CASAS QUE EMBURRECEM

RUBEM ALVES | “O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!”

Quem disse foi o Riobaldo, com o que concordo e também digo amém. Pois eu estava rastreando uns camundongos burros criados pelo professor Tsien e umas teorias do professor Reuben Fererstein (pronuncia-se fóier-stáin) no meio de uma mataria de ideias quando topei com um menino de sandálias havainas na porta do aeroporto de Guarapuava, que fez minha rastreação parar. O que ele me pedia era mais importante: pedia que eu lhe comprasse um salgadinho para ajudar. Parei, comprei, comi, perdi o rumo, deixei de rastrear os camundongos do professor Tsien e as teorias do professor Feuerstein, entrei por uma “digressão”, meu pensamento excursionou ao sabor das minhas emoções – mas agora estou de volta, o faro de cão rastreador afinado de novo.

Pois o professor Tsien, da Universidade de Princeton, deu-se ao trabalho de criar camundongos mais burros que os domésticos. Se você se espanta com o fato de um cientista gastar tempo e dinheiro para produzir camundongos burros, desejo chamar a sua atenção para o fato de que a burrice é muito útil, do ponto de vista político e social. Aldous Huxley afirma que a estabilidade social do Admirável mundo novo se devia aos mecanismos psicopedagógicos cujo objetivo era emburrecer as pessoas. A educação se presta aos mais variados fins. Pessoas inteligentes, que vivem pensando e tendo ideias diferentes, são perigosas. Ao contrário, a ordem político-social é mais bem servida por pessoas que pensam sempre os mesmos pensamentos, isto é, pessoas emburrecidas. Porque ser burro é precisamente isto, pensar os mesmos pensamentos – ainda que sejam pensamentos grandiosos. Prova disso são as sociedades das abelhas e das formigas, notáveis por sua estabilidade e capacidade de sobrevivência.

Os camundongos burros do professor Tsien, confrontados com situações problemáticas, eram sempre derrotados pelos camundongos domésticos. Mas o objetivo da pesquisa era inteligente. o professor Tsien queria testar uma teoria: a de que, se os camundongos burros fossem colocados em situações interessantes, estimulantes, desafiadoras, sua inteligências inferior construiria mecanismos que os tornariam inteligentes. Em outras palavras: limitações genéticas da inteligência podem ser compensadas pelos desafios do meio ambiente. Assim, ele colocou os camundongos burros em gaiolas que mais se pareciam com parques de diversão, dezenas de coisas a serem feitas, dezenas de situações a serem exploradas, dezenas de objetos curiosos. Como mesmo os burros têm curiosidade e gostam de fuçar, os camundongos começaram a agir. Depois de um certo período de tempo, colocados em situações idênticas juntamente com os camundongos domésticos, os camundongos burros tinham deixado de ser burros. Não ficaram de recuperação.

Não conheço a obra do professor Feuerstein. Suas teorias sobre a inteligência me foram contadas. Fiquei fascinado. Desejo que ele esteja certo. Pois o que ele pensa está de acordo com as conclusões de laboratório do professor Tsien. Feuerstein tem interesse especial em pessoas que, por fatores genéticos (Síndrome de Down, por exemplo) ou ambientais (ambientes pobres econômica e culturalmente), tiveram suas inteligências prejudicadas. Diante de testes o seu desempenho é inferior ao de crianças “normais”. Sua hipótese, testada e confirmada, é que, se tais pessoas forem colocadas em ambientes interessantes, desafiadores e variados, sua inteligência inferior sofrerá uma transformação para melhor. A inteligência se alimenta de desafios, ela murcha e encolhe. As inteligências privilegiadas podem também ficar emburrecidas pela falta de excitação e desafios.

Isso me fez dar um pulo dos camundongos do professor Tsien, das teorias do professor Feuerstein, para as casas onde moramos. Nossas casas são um dos muitos ambientes em que vivemos. Cada ambiente é um estímulo para a inteligência. (É difícil ser inteligente num elevador. No elevador só há uma coisa a fazer: apertar um botão…). E pensei que há casas que emburrecem e há casas onde a inteligência pode florescer.

Não adianta ser planejada por arquiteto, rica, decorada por profissionais, cheia de objetos de arte. Não sei se decoração é arte que se aprende em escola. Se a decoração se aprende em escola, pergunto se existe, no currículo, uma matéria com o título “Decoração de emburrecer – Decoração para provocar a inteligência”… Essa pergunta não é ociosa. Casas que emburrecem tornam as pessoas chatas. Criam o tédio. Imagino que muitos conflitos conjugais e separações se devem ao fato de que a casa, finamente decorada, emburrece os moradores. Lá os objetos não podem ser tocados. Tudo tem que estar em ordem, um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar. Orgulho da dona de casa, casa em ordem perfeita.

