciplina no uso do tempo. Sete em cada dez deles não estão contentes com o tempo que investem na vida devocional e 75% não têm culto doméstico regularmente em seu lar (dez anos antes, o índice era 64%). Não é difícil concluir que algo vai mal. Um retrato com este cenário nos oferece algumas indicações. Em primeiro lugar, o senso de empobrecimento numa atividade de trabalho pode indicar a perda de sentido em objetivos da vida, de modo que o empenho e criatividade fiquem prejudicados. Isso cria um círculo vicioso com graves consequências futuras. Por outro lado, o investimento na vida devocional e a autodisciplina na natureza de trabalho pastoral são fundamentais. Para falar de Deus, é necessário falar com Deus em primeiro lugar. Então, como desenvolver o ministério da pregação, do ensino, do aconselhamento – naturais na atividade pastoral – sem, contudo ter dedicada vida devocional? A indicação de 70% neste item é preocupante, pois reflete diretamente nas atividades nobres do pastoreio. Sem púlpito, atuação no aconselhamento e ensino enriquecidos, como alimentar o povo? O que estariam fazendo estes colegas no ministério, se não dedicam tempo para falar com Deus? Estariam tão ocupados com os afazeres pragmáticos da igreja? Isso, sem falar na autodisciplina que indica carência na gestão do tempo. Tudo isso junto acarreta muita frustração e tédio. Ao fim de cada dia, o indivíduo se sente frustrado e inútil, com elevado senso de culpa.

DESAJUSTES
Paulo, em suas epístolas, adverte a Tito e Timóteo de que quem não cuida de sua casa, não deve cuidar do rebanho de Deus. Ora, se a maioria dos pastores pesquisados parece desajustada em sua vida familiar, o que se pode esperar deles? A tristeza na vida de filhos e esposas de pastores já tem sido notada por diversos líderes mais experientes. Minha mulher, que é psicóloga, tem trabalhado com esposas de pastores e notado a decepção que muitas delas nutrem em relação ao ministério, à igreja e até com o próprio marido pastor. Isso, ainda sem contar com os desastres emocionais que a cada dia aumentam na vida de muitos pastores, com envolvimentos fora do casamento ou, simplesmente, matrimônios frustrados.

O problema é que, ao longo do tempo, foi se formando a imagem de que o “homem de Deus” é alguém sobrenatural, com capacitação gigantesca, portador de dons e talentos espetaculares, inquestionável autoridade e elevado nível de resistência às pressões, asperezas, obstáculos e intempéries da vida e ministério. Contudo, o tempo também foi provando que este imaginário não era compatível com a natureza de qualquer ser humano – afinal, pastor não é como Jesus, que tinha a natureza humana e divina. Somos, os pastores, como qualquer ser humano na face da terra: imperfeitos, limitados, pecadores. Gente, simplesmente, e não máquina. Aliás, até as máquinas falham e necessitam de ajustes. É claro que um líder religioso não pode tratar com autoritarismo, indelicadeza, omissão ou irresponsabilidade o seu rebanho. Mas, também, a igreja não pode tratar o pastor como se fosse alguém sem sentimentos, sem família, que não tivesse dor e fosse impermeável ao sofrimento. Afinal, pastor também é gente.

Pastores necessitam ser pastoreados. As igrejas, denominações e associações ou ordens de pastores necessitam rever suas prioridades e agendas de estudos e atendimento, considerando os atuais cenários, para ajudar os pastores a enfrentar os sofrimentos e os desastres ministeriais. Os seminários e faculdades teológicas necessitam criar oportunidades de capacitação, atualização e recapacitação continuada para pastores em temas não apenas teológicos e bíblicos, mas, também no trato dos dilemas pastorais, pessoais, matrimoniais e familiares. Tenho trabalhado em educação teológica e ministerial há quase 40 anos porque acredito que é possível sempre formar novas gerações com novas esperanças. Quase que semanalmente, digo aos meus alunos que tenho esperança neles e que poderão investir no ministério, acreditar no pastoreio de vidas e valorizar isso.

Vemos, assim, que o modelo de ministério pastoral que temos adotado por décadas demonstra estar perdendo o fôlego. É notória a presença cada vez maior, em nossas igrejas, de alunos universitários, profissionais liberais, executivos, empresários e funcionários públicos capacitados, que colocam em desafio o modelo que, tradicionalmente, tem sido construído, inclusive, nos bancos dos seminários. Tais espaços, antes chamados escolas de profetas, necessitam preparar não mais obreiros, repetidores de práticas ministeriais que bem cabiam para o passado recente, mas que hoje já não conseguem dar conta do recado.

