PROFETA, PROFACE E PROFENET

NEIR MOREIRA | Passava do meio-dia.

Enquanto eu subia os degraus daquele belo templo pertencente a uma igreja pentecostal, uma cantora entoava uma melodia recheada com um texto essencialmente triunfalista:

“Vou profetizar vitória e conquistar vitória”!

Os decibéis foram despejados para a plateia interna e ainda sobejaram alguns para a vizinhança daquele espaço religioso.

O refrão acima – repetido diversas vezes – ficou martelando minha mente por alguns dias. A princípio demonstra ser uma mensagem encorajadora e entusiasta para tempos difíceis da igreja contemporânea. Correto? Negativo! Para além de uma letra altamente positiva e teologicamente triunfalista, é possível identificar um erro crasso muito comum nesse contexto eclesiástico.

A profecia – enquanto dom divino concedido através da fé à algumas pessoas com a finalidade de edificar, exortar e consolar (definição paulina encontrada em 1Co 14.3) – tem sido “usada” por indivíduos que pretensamente visam “ajudar” os leigos e carentes de promessa.

No entanto, observando a nova realidade profética no Brasil (e no mundo), alguns comportamentos denunciam um procedimento que segue na contramão do princípio bíblico.

A forma como muitos enunciam suas profecias (em alguns casos, profetadas) dá-se a impressão que estão pedindo autorização para profetizarem. É uma “preparação” do terreno para que ninguém estranhe o que está por vir. Estranho!

Se em anos atrás as profecias faziam as pessoas temerem em função da “revelação” que Deus concedera ao portador da nova espiritual, hoje em dia, há uma comemoração em decorrência das promessas que Deus supostamente está despejando sobre a sua igreja e também sobre os incrédulos (atualmente esses não são chamados à conversão, mas estimulados a almejarem conquistas e vitórias).

Salgada ou melada? Na verdade, a profecia divina não tem sabor, ela tem conteúdo!

Profetas bíblicos como Jeremias e Malaquias empregaram o termo “peso do Senhor” numa evidente manifestação do caráter de julgamento divino sobre homens e mulheres. Uma “palavra pesada” parece ter ficado no passado, onde quem ditava o perfil e rumo das nossas vidas era Deus e não um mero desejo de conquista material.

Lamentavelmente, o cenário atual revela muitos palestrantes e poucos ensinadores, muitos oradores e poucos pregadores, muitos cantores e poucos louvadores, muitos profetizadores e poucos profetas.

Quanto aos profetas, você já deve ter acessado sua rede social e ter-se deparado com alguma “profecia virtual”: aquelas que garantem que você vai ter um dia maravilhoso, uma semana poderosa e um mês fantástico (só esquecem de informar a base bíblica).

Daí eu fiquei confuso: como identificar esse nosso ministério? Seria essa pessoa um Profeta ou Proface?

Bem, parece confortável “profacear” para a rede de amigos sem se comprometer com a qualidade dos oráculos proferidos. Afinal, quem vai compartilhar o “post da revelação” e enviar uma mensagem denunciando a fraude na linha do tempo do profenet?

É evidente que a profecia é fundamental, mas a Palavra é indispensável. Afinal, “não havendo profecia, o povo perece; porém o que guarda a lei, esse é bem-aventurado” (Pv 29.18).

Sábias palavras do profeta Salomão!

JEOVÁ “CHAPA QUENTE”!

NEIR MOREIRA | O Congresso Internacional dos Gideões Missionários da Última Hora (GMUH) é um dos maiores eventos desta natureza no contexto pentecostal brasileiro, o qual é realizado anualmente na cidade de Camboriú (Santa Catarina). De acordo com o site oficial, os Gideões Missionários sustentam mais de 1.300 famílias (no Brasil e em outros 42 países).

A força deste trabalho missionário é notório não apenas entre os pentecostais, mas também entre os que apoiam a obra missionária idealizada e iniciada pelo pastor Cesino Bernardino no final da década dos 70. Além disso, a população local e seus políticos enxergaram nos Gideões uma alavanca turística a qual faz o município aumentar consideravelmente sua “população” nos 10 dias de festa que geralmente ocorre entre os meses de abril e maio. Ressalte-se também que esse Congresso é tido como uma vitrine e plataforma para muitos pregadores e cantores itinerantes Brasil a fora.

Em 2013, em função do meu trabalho, foi a minha segunda experiência nesse Congresso (a primeira foi no longínquo 1994 – uma aventura de cinco amigos apilhados num indefectível Opala).