Acho que foi Jaspers que disse que não precisava viajar porque todas as coisas dignas de serem conhecidas estavam na sua casa. Jaspers viajava sem sair de casa. Mas há casas que são um tédio: lugar para dormir, tomar banho, comer e ver televisão não há mais o que fazer na casa, e o remédio é sair de gaiola tão chata e ir para outros lugares onde coisas interessantes podem ser encontradas. Sugiro aos psicopedagogos que, ao lidarem com uma criança supostamente burrinha, investiguem a casa em que ela vive. O quarto mais fascinante do sobradão colonial do meu avô era o quarto do mistério, de entrada proibida, onde eram guardadas, numa desordem total, quinquilharias e inutilidades acumuladas durante um século. Ali a imaginação da gente corria solta. Já a sala de visitas, linda e decorada, era uma chatura. A criançada nunca ficava lá. Na sala de visitas a única coisa que me fascinava eram os vidros coloridos importados, lisos, através dos quais a luz do sol se filtrava.

Na minha experiência, a inteligência começa nas mãos. As crianças não se satisfazem com o ver: elas querem pegar, virar, manipular, desmontar, montar. Um amante se satisfaria com o ato de ver o corpo da amada? Por que, então, a inteligência iria se satisfazer com o ato de ver as coisas? A função dos olhos é mostrar, para as mãos, o caminho das coisas a serem mexidas.

Acho que uma casa deve estar cheia de objetos para serem mexidos. A casa, ela mesma, é para ser mexida. Razão por que eu prefiro as casas velhas. Tenho um amigo que comprou um lindo apartamento, novinho, e morre de tédio. Porque não há, no seu apartamento, nada para ser consertado. Eu sinto uma discreta felicidade quando alguma coisa quebra ou enguiça. Porque, então, eu posso brincar…

Os livros precisam estar ao alcance das mãos. Em todo lugar. Na sala, no banheiro, na cozinha, no quarto. Muito útil é uma pequena estante na frente da privada, com livros de leitura rápida. Livros de arte, por exemplo! É preciso que as crianças e os jovens aprendam que livros são mundos pelas quais se fazem excursões deliciosas. Claro! Para isso é preciso que haja guias! Cuidado com os brinquedos: brinquedo é um objeto que desafia a nossa habilidade com as mãos ou com as ideias. Esses brinquedos de só apertar um botão para uma coisa acontecer são objetos emburrecedores – aperta um botão, a boneca canta; aperta outro botão, a boneca faz xixi; aperta um botão, o carro corre. Não fazem pensar. No momento em que a menina resolver fazer uma cirurgia na boneca para ver como a mágica acontece – nesse momento ela estará ficando inteligente. Quebra-cabeças: objetos maravilhosos que desenvolvem uma enorme variedade de funções lógicas e estéticas ao mesmo tempo. Armar quebra-cabeças à noite: uma excelente forma de terapia familiar e pedagogia: o pai ensinando ao filho os truques. Ferramentas: com elas as crianças desenvolvem habilidades manuais, aprendem física e experimentam o prazer de consertar ou fazer coisas. A quantidade de conhecimento de física mecânica que existe numa caixa de ferramentas é incalculável. A cozinha aberta a todas. A cozinha é um maravilhosos laboratório de química. Cozinhar educa a sensibilidade.

Você nunca havia pensado nisso, na relação entre a sua casa e a sua inteligência, a sua inteligência e a inteligência dos seus filhos. Sua casa pode ser emburrecedora. Ou pode ser um espaço fascinante onde os camundongos do professor Tsien repentinamente ficam inteligentes…

SAÚDE MENTAL

RUBEM ALVES | Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.

Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco, Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou-se. Todas elas, pessoas lúcidas e profunda e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.

Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as ideias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem-unida, jamais permitindo que o coro falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa…

Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.

Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente, “equipamento duro”, e a outra denomina-se software, “equipamento macio”. O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com eu o aparelho é feito. O software é constituído por entidades “espirituais” – símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes.

Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco, há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software, há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.

Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.

Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias.

Opte por um soft modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo esta receita, você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.

* Crônica retirada do livro “As melhores crônicas de Rubem Alves”, editora Papirus, 2008.