“ÉPOCA DA PERFORMANCE”
Vivemos na época da performance, da busca por soluções para os dilemas germinados pela cultura pós-moderna, que coloca o indivíduo e a sua subjetividade como ponto de partida e legitimação da verdade e da razão da vida. As pessoas já não estão mais interessadas na eternidade, nas ruas de ouro da Nova Jerusalém. Vivemos num mundo em que tudo parece valorizar a diversidade e a busca pelas fronteiras da prática moral e ética, onde tudo é válido, desde que traga a felicidade. Então, vivemos numa cultura do supérfluo e do vale tudo – e será que nossos púlpitos têm conseguido trazer respostas seguras e bíblicas para este turbilhão de contestações? Será que o clássico plano da salvação, fortemente calcado no Evangelho escatológico, que valoriza a morte e a busca pelo além, estaria conseguindo demonstrar a profundidade da mensagem bíblica, apontando para uma significativa razão de viver?

Tudo isso sinaliza a urgente transformação do modelo de formação teológica e ministerial, que precisa mudar de foco – da formação de obreiros para a formação de líderes. Obreiros são copiadores; são operadores práticos de um sistema; são ensinados a cumprir o verbo “fazer” no ministério. Obreiros são treinados para administrar e priorizar o dia-a-dia das atividades da igreja, e não necessariamente para ter uma visão de futuro e interpretar este mundo levando em conta tanto o ensino bíblico-teológico como primeiro ponto de partida, mas, também, considerando análises do ambientes culturais e ideológicos em que vivemos. Urge ao ministro do Evangelho conhecer as tendências que estão cimentando o chão para novos cenários, mobilizando sua visão para a busca de caminhos seguros para que o povo de Deus possa não apenas sobreviver como participar, construtiva e criativamente, da realidade histórica em que vive.

Necessitamos não apenas de escolas de profetas, mas também de escolas de líderes, de mestres, de conselheiros e conselheiras, de gente que pastoreie o povo de Deus com sabedoria, criatividade, integridade e atualidade. Homens e mulheres de Deus que saibam se valer de uma apologética dialogal, pois a lógica do confronto já não conquista ninguém. Nossos púlpitos necessitam, com urgência, atenuar a ênfase cartesiana e racional das mensagens e tratar o povo de Deus como gente de carne e osso, e não como anjos ou seres que estão apenas esperando a morte chegar. Os pastores precisam entender que as ovelhas que o assistem pregar todo domingo são seres vivos e reais, que vivem uma realidade concreta, que necessitam de respostas vivas e concretas para os seus dilemas quotidianos. Precisamos voltar a falar ao coração das pessoas – e não apenas falar ao seu cérebro.

É preocupante quando ouvimos pastores, inclusive que comandam grandes igrejas, falando com orgulho contra a reflexão, contra a busca de conhecimento. Eles querem que tudo se reduza ao viés prático, utilitário, da fé e da mensagem de Cristo. Ao invés de priorizar a salvação das almas e a transformação das vidas, parecem mais interessados em fidelizar clientes de bens simbólicos da religião. Curiosamente, até no meio empresarial se buscam modelos mais eficazes de liderança. O vice-presidente da megacorporação Google, Laszlo Bock, menciona cinco critérios para o ingresso na carreira da empresa: curiosidade, capacidade de aprender, humildade, motivação e liderança. Como seria bom se nossos pastores buscassem tais elementos para seus ministérios e vida pessoal… São critérios bem compatíveis com a visão bíblica de líderes que possam levar o povo de Deus com segurança neste mundo cada vez mais afastado do divino.

Os pastores contemporâneos precisam rever conceitos, prioridades e ocupações. Metas e alvos são bons de se perseguir, mas só – e somente só – se nos conduzirem a um novo planejamento de vida e ministério que leve em conta a singeleza do Evangelho, o valor do outro e, sobretudo, a relação com Deus. Somente assim os ministros não serão apenas pregadores, mas pastores na acepção plena do termo, que conduzem os outros e a si mesmos aos pastos verdejantes do Senhor, onde há paz e plenitude. O diálogo, a oração e a dependência irrestrita de Deus são o caminho ideal para a manutenção saudável da vida na igreja.