Hospedado juntamente com a minha equipe de trabalho numa casa próxima ao templo sede da igreja (um dos locais onde ocorre o Congresso), tinha a nosso favor a proximidade entre a hospedagem e o ginásio de esportes – local onde abriga as principais reuniões. Isso não quer dizer que o trajeto seja fácil e rápido. Muito ao contrário! É preciso não ter pressa para se tentar chegar a algum ponto no meio da multidão que teima em aumentar a cada minuto.

Quem gosta dos Gideões mas sofre de agorafobia tem duas opções: ou fica em casa assistindo pela net, ou precisa ter fé e ser curado nos minicultos que ocorrem o tempo todo e em cada esquina num som que escandalizaria qualquer decibelímetro.

No último domingo da festa e era perceptível a expectativa nas caras e bocas dos vendedores que disputavam, na base do gogó, a preferência dos consumidores que se espremiam nas vielas que circundam o local do evento. Não é o caso enumerar aqui o que se vende ali. Difícil é encontrar uma pessoa que não tenha comprado “algumas coisinhas” nos Gideões. Ou seja, lá se compra de tudo (pergunte a um gideonita). E, obviamente, se vende quase tudo (indague a um expositor)!

Enquanto eu distribuía o meu material de marketing (entre um esbarrão e outro – o que é inevitável) fui chacoalhado por uma expressão bradada (eles gostam deste termo) dentro de uma daquelas barracas a qual foi introjetada para dentro dos meus tímpanos:

– JEOVÁ “CHAPA QUENTE”!

Bem, a minha veia teológica está estourando e me convidando a dissecar esse termo, mas a minha veia psicológica me diz que eu devo me controlar. Por ora, a segunda vence (ou domina) a primeira.

Duas observações, no entanto, cabem aqui.

Em primeiro lugar, como todo o ser humano inserido num contexto específico, ele vai desenvolver um comportamento aceito e compartilhado por seus pares. Um aspecto pontual é o idioma. Nesse caso, consigo identificar o gideonês. Ou seja, algumas expressões que nascem e proliferam entre os gideonitas (termo criado para designar um apoiador e seguidor dos Gideões Missionários).

Em segundo lugar, é óbvio que um trabalho dessa envergadura atrai tanto admiradores quanto críticos da obra missionária. Isso é fato! Penso apenas que somente deve tomar o tempo para criticar quem conhece in loco o referido movimento. Talvez valesse a sugestão: todos deveriam visitar, pelo menos uma vez na vida, a “Meca das Missões”. Afinal, se visitar Maaca é um sonho distante para os meus amigos muçulmanos, conhecer os Gideões é bem mais barato; mas não menos concorrido.

Detalhe 1: se o acesso a Meca é proibido às pessoas que não são muçulmanas, Camboriú abre os braços, casas, quartos, apartamentos, e cada metro quadrado a todos os amantes da obra missionária.

Detalhe 2: enquanto os muçulmanos afortunados dirigem-se à Meca para sua purificação espiritual, os missiólogos, missionários e “missioneiros” podem ser renovados espiritualmente através das mensagens e músicas ministradas quase que 24 horas por dia na capital missionária do Brasil.

Finalmente, embora eu não me considere um gideonita, aprendi o seguinte em relação a eles:

Ou você os ama ou os despreza, mas nunca os ignora!

Ademais, quer você goste, ou não, eles estão fazendo a obra missionária. Em alto e bom som!

Ficou curioso ou curiosa? Arrume as malas, encha o tanque, separe uma cadeira dobrável e desça a serra. Afinal a versão 2014 do Congressos dos Gideões começa no próximo sábado. Se não achar nenhuma “hospedaria”, durma no Opala mesmo…

MEU APOLITICISMO

NEIR MOREIRA | Em tempos de campanha política, sugiro a leitura de uma das minhas crônicas que trata sobre o contexto político brasileiro…

Eu me julgo apolítico. Não etimológica, mas essencialmente. Não me refiro à política como a arte ou ciência da organização, direção e administração, o que está presente em praticamente toda a esfera de procedimentos relativos a “polis” (cidade), mas àquela praticada notadamente pelos representantes das unidades da federação brasileira.

É óbvio que o simples fato de me posicionar frente à estrutura que suporta todo o partidarismo tupiniquim já se pode configurar uma política. Se me permitem: faço política do meu apoliticismo – ou seja, a minha rejeição a qualquer envolvimento em questões meramente partidárias.