PROFETA, PROFACE E PROFENET

NEIR MOREIRA | Passava do meio-dia.

Enquanto eu subia os degraus daquele belo templo pertencente a uma igreja pentecostal, uma cantora entoava uma melodia recheada com um texto essencialmente triunfalista:

“Vou profetizar vitória e conquistar vitória”!

Os decibéis foram despejados para a plateia interna e ainda sobejaram alguns para a vizinhança daquele espaço religioso.

O refrão acima – repetido diversas vezes – ficou martelando minha mente por alguns dias. A princípio demonstra ser uma mensagem encorajadora e entusiasta para tempos difíceis da igreja contemporânea. Correto? Negativo! Para além de uma letra altamente positiva e teologicamente triunfalista, é possível identificar um erro crasso muito comum nesse contexto eclesiástico.

A profecia – enquanto dom divino concedido através da fé à algumas pessoas com a finalidade de edificar, exortar e consolar (definição paulina encontrada em 1Co 14.3) – tem sido “usada” por indivíduos que pretensamente visam “ajudar” os leigos e carentes de promessa.

No entanto, observando a nova realidade profética no Brasil (e no mundo), alguns comportamentos denunciam um procedimento que segue na contramão do princípio bíblico.

A forma como muitos enunciam suas profecias (em alguns casos, profetadas) dá-se a impressão que estão pedindo autorização para profetizarem. É uma “preparação” do terreno para que ninguém estranhe o que está por vir. Estranho!

Se em anos atrás as profecias faziam as pessoas temerem em função da “revelação” que Deus concedera ao portador da nova espiritual, hoje em dia, há uma comemoração em decorrência das promessas que Deus supostamente está despejando sobre a sua igreja e também sobre os incrédulos (atualmente esses não são chamados à conversão, mas estimulados a almejarem conquistas e vitórias).

Salgada ou melada? Na verdade, a profecia divina não tem sabor, ela tem conteúdo!

Profetas bíblicos como Jeremias e Malaquias empregaram o termo “peso do Senhor” numa evidente manifestação do caráter de julgamento divino sobre homens e mulheres. Uma “palavra pesada” parece ter ficado no passado, onde quem ditava o perfil e rumo das nossas vidas era Deus e não um mero desejo de conquista material.

Lamentavelmente, o cenário atual revela muitos palestrantes e poucos ensinadores, muitos oradores e poucos pregadores, muitos cantores e poucos louvadores, muitos profetizadores e poucos profetas.

Quanto aos profetas, você já deve ter acessado sua rede social e ter-se deparado com alguma “profecia virtual”: aquelas que garantem que você vai ter um dia maravilhoso, uma semana poderosa e um mês fantástico (só esquecem de informar a base bíblica).

Daí eu fiquei confuso: como identificar esse nosso ministério? Seria essa pessoa um Profeta ou Proface?

Bem, parece confortável “profacear” para a rede de amigos sem se comprometer com a qualidade dos oráculos proferidos. Afinal, quem vai compartilhar o “post da revelação” e enviar uma mensagem denunciando a fraude na linha do tempo do profenet?

É evidente que a profecia é fundamental, mas a Palavra é indispensável. Afinal, “não havendo profecia, o povo perece; porém o que guarda a lei, esse é bem-aventurado” (Pv 29.18).

Sábias palavras do profeta Salomão!

JEOVÁ “CHAPA QUENTE”!

NEIR MOREIRA | O Congresso Internacional dos Gideões Missionários da Última Hora (GMUH) é um dos maiores eventos desta natureza no contexto pentecostal brasileiro, o qual é realizado anualmente na cidade de Camboriú (Santa Catarina). De acordo com o site oficial, os Gideões Missionários sustentam mais de 1.300 famílias (no Brasil e em outros 42 países).

A força deste trabalho missionário é notório não apenas entre os pentecostais, mas também entre os que apoiam a obra missionária idealizada e iniciada pelo pastor Cesino Bernardino no final da década dos 70. Além disso, a população local e seus políticos enxergaram nos Gideões uma alavanca turística a qual faz o município aumentar consideravelmente sua “população” nos 10 dias de festa que geralmente ocorre entre os meses de abril e maio. Ressalte-se também que esse Congresso é tido como uma vitrine e plataforma para muitos pregadores e cantores itinerantes Brasil a fora.

Em 2013, em função do meu trabalho, foi a minha segunda experiência nesse Congresso (a primeira foi no longínquo 1994 – uma aventura de cinco amigos apilhados num indefectível Opala).