Lourenço Stelio Rega, teólogo e pastor batista, é doutor em Ciências da Religião, especialista em ética cristã e diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo

COMPULSÃO: O QUE É E COMO ENCONTRAR AJUDA

ULTIMATO | Nós somos sempre desejantes. Sendo seres de necessidades, carentes, nos movemos por instintos, desejos e anseios. Buscamos satisfação, alívio, prazer; e também realização, reconhecimento e transcendência. Contudo, a trajetória de cada um pode conduzir a atalhos e descaminhos perigosos.

A sociedade atual erigiu o desejo como senhor supremo. Recebemos estímulos vindos de diferentes fontes, quase sempre com o mesmo conteúdo: “se você quer, você pode!”. Visto como desafio, a assertiva pode ajudar em muito a pessoas inferiorizadas e a grupos minoritários. Porém, tal “empoderamento” também leva a consequências desastrosas. Ele facilmente passa a ser tomado no sentido moral: “se você quer, vá em frente, não aceite qualquer limitação ao seu desejo, seja ela de ordem individual ou coletiva (leis, tradições, família, religião)”. Nesse caso, não se atenta para o fato de que muitas das nossas inclinações são prejudiciais e até destrutivas a nós mesmos, aos nossos próximos e à própria sociedade. Desconhece-se a advertência milenar: “O seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.7).

Compulsões são comportamentos repetitivos que se sobrepõem à vontade individual, exigindo cada vez mais tempo e recursos, passando a dominar os interesses da pessoa. Entregues à ditadura do desejo, muitos ficam privados da sua liberdade, comprometendo outras áreas da vida. Situações, oportunidades e recursos habituais da vida cotidiana podem encobrir riscos que escravizam a muitos.

Aqui vão algumas das compulsões mais encontradas em nosso tempo:
– Dependência de substâncias, tais como drogas lícitas e ilícitas;
– Apego a jogos, desde os tradicionais jogos de azar (roleta, carteado, loterias, jogo do bicho) como também apostas e caça níqueis;
– Busca excessiva de sexo e consumo de pornografia, estimulados pelo aparente “anonimato” da Internet, redes sociais e telefones;
– Atração pela Internet e pelos jogos eletrônicos, envolvendo jovens e adultos;
– Fixação a smartfones e afins, causando pânico quando “desconectados” (Nomofobia);
– Consumo indisciplinado de alimentos, com ou sem medidas drásticas para “eliminar calorias”;
– Compras e gastos desordenados e desnecessários; e,
– Mentiras e furtos repetidos, como forma de prazer.

As próprias pessoas tendem a não admitir qualquer apego excessivo ou dependência às condições acima. Os pais, cônjuges, educadores, amigos e líderes religiosos, além dos profissionais e autoridades, têm diante de si o desafio de conscientizar tais pessoas e viabilizar canais de ajuda e tratamento. Isso se faz cada vez mais necessário.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua 5ª Edição, apresenta indicadores que servem de alerta quanto a possível dependência em algumas das áreas citadas.6 Eles são:
– Falha em cumprir as obrigações do cotidiano, em decorrência do uso ou prática;
– Uso perigo, expondo-se a situações de risco para si e/ou para outros (risco social ou legal);
– Problemas sociais e interpessoais relacionados (com familiares, amigos, vizinhos…);
– Uso em “doses” cada vez maiores para obter o grau de satisfação desejado;
– Reações intensas na impossibilidade do consumo ou da prática;
– Persistência, após esforços malsucedidos de diminuir ou abolir a prática;
– Desrespeitar seguidamente os próprios limites impostos para o uso ou prática;
– Negligenciar atividades importantes, bem como princípios e valores pessoais;
– Grande volume de tempo e recursos gastos em atividades relacionadas à prática;
– Problemas psicológicos e físicos aparecendo em decorrência; e,
– Desejo incontrolável e urgente para o uso ou prática.

