O MARIDO DE MARIA E PAI DE JESUS

ULTIMATO | No relato bíblico do Advento, Maria tem um papel preponderante. Não consideramos a história a partir da perspectiva do pai. José tem pouca importância, aparece em segundo plano.

Lemos profecias no Antigo Testamento sobre a virgem que conceberá e dará a luz a um filho e o chamará Emanuel. No Novo Testamento, um anjo fala com ela e no “Magnificat” ela canta como foi honrada por Deus e que todas as gerações a considerarão bem-aventurada.

Diante de uma Maria tão íntima de Deus, celebrada por todos, como fica José? Qual o papel dele nessa história? Qual sua importância nessa família? Não há menção da vida de José, exceto no nascimento de Jesus e quando este, aos doze anos, vai ao Templo.

José não viu seu filho adulto, sua morte e sua ressurreição, e provavelmente morreu quando Jesus tinha entre 12 e 30 anos de idade. Não há registro no Novo Testamento de uma só palavra que José teria dito. Ele não foi predito no Antigo Testamento e até as ordens de Deus foram dadas por anjos ou através de sonhos. José deve ter se perguntado: qual a minha contribuição? Como poderei servi-lo?

José teve o privilégio único de ser pai (no sentido da paternidade humana) de Jesus Cristo. Pouco pode fazer um pai no nascimento de um filho. Apoiar, cortar o cordão, observar de fora, a cena é toda da mãe. Mas, nos momentos que se seguem, nos anos da infância e da adolescência, a presença, os gestos, as atitudes, as palavras do marido e do pai são fundamentais para a estruturação, a proteção e a integridade física e emocional da família.

Sabemos que a ausência da figura paterna gera transtornos e famílias disfuncionais. Não foi assim na família de José, ele estava presente. Ele foi um dos instrumentos de Deus na formação de Jesus Cristo. Sabemos que Jesus aprendeu diretamente do Espírito e das Escrituras, mas certamente também aprendeu do exemplo do seu pai José.

O que poderia ter oferecido José a Jesus senão uma paternidade amorosa, presente, protetora, dando o exemplo de amar e servir a Deus com sua própria vida?

O noivado naquela época era mais importante do que hoje. Acordo público entre duas famílias. Aspecto familiar, legal que selava de maneira definitiva o compromisso entre dois jovens. José descobre que Maria está grávida sem que ele a houvesse tocado. Estava grávida “de outro”! Isso configurava adultério e a dureza da lei mandava apedrejar.

José, sem saber do anúncio dos anjos, da concepção virginal pelo Espírito Santo, sem ainda ter conversado com Maria, no seu coração terno e bondoso, não queria vingança, mas decide proteger a reputação e a vida daquela a quem ama. Quantos de nós faríamos o mesmo?

José poderia crer que Maria se relacionou com outro na véspera de seu casamento, mas no lugar de vingar a possível traição, no lugar de se refugiar em sua ferida exigindo a reparação, ele resolve deixá-la secretamente, abre mão de sua prerrogativa de noivo, não acusa nem se vinga. José é uma expressão da graça de Deus. Esta atitude certamente influenciaria Jesus nos próximos anos: a atitude de um pai que, ao invés de agressividade e vingança, buscava maneiras de fazer o bem e abençoar as pessoas que amava, mesmo quando ferido por elas.

Como somos na qualidade de maridos e pais? Muitas esposas e filhos vivem no temor de fazer algo errado, algo que possa despertar a violência e o desprezo de seus maridos e pais. Com medo de errar, tornam-se previsíveis, sem criatividade, não arriscam, são reprimidos, enterrando seu potencial. Homens que lidam com o erro da mulher e dos filhos na ótica da bronca e da cara feia.

Certamente Jesus aprendeu com o coração bondoso, abençoador e protetor de José

Tão logo José soube do plano de Deus, ele se casou com Maria, preservando-a de qualquer acusação e assumindo publicamente o filho como dele. Ele adotou Jesus. Ele protegeu Maria na viagem da Galileia para Belém. Noventa quilômetros, subida íngreme com a mulher grávida de nove meses.