Contrariando a maioria dos e-mails que enchem a minha caixa de entrada, recentemente recebi um que não merecia a lixeira, e coincidentemente fora enviado por uma cidadã brasiliense. A veracidade do seu teor discorria sobre o comportamento de um determinado povo. Segundo ele:

– Quem não estaciona nas calçadas apesar das placas?

– Quem não fala no celular enquanto dirige?

– Quem não trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento?

– Quem não para em filas duplas, triplas?

– Quem não registra seu imóvel no cartório com valor abaixo do comprado com o intuito de pagar menos impostos?

– Quem não compra recibos para abater na declaração do imposto de renda a fim de pagar menos imposto?

– Quem não viola a lei do silêncio?

– Quem não dirige após consumir bebida alcoólica?

– Quem não suborna ou pelo menos tenta quando é pego cometendo infração?

– Quem não utiliza atestados médicos sem estar doente a fim de faltar ao trabalho?

– Quem não faz “gato” de luz, de água e de TV a cabo?

– Quem não muda a cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas?

– Quem não altera para mais o valor da nota fiscal quando viaja a serviço pela empresa?

– Quem não estaciona em vagas exclusivas para deficientes?

– Quem não adultera o velocímetro do carro para vendê-lo mais facilmente?

– Quem não mente a idade do filho para que este não pague passagem?

– Quem não emplaca o carro fora do seu domicílio para amenizar o IPVA?

– Quem não frequenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho?

– Quem não apanha do local de trabalho pequenos objetos como clipes, envelopes, canetas, lápis, como se isso não fosse roubo?

– Quem não mente ao agente federal sobre o conteúdo da bagagem quando volta do exterior?

– Quem não saqueia as cargas de veículos acidentados nas estradas?

– Quem não troca votos por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, dentadura, cadeira de roda, cesta básica?…

Que povo é esse? Quem procede assim?

Pensa… Pensa…

Difícil assegurar categoricamente. Diversos testes de fidelidade foram aplicados em muitos países. E o resultado é tão diverso e complexo quanto à própria história da espécie humana.

É evidente que não se pode generalizar, mas uma das provas que ratificam o perfil ético de uma nação é exatamente o seu extrato político. Um país cujos representantes políticos em sua grande maioria são graduados em oratória e persuasão, mas infelizmente foram reprovados nas disciplinas elementares da ética e do respeito ao cidadão, mereceria uma espécie de “ENEM-Político”.

Sinto-me envergonhado quando os MESMOS telejornais veiculam os MESMOS políticos respondendo as MESMAS perguntas do MESMO jeito. Sinto-me envergonhado quando anualmente CPIs são criadas e raramente somos informados da sua conclusão (vergonhosamente “terminar em pizza” é uma expressão genuinamente brasileira). Sinto-me envergonhado, pois o meu Estado frequentou os noticiários em função de um deputado paranaense literalmente voar a 190 km, no perímetro urbano, ceifando a vida de dois jovens. Sinto-me envergonhado pelos parlamentares oriundos dos redutos evangélicos e sua pífia contribuição para o resgate da credibilidade da referida classe política.

Em tempo: mesmo no Brasil há raras e caras exceções. Que bom elas existem. Pena que se pode contar nos dedos.

Dia desses durante um evento acadêmico, o orador foi questionado sobre o estigma que Brasília carrega pelo fato de acolher a sede o poder político brasileiro. Lembro-me claramente da expressão facial do professor e especialmente de sua resposta: “Quem, afinal, envia os políticos para lá? Não são todos os Estados brasileiros?”…

Silêncio estratégico…

Brasília é tão brasileira quanto às demais capitais e cidades. Do Oiapoque ao Chuí. A corrupção não tem a marca “made in Brasília”. A impunidade, infelizmente, veste verde e amarelo. E com colarinho branco, jaleco cinza, cinto dourado e botas enlameadas.

Meu apoliticismo se justifica pelo fato de não se poder esperar melhores políticos sem a renovação da origem onde são “criados”. Enquanto a sociedade reproduzir este tipo de comportamento será impossível enviar um novo colegiado que nos represente dignamente em Brasília, Curitiba ou em qualquer município brasileiro. Investir na família, na educação, e especialmente no resgate dos princípios éticos é o mínimo que se pode esperar para filtrar esta atmosfera que teima em repousar sobre este gigante adormecido em berço esplêndido.