Esforços individuais de superação tendem a surtir poucos resultados. Somos seres gregários e, portanto, adoecemos em sociedade e podemos nos reabilitar igualmente com a colaboração de outras pessoas. Assim, indicamos aqui alguns canais de apoio e tratamento, sugerindo que nenhum deles seja negligenciado:
– Tomada de consciência individual, dando ouvidos às advertências de familiares e amigos;
– Admissão franca da situação de vulnerabilidade, dispondo-se a buscar ajuda;
– Psicoterapia, com profissional de boa formação, se possível com experiência na área;
– Realização de exames médicos e uso de medicações próprias, se houver comprometimento físico e/ou psiquiátrico (falha no controle dos impulsos, presença de algum transtorno mental…);
– Ajuda de profissionais específicos, se for o caso (nutricionista, psicopedagogo, sexólogo, contabilista…);
– Recurso a grupos de iguais (Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos, Jogadores Compulsivos, Comedores Compulsivos, Compradores Compulsivos…);
– Orientação espiritual cristã (a Bíblia de Estudo Despertar, da Sociedade Bíblica do Brasil, oferece excelente programa de reabilitação espiritual);
– O Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo oferece programas específicos que muito podem ajudar: Ambulatório de Jogo Patológico e Outros Transtornos do Impulso (AMJO), Programa de Orientação a Pais de Adolescentes Dependentes de Internet (PROPADI). Acesse o site: www.ipqhc.org.br

Mais do que acreditar em si mesmo e nos recursos disponíveis ao redor, vale muito crer que Deus está envolvido em toda busca sincera de cura e libertação. O Seu poder e a Sua misericórdia sempre estão ao nosso alcance. Como já foi dito, a aparente “des-graça” humana, na verdade, é uma oportunidade para a graça de Deus se manifestar.

• Uriel Heckert é médico psiquiatra, mestre em Filosofia pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), doutor em Psiquiatria pela USP (Universidade de São Paulo) e membro pleno do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC).

O MARIDO DE MARIA E PAI DE JESUS

ULTIMATO | No relato bíblico do Advento, Maria tem um papel preponderante. Não consideramos a história a partir da perspectiva do pai. José tem pouca importância, aparece em segundo plano.

Lemos profecias no Antigo Testamento sobre a virgem que conceberá e dará a luz a um filho e o chamará Emanuel. No Novo Testamento, um anjo fala com ela e no “Magnificat” ela canta como foi honrada por Deus e que todas as gerações a considerarão bem-aventurada.

Diante de uma Maria tão íntima de Deus, celebrada por todos, como fica José? Qual o papel dele nessa história? Qual sua importância nessa família? Não há menção da vida de José, exceto no nascimento de Jesus e quando este, aos doze anos, vai ao Templo.

José não viu seu filho adulto, sua morte e sua ressurreição, e provavelmente morreu quando Jesus tinha entre 12 e 30 anos de idade. Não há registro no Novo Testamento de uma só palavra que José teria dito. Ele não foi predito no Antigo Testamento e até as ordens de Deus foram dadas por anjos ou através de sonhos. José deve ter se perguntado: qual a minha contribuição? Como poderei servi-lo?

José teve o privilégio único de ser pai (no sentido da paternidade humana) de Jesus Cristo. Pouco pode fazer um pai no nascimento de um filho. Apoiar, cortar o cordão, observar de fora, a cena é toda da mãe. Mas, nos momentos que se seguem, nos anos da infância e da adolescência, a presença, os gestos, as atitudes, as palavras do marido e do pai são fundamentais para a estruturação, a proteção e a integridade física e emocional da família.

Sabemos que a ausência da figura paterna gera transtornos e famílias disfuncionais. Não foi assim na família de José, ele estava presente. Ele foi um dos instrumentos de Deus na formação de Jesus Cristo. Sabemos que Jesus aprendeu diretamente do Espírito e das Escrituras, mas certamente também aprendeu do exemplo do seu pai José.

O que poderia ter oferecido José a Jesus senão uma paternidade amorosa, presente, protetora, dando o exemplo de amar e servir a Deus com sua própria vida?

O noivado naquela época era mais importante do que hoje. Acordo público entre duas famílias. Aspecto familiar, legal que selava de maneira definitiva o compromisso entre dois jovens. José descobre que Maria está grávida sem que ele a houvesse tocado. Estava grávida “de outro”! Isso configurava adultério e a dureza da lei mandava apedrejar.

José, sem saber do anúncio dos anjos, da concepção virginal pelo Espírito Santo, sem ainda ter conversado com Maria, no seu coração terno e bondoso, não queria vingança, mas decide proteger a reputação e a vida daquela a quem ama. Quantos de nós faríamos o mesmo?