Ele protegeu Maria e Jesus da insanidade homicida de Herodes, exilando-se com os dois no Egito. Proteção e provisão numa longa viagem e na instalação em uma terra estranha. José os levou de volta a Nazaré, sãos e salvos. Ele proveu um lar e, com seu ofício de carpinteiro, sustentou a sua família, inclusive os outros filhos que teve com Maria.

Uma das tragédias de nosso tempo é a da ausência paterna. Muitos filhos crescem órfãos de pais vivos, criados basicamente pela mãe. Pouco contato prolongado, significativo e afetivo entre pais e filhos. José ofereceu presença, proteção, provisão e afeto à sua família. Esse foi seu chamado e vocação como homem.

José foi provedor e protetor de sua família e certamente foi fundamental na formação do menino, do adolescente e do jovem Jesus Cristo

José estava sempre pronto a obedecer, mesmo diante de ordens que lhe pareceram estranhas: casar com a noiva grávida de outro; fugir às pressas para o Egito com sua família e depois de instalado voltar para sua casa em Nazaré. Ele não argumentou, não discutiu, não hesitou, não adiou, não racionalizou. Ele fez o que o Senhor o mandou fazer.

Como pais, desejamos tanto que nossos filhos sejam bons cristãos, honestos, obedientes, respeitadores, generosos, aplicados e não queremos que gastem seus dias conectados às redes sociais ou videogames; não queremos que andem com más companhias. Mas será que damos o exemplo? O maior dano que podemos fazer as próximas gerações é o de falar, ensinar e exigir comportamentos e atitudes que nós mesmos não vivemos.

Deus escolhe José, um homem obediente, para ser o pai terreno de Cristo, para criar aquele menino que um dia obedeceria a ordem de dar a sua própria vida na cruz. Jesus certamente aprendeu a obediência por meio do exemplo de seu pai adotivo, José.

Se os magos tinham incenso, ouro e mirra para oferecer a Jesus, se Maria tinha seu útero, o seu seio e sua dedicação, José tinha o exemplo de sua vida

Ele amou Maria, sua esposa, com um amor perdoador, gracioso, generoso e abençoador num momento adverso e doloroso. Ele assumiu as responsabilidades de prover, proteger, amar e estar presente com sua família, apesar das circunstâncias perigosas e instáveis. Ele era um homem obediente a Deus, obedecia de imediato e de coração, sem argumentar ou hesitar. Estas qualidades ele ofereceu à sua família e elas foram fundamentais na formação de Jesus. José não foi uma figura proeminente nas Escrituras, mas sua vida discreta e íntegra foi essencial para que a história do Evangelho fosse escrita.

O impacto de José sobre a sua família, na vida de Jesus e na história não é pelo que ele falou, sua linguagem, persuasão, pregação, liderança religiosa, prestígio, poder, mas pelo que viveu. Lemos nos Evangelhos que, já conhecido e com certa notoriedade, Jesus volta a Nazaré sua cidade natal e o povo pergunta: “Não é este o filho do carpinteiro?”. Apesar de não crerem em Cristo, eles reconheceram que Jesus era filho do quieto e discreto carpinteiro da aldeia.

Jesus Cristo tem seus títulos messiânicos como Filho de Deus, o Filho do Homem e Filho de Davi. Mas é também lembrado na sua identidade como o “Filho do Carpinteiro”.

O ESCONDERIJO DE ADÃO

NEIR MOREIRA | “E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim” (Gn 3.8).

Se há alguém que a humanidade pode tanto imitar em seus atos quanto culpar pelos seus fracassos esse é Adão. O primeiro homem na face da terra, segundo o relato bíblico, é muito mais do que um explorador de uma terra virgem, ou nomeador oficial de animais. Ele, na verdade, representa toda a raça humana. Traz em seu DNA as marcas potenciais de bilhões de pessoas que o sucederiam.