Hospedado juntamente com a minha equipe de trabalho numa casa próxima ao templo sede da igreja (um dos locais onde ocorre o Congresso), tinha a nosso favor a proximidade entre a hospedagem e o ginásio de esportes – local onde abriga as principais reuniões. Isso não quer dizer que o trajeto seja fácil e rápido. Muito ao contrário! É preciso não ter pressa para se tentar chegar a algum ponto no meio da multidão que teima em aumentar a cada minuto.

Quem gosta dos Gideões mas sofre de agorafobia tem duas opções: ou fica em casa assistindo pela net, ou precisa ter fé e ser curado nos minicultos que ocorrem o tempo todo e em cada esquina num som que escandalizaria qualquer decibelímetro.

No último domingo da festa e era perceptível a expectativa nas caras e bocas dos vendedores que disputavam, na base do gogó, a preferência dos consumidores que se espremiam nas vielas que circundam o local do evento. Não é o caso enumerar aqui o que se vende ali. Difícil é encontrar uma pessoa que não tenha comprado “algumas coisinhas” nos Gideões. Ou seja, lá se compra de tudo (pergunte a um gideonita). E, obviamente, se vende quase tudo (indague a um expositor)!

Enquanto eu distribuía o meu material de marketing (entre um esbarrão e outro – o que é inevitável) fui chacoalhado por uma expressão bradada (eles gostam deste termo) dentro de uma daquelas barracas a qual foi introjetada para dentro dos meus tímpanos:

– JEOVÁ “CHAPA QUENTE”!

Bem, a minha veia teológica está estourando e me convidando a dissecar esse termo, mas a minha veia psicológica me diz que eu devo me controlar. Por ora, a segunda vence (ou domina) a primeira.

Duas observações, no entanto, cabem aqui.

Em primeiro lugar, como todo o ser humano inserido num contexto específico, ele vai desenvolver um comportamento aceito e compartilhado por seus pares. Um aspecto pontual é o idioma. Nesse caso, consigo identificar o gideonês. Ou seja, algumas expressões que nascem e proliferam entre os gideonitas (termo criado para designar um apoiador e seguidor dos Gideões Missionários).

Em segundo lugar, é óbvio que um trabalho dessa envergadura atrai tanto admiradores quanto críticos da obra missionária. Isso é fato! Penso apenas que somente deve tomar o tempo para criticar quem conhece in loco o referido movimento. Talvez valesse a sugestão: todos deveriam visitar, pelo menos uma vez na vida, a “Meca das Missões”. Afinal, se visitar Maaca é um sonho distante para os meus amigos muçulmanos, conhecer os Gideões é bem mais barato; mas não menos concorrido.

Detalhe 1: se o acesso a Meca é proibido às pessoas que não são muçulmanas, Camboriú abre os braços, casas, quartos, apartamentos, e cada metro quadrado a todos os amantes da obra missionária.

Detalhe 2: enquanto os muçulmanos afortunados dirigem-se à Meca para sua purificação espiritual, os missiólogos, missionários e “missioneiros” podem ser renovados espiritualmente através das mensagens e músicas ministradas quase que 24 horas por dia na capital missionária do Brasil.

Finalmente, embora eu não me considere um gideonita, aprendi o seguinte em relação a eles:

Ou você os ama ou os despreza, mas nunca os ignora!

Ademais, quer você goste, ou não, eles estão fazendo a obra missionária. Em alto e bom som!

Ficou curioso ou curiosa? Arrume as malas, encha o tanque, separe uma cadeira dobrável e desça a serra. Afinal a versão 2014 do Congressos dos Gideões começa no próximo sábado. Se não achar nenhuma “hospedaria”, durma no Opala mesmo…

MEU APOLITICISMO

NEIR MOREIRA | Em tempos de campanha política, sugiro a leitura de uma das minhas crônicas que trata sobre o contexto político brasileiro…

Eu me julgo apolítico. Não etimológica, mas essencialmente. Não me refiro à política como a arte ou ciência da organização, direção e administração, o que está presente em praticamente toda a esfera de procedimentos relativos a “polis” (cidade), mas àquela praticada notadamente pelos representantes das unidades da federação brasileira.

É óbvio que o simples fato de me posicionar frente à estrutura que suporta todo o partidarismo tupiniquim já se pode configurar uma política. Se me permitem: faço política do meu apoliticismo – ou seja, a minha rejeição a qualquer envolvimento em questões meramente partidárias.