José poderia crer que Maria se relacionou com outro na véspera de seu casamento, mas no lugar de vingar a possível traição, no lugar de se refugiar em sua ferida exigindo a reparação, ele resolve deixá-la secretamente, abre mão de sua prerrogativa de noivo, não acusa nem se vinga. José é uma expressão da graça de Deus. Esta atitude certamente influenciaria Jesus nos próximos anos: a atitude de um pai que, ao invés de agressividade e vingança, buscava maneiras de fazer o bem e abençoar as pessoas que amava, mesmo quando ferido por elas.

Como somos na qualidade de maridos e pais? Muitas esposas e filhos vivem no temor de fazer algo errado, algo que possa despertar a violência e o desprezo de seus maridos e pais. Com medo de errar, tornam-se previsíveis, sem criatividade, não arriscam, são reprimidos, enterrando seu potencial. Homens que lidam com o erro da mulher e dos filhos na ótica da bronca e da cara feia.

Certamente Jesus aprendeu com o coração bondoso, abençoador e protetor de José

Tão logo José soube do plano de Deus, ele se casou com Maria, preservando-a de qualquer acusação e assumindo publicamente o filho como dele. Ele adotou Jesus. Ele protegeu Maria na viagem da Galileia para Belém. Noventa quilômetros, subida íngreme com a mulher grávida de nove meses.

Ele protegeu Maria e Jesus da insanidade homicida de Herodes, exilando-se com os dois no Egito. Proteção e provisão numa longa viagem e na instalação em uma terra estranha. José os levou de volta a Nazaré, sãos e salvos. Ele proveu um lar e, com seu ofício de carpinteiro, sustentou a sua família, inclusive os outros filhos que teve com Maria.

Uma das tragédias de nosso tempo é a da ausência paterna. Muitos filhos crescem órfãos de pais vivos, criados basicamente pela mãe. Pouco contato prolongado, significativo e afetivo entre pais e filhos. José ofereceu presença, proteção, provisão e afeto à sua família. Esse foi seu chamado e vocação como homem.

José foi provedor e protetor de sua família e certamente foi fundamental na formação do menino, do adolescente e do jovem Jesus Cristo

José estava sempre pronto a obedecer, mesmo diante de ordens que lhe pareceram estranhas: casar com a noiva grávida de outro; fugir às pressas para o Egito com sua família e depois de instalado voltar para sua casa em Nazaré. Ele não argumentou, não discutiu, não hesitou, não adiou, não racionalizou. Ele fez o que o Senhor o mandou fazer.

Como pais, desejamos tanto que nossos filhos sejam bons cristãos, honestos, obedientes, respeitadores, generosos, aplicados e não queremos que gastem seus dias conectados às redes sociais ou videogames; não queremos que andem com más companhias. Mas será que damos o exemplo? O maior dano que podemos fazer as próximas gerações é o de falar, ensinar e exigir comportamentos e atitudes que nós mesmos não vivemos.

Deus escolhe José, um homem obediente, para ser o pai terreno de Cristo, para criar aquele menino que um dia obedeceria a ordem de dar a sua própria vida na cruz. Jesus certamente aprendeu a obediência por meio do exemplo de seu pai adotivo, José.

Se os magos tinham incenso, ouro e mirra para oferecer a Jesus, se Maria tinha seu útero, o seu seio e sua dedicação, José tinha o exemplo de sua vida

Ele amou Maria, sua esposa, com um amor perdoador, gracioso, generoso e abençoador num momento adverso e doloroso. Ele assumiu as responsabilidades de prover, proteger, amar e estar presente com sua família, apesar das circunstâncias perigosas e instáveis. Ele era um homem obediente a Deus, obedecia de imediato e de coração, sem argumentar ou hesitar. Estas qualidades ele ofereceu à sua família e elas foram fundamentais na formação de Jesus. José não foi uma figura proeminente nas Escrituras, mas sua vida discreta e íntegra foi essencial para que a história do Evangelho fosse escrita.

O impacto de José sobre a sua família, na vida de Jesus e na história não é pelo que ele falou, sua linguagem, persuasão, pregação, liderança religiosa, prestígio, poder, mas pelo que viveu. Lemos nos Evangelhos que, já conhecido e com certa notoriedade, Jesus volta a Nazaré sua cidade natal e o povo pergunta: “Não é este o filho do carpinteiro?”. Apesar de não crerem em Cristo, eles reconheceram que Jesus era filho do quieto e discreto carpinteiro da aldeia.

Jesus Cristo tem seus títulos messiânicos como Filho de Deus, o Filho do Homem e Filho de Davi. Mas é também lembrado na sua identidade como o “Filho do Carpinteiro”.