E, de acordo com o contexto bíblico supracitado, dois comportamentos adâmicos são uma espécie de trailer do filme que a humanidade faria rodar em sua existência. O primeiro é a sua capacidade de ouvir; e o segundo é a possibilidade de esconder. O mesmo Adão que consegue identificar a voz de Deus é o mesmo que intenta se esconder dele. E leva junto a sua companheira.

Adão é o símbolo daquele que não se encontra tão distante de Deus a ponto de não poder ouvi-lo; mas, nem tão próximo o suficiente para ter a oportunidade de esconder-se de Deus (ou pelo menos tentar). Adão é o típico cristão morno e perigosamente frouxo em suas convicções. Sabe exatamente o plano de Deus para sua vida, habita inclusive em seu jardim particular, e tem sido diariamente visitado pela presença divina em seu cotidiano. A despeito disso, ele prefere convencer tanto a si mesmo quanto à sua família (ou quem estiver por perto) que o melhor é evitar qualquer relacionamento duradouro, ou mais sério, com Deus. Com a igreja. Com a família. Com a sociedade.

Esconder é muito mais do que recuar. É muito pior do que se abater. É muito mais sério do que se arrepender. No esconderijo de Adão não é preciso reaver as falhas; não é requerido reconsiderar os maus projetos; não é necessário se arrepender dos pecados. O esconderijo de Adão é a bainha do pecado oculto. É o parque de diversões da liberalidade. É o recreio da licenciosidade.

Vale a pena indagar: eles foram se esconder aonde?

“Entre as árvores do jardim”. Mas, quem passeava no jardim pela viração do dia? “Deus”. Logo, o plano do primeiro jardineiro não resistiu à do seu Criador. Foi justamente no “playground” de Deus que os pombinhos foram brincar de esconde-esconde. Escorregaram literalmente da graça divina e viram seus pés enlamearem-se na poça da vergonha.

Deus, todavia, não brinca! Mesmo quando descansa! A rigor, Ele trabalha até agora (Jo 5.17).

Sua missão hoje é procurar-nos incansavelmente; muito embora Ele conheça muito bem tanto a nós quanto os nossos esconderijos. Ele nos procura não porque nos perdeu, mas porque são poucos os que, depois de ouvi-lo, têm a coragem de se apresentar a Ele, ao invés de se ocultar na multidão, no ativismo, na religiosidade ou por trás da máscara do seu egoísmo.

Ao ouvir a voz de Deus, hoje, vença o medo do encontro e se lance nos braços daquele que o entende e o convida a aprofundar o relacionamento espiritual.

TELE-BABILÔNIA E O BEIJO GAY DAS VOVÓS

NEIR MOREIRA | Babilônia (também conhecida como Babel ou Babil) foi uma cidade da Mesopotâmia, às margens do Rio Eufrates, cujas ruínas hoje coincidem com a cidade de Al Hillah, no Iraque a cerca de 80 km a sul da capital do país, Bagdá. Babilônia foi um exemplo de uma grande metrópole, bem organizada e com um caráter multi-étnico.

A antiga cidade de Babilônia começou imediatamente após o Dilúvio e simboliza a expressão da rebelião direta do homem contra Deus e Sua ordem. O nome “Babel” foi dado à cidade de Ninrode, por causa da sentença de Deus sobre seus habitantes (Gn 11.1-9).

A Bíblia menciona o termo Babilônia mais de duzentas e oitenta vezes, e segundo os pesquisadores, depois de Jerusalém, Babilônia é a cidade mais citada em toda a Bíblia.

Assim como essa cidade desempenhou um importante papel no passado, ela igualmente desempenhará um papel central no futuro. Babilônia se tornará, provavelmente, a capital do Anticristo durante os futuros sete anos de tribulação, segundo os estudiosos em escatologia. Pode-se comparar os textos de Isaías 13.19 e de Apocalipse 18.10.