Contrariando a maioria dos e-mails que enchem a minha caixa de entrada, recentemente recebi um que não merecia a lixeira, e coincidentemente fora enviado por uma cidadã brasiliense. A veracidade do seu teor discorria sobre o comportamento de um determinado povo. Segundo ele:

– Quem não estaciona nas calçadas apesar das placas?

– Quem não fala no celular enquanto dirige?

– Quem não trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento?

– Quem não para em filas duplas, triplas?

– Quem não registra seu imóvel no cartório com valor abaixo do comprado com o intuito de pagar menos impostos?

– Quem não compra recibos para abater na declaração do imposto de renda a fim de pagar menos imposto?

– Quem não viola a lei do silêncio?

– Quem não dirige após consumir bebida alcoólica?

– Quem não suborna ou pelo menos tenta quando é pego cometendo infração?

– Quem não utiliza atestados médicos sem estar doente a fim de faltar ao trabalho?

– Quem não faz “gato” de luz, de água e de TV a cabo?

– Quem não muda a cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas?

– Quem não altera para mais o valor da nota fiscal quando viaja a serviço pela empresa?

– Quem não estaciona em vagas exclusivas para deficientes?

– Quem não adultera o velocímetro do carro para vendê-lo mais facilmente?

– Quem não mente a idade do filho para que este não pague passagem?

– Quem não emplaca o carro fora do seu domicílio para amenizar o IPVA?

– Quem não frequenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho?

– Quem não apanha do local de trabalho pequenos objetos como clipes, envelopes, canetas, lápis, como se isso não fosse roubo?

– Quem não mente ao agente federal sobre o conteúdo da bagagem quando volta do exterior?

– Quem não saqueia as cargas de veículos acidentados nas estradas?

– Quem não troca votos por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, dentadura, cadeira de roda, cesta básica?…

Que povo é esse? Quem procede assim?

Pensa… Pensa…

Difícil assegurar categoricamente. Diversos testes de fidelidade foram aplicados em muitos países. E o resultado é tão diverso e complexo quanto à própria história da espécie humana.

É evidente que não se pode generalizar, mas uma das provas que ratificam o perfil ético de uma nação é exatamente o seu extrato político. Um país cujos representantes políticos em sua grande maioria são graduados em oratória e persuasão, mas infelizmente foram reprovados nas disciplinas elementares da ética e do respeito ao cidadão, mereceria uma espécie de “ENEM-Político”.

Sinto-me envergonhado quando os MESMOS telejornais veiculam os MESMOS políticos respondendo as MESMAS perguntas do MESMO jeito. Sinto-me envergonhado quando anualmente CPIs são criadas e raramente somos informados da sua conclusão (vergonhosamente “terminar em pizza” é uma expressão genuinamente brasileira). Sinto-me envergonhado, pois o meu Estado frequentou os noticiários em função de um deputado paranaense literalmente voar a 190 km, no perímetro urbano, ceifando a vida de dois jovens. Sinto-me envergonhado pelos parlamentares oriundos dos redutos evangélicos e sua pífia contribuição para o resgate da credibilidade da referida classe política.

Em tempo: mesmo no Brasil há raras e caras exceções. Que bom elas existem. Pena que se pode contar nos dedos.

Dia desses durante um evento acadêmico, o orador foi questionado sobre o estigma que Brasília carrega pelo fato de acolher a sede o poder político brasileiro. Lembro-me claramente da expressão facial do professor e especialmente de sua resposta: “Quem, afinal, envia os políticos para lá? Não são todos os Estados brasileiros?”…

Silêncio estratégico…

Brasília é tão brasileira quanto às demais capitais e cidades. Do Oiapoque ao Chuí. A corrupção não tem a marca “made in Brasília”. A impunidade, infelizmente, veste verde e amarelo. E com colarinho branco, jaleco cinza, cinto dourado e botas enlameadas.

Meu apoliticismo se justifica pelo fato de não se poder esperar melhores políticos sem a renovação da origem onde são “criados”. Enquanto a sociedade reproduzir este tipo de comportamento será impossível enviar um novo colegiado que nos represente dignamente em Brasília, Curitiba ou em qualquer município brasileiro. Investir na família, na educação, e especialmente no resgate dos princípios éticos é o mínimo que se pode esperar para filtrar esta atmosfera que teima em repousar sobre este gigante adormecido em berço esplêndido.