Mas há um remanescente que não se sujeita às falcatruas. Quer políticas quer não. Há um contingente de brasileiros pálidos de insatisfação e ao mesmo tempo vermelhos de vergonha. Alvirrubro: talvez seja a cor que melhor represente aqueles que resistem à tentação de pertencer à banda podre da política nacional. Acredito, sim, que uma célula sadia pode combater o vírus da decadência moral e espiritual.

Enfim, quanto a mim: apolítico sim, sonhador talvez, incrédulo nunca.

NEGUINHO DE ALMA BRANCA

NEIR MOREIRA | Passava das doze horas e o meu cuco biológico já dava os primeiros sinais de fome. Sabe como é: nessas horas a gente foge do trabalho e corre para o restaurante.

Após me servir no buffet, sentei-me à mesa junto ao vidro que dava para a rua. Entre uma garfada e outra, uma olhadela na agitação característica do último mês do ano. Entre uma garfada e outra, um pensamento como tempero de um cronista. Entre uma garfada e outra, um comentário, no mínimo, inoportuno…

O que eu ouviria naquele instante, por pouco não me tira a fome. Embora eu não soubesse dizer se foi um elogio ou uma explicação fisiológica. O certo é que constrangeu. Tanto a mim quanto os demais presentes no pequeno estabelecimento comercial.

“Tá aqui um neguinho de alma branca” – disse um sujeito a outro com a mão sobre o meu ombro. Talvez com o intuito de reforçar, a expressão veio acompanhada de um sorriso inominável.

Eu deixaria quieto – eu diria na gíria da galera – mas não foi possível.

“Por que branca”? – quis saber minha pobre alma descolorida ante a surpresa.

A resposta veio visual e verbalmente. Se a boca fala do que está cheio o coração, também é verdade que a face revela o interior do miocárdio.

“Antigamente…” – essa foi a tentativa de explicação que, devo admitir, não consegui ouvir, sequer entender.

Então, a alma realmente tem cor? Taí uma questão que gravita na interface da teologia-filosofia… ou seria da teologia-medicina?

Se tem, qual é? Branca, preta, vermelha, ou seria incolor?

Se tem, cada cor “combina” com a pele? O branco tem alma branca, o negro tem alma escura, o asiático tem alma amarela?

Ou qual a “melhor” cor para cada tipo de pele? Talvez uma loira prefira alma dourada, o índio a alma vermelha, o asiático uma alma negra, e o crioulo uma alma alva. Quem sabe…

Bem, se não temos respostas a todas as perguntas, retomo duas ciências para formular novas questões: a psicologia e a teologia.

Em primeiro lugar, eu tive um professor na minha graduação em psicologia o qual tinha uma questão em aberta bem interessante. Ele se/nos perguntava: porque negritamos o texto e nunca o branqueamos?

Em segundo lugar, costumeiramente no contexto eclesiástico ensinamos nossas crianças que quem comete pecado fica com o coração negro! Será? Qual a base bíblica?

Nesse caso, o céu é todo branco e o inferno todo preto. Parece que os anjos são alvos e os demônios negros. Eu disse: parece…

Curiosamente em Curitiba quando se quer apenas café pede-se “café preto”; se é com leite, “pingado”. Aí, fiquei pensando qual seria a cor do café. Mesmo porque quando misturamos “café preto” com “leite branco” não tomamos “pingado cinza”… Fiquei pensando…

Também fiquei pensando na expressão que ouvi. Pensei também qual seria a reação daquele indivíduo se fosse o contrário; se por acaso eu lhe dissesse: “olá branquinho de alma preta”! Pensando bem, não combina. Além do mais ele ficaria chateado. Poderia gerar uma discussão boba. Estragaria o sagrado momento da alimentação dele. Revelaria o lado negro da minha alma branca. Essas coisas…

Melhor ficar só pensando… No máximo, escrevendo…

Mesmo porque jamais faria apologia da cor da minha epiderme. Se ser negro não é menos importante do que ser branco; se ser negro não é menos inteligente do que ser branco; se ser negro não é menos humano do que ser branco; porque eu deveria saber a cor da minha alma. Logo, não pretendo descobrir tampouco aceito que me sugiram cores.

Boaventura Santos afirmou que “temos o direito de ser iguais sempre que as diferenças nos inferiorizam; e temos o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza”.

Se eu desconheço a cor da minha alma, estou ciente apenas que ela foi lavada.

Lavada, sim! Pelo sangue do Cordeiro.

Colorida, não! Pelo licor do preconceito.