Mas há um remanescente que não se sujeita às falcatruas. Quer políticas quer não. Há um contingente de brasileiros pálidos de insatisfação e ao mesmo tempo vermelhos de vergonha. Alvirrubro: talvez seja a cor que melhor represente aqueles que resistem à tentação de pertencer à banda podre da política nacional. Acredito, sim, que uma célula sadia pode combater o vírus da decadência moral e espiritual.

Enfim, quanto a mim: apolítico sim, sonhador talvez, incrédulo nunca.

NEGUINHO DE ALMA BRANCA

NEIR MOREIRA | Passava das doze horas e o meu cuco biológico já dava os primeiros sinais de fome. Sabe como é: nessas horas a gente foge do trabalho e corre para o restaurante.

Após me servir no buffet, sentei-me à mesa junto ao vidro que dava para a rua. Entre uma garfada e outra, uma olhadela na agitação característica do último mês do ano. Entre uma garfada e outra, um pensamento como tempero de um cronista. Entre uma garfada e outra, um comentário, no mínimo, inoportuno…

O que eu ouviria naquele instante, por pouco não me tira a fome. Embora eu não soubesse dizer se foi um elogio ou uma explicação fisiológica. O certo é que constrangeu. Tanto a mim quanto os demais presentes no pequeno estabelecimento comercial.

“Tá aqui um neguinho de alma branca” – disse um sujeito a outro com a mão sobre o meu ombro. Talvez com o intuito de reforçar, a expressão veio acompanhada de um sorriso inominável.

Eu deixaria quieto – eu diria na gíria da galera – mas não foi possível.

“Por que branca”? – quis saber minha pobre alma descolorida ante a surpresa.

A resposta veio visual e verbalmente. Se a boca fala do que está cheio o coração, também é verdade que a face revela o interior do miocárdio.

“Antigamente…” – essa foi a tentativa de explicação que, devo admitir, não consegui ouvir, sequer entender.

Então, a alma realmente tem cor? Taí uma questão que gravita na interface da teologia-filosofia… ou seria da teologia-medicina?

Se tem, qual é? Branca, preta, vermelha, ou seria incolor?

Se tem, cada cor “combina” com a pele? O branco tem alma branca, o negro tem alma escura, o asiático tem alma amarela?

Ou qual a “melhor” cor para cada tipo de pele? Talvez uma loira prefira alma dourada, o índio a alma vermelha, o asiático uma alma negra, e o crioulo uma alma alva. Quem sabe…

Bem, se não temos respostas a todas as perguntas, retomo duas ciências para formular novas questões: a psicologia e a teologia.

Em primeiro lugar, eu tive um professor na minha graduação em psicologia o qual tinha uma questão em aberta bem interessante. Ele se/nos perguntava: porque negritamos o texto e nunca o branqueamos?

Em segundo lugar, costumeiramente no contexto eclesiástico ensinamos nossas crianças que quem comete pecado fica com o coração negro! Será? Qual a base bíblica?

Nesse caso, o céu é todo branco e o inferno todo preto. Parece que os anjos são alvos e os demônios negros. Eu disse: parece…

Curiosamente em Curitiba quando se quer apenas café pede-se “café preto”; se é com leite, “pingado”. Aí, fiquei pensando qual seria a cor do café. Mesmo porque quando misturamos “café preto” com “leite branco” não tomamos “pingado cinza”… Fiquei pensando…

Também fiquei pensando na expressão que ouvi. Pensei também qual seria a reação daquele indivíduo se fosse o contrário; se por acaso eu lhe dissesse: “olá branquinho de alma preta”! Pensando bem, não combina. Além do mais ele ficaria chateado. Poderia gerar uma discussão boba. Estragaria o sagrado momento da alimentação dele. Revelaria o lado negro da minha alma branca. Essas coisas…

Melhor ficar só pensando… No máximo, escrevendo…

Mesmo porque jamais faria apologia da cor da minha epiderme. Se ser negro não é menos importante do que ser branco; se ser negro não é menos inteligente do que ser branco; se ser negro não é menos humano do que ser branco; porque eu deveria saber a cor da minha alma. Logo, não pretendo descobrir tampouco aceito que me sugiram cores.

Boaventura Santos afirmou que “temos o direito de ser iguais sempre que as diferenças nos inferiorizam; e temos o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza”.

Se eu desconheço a cor da minha alma, estou ciente apenas que ela foi lavada.

Lavada, sim! Pelo sangue do Cordeiro.

Colorida, não! Pelo licor do preconceito.