O verdadeiro caráter de Babilônia é revelado a João em Apocalipse 17.5 como um mistério assim descrito: “Babilônia, a Grande, a Mãe das Meretrizes e das Abominações da Terra”.

Este breve pano de fundo bíblico-histórico sobre Babilônia por si só demarca o triste perfil desta cidade, cujo homônimo dá título a mais recente telenovela de uma emissora brasileira.

Sem me ater aos objetivos da TV brasileira quanto aos valores defendidos pela igreja e pelas famílias cristãs, apreciaria apenas adicionar um graveto na fogueira da discussão sobre a tão propalada telenovela que exibiu o beijo gay das vovós em horário nobre.

Inicialmente, eu encontro dificuldade para entender como uma legião de cristãos perde tempo para discutir o conteúdo moral de um folhetim que historicamente não tem nenhuma relação com o Cristianismo e nem a preocupação de fundamentar seu enredo nos ensinos de Cristo.

Fico pensando, se cristãos estão se sentindo prejudicados com o conteúdo das novelas “globais”, é de se esperar que em breve vão manifestar as suas indignações sobre algum canal de lutas (em função da possível violência física e psíquica), e até dos canais considerados adultos (caso alguma novidade erótica agrida a sensibilidade deste “cristão”)…

Me poupe!

Continuo pensando que tipo de cristão se presta a questionar a “imoralidade” estampada na TV como se isso fosse um problema apenas desse meio de comunicação, e não da cosmovisão decadente da sociedade atual.

Para os insistentes, pergunto: o que a sua igreja local oferece como um programa de melhor qualidade moral e espiritual do que o entretenimento da Tele-Babilônia e outros programas televisivos?

Boa parte das igrejas cristãs (evangélicas e até católicas) abre suas portas para os cultos de oração, cultos evangelísticos, cultos de ensino bíblico, sem contar o investimento para os estudos bíblicos e teológicos, nos seus variados níveis. Não mencionei ainda os sem número de ministérios voltados para casais, criação de filhos, adolescentes, terceira idade, artes, música, etc. E, por falar em música, as igrejas são referência no que há de melhor em conjuntos corais, vocais e instrumentais.

E eu nem citei os variados ministérios familiares adotados por muitas denominações, os quais se valem dos milhares de lares cristãos para estabelecerem igualmente milhares de igrejas nas casas.

Igrejas-casas que não pagam imposto! Igrejas-lares que pagam o preço da santificação!

Por fim, e não menos importante, transcrevo o texto do apóstolo João – Apocalipse 18.2-5 – escrito no primeiro século da era cristã acerca dos eventos futuros que envolverão a Babilônia:

“E clamou fortemente com grande voz, dizendo: Caiu, caiu a grande Babilônia, e se tornou morada de demônios, e coito de todo espírito imundo, e coito de toda ave imunda e odiável. Porque todas as nações beberam do vinho da ira da sua fornicação, e os reis da terra fornicaram com ela; e os mercadores da terra se enriqueceram com a abundância de suas delícias. E ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas. Porque já os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou das iniquidades dela”.

Curioso observar que a ordem é para sair da Babilônia e não mudar a Babilônia. Sair diz respeito a uma decisão estritamente minha de abrir mão da luxúria e lascívia que todo tipo de Babilônia representa: no passado ela foi símbolo de confusão espiritual, no presente é signo de libertinagem, e no futuro escatológico será a insígnia do pecado superlativo.

E, para tratar esse mal histórico, diagnosticado pelo salmista, ele mesmo receitou a dieta radical: “Não porei coisas más diante dos meus olhos” (Sl 101.3)!

Afinal, ou eu mudo em relação à Babel, ou a Babel me muda! E, pra pior!

FONTES:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Babil%C3%B4nia
http://www.chamada.com.br/mensagens/babilonia_profecia.html

QUANTOS AMIGOS VOCÊ CONSEGUE TER?

VEJA | Criador do “número de Dunbar”, o antropólogo e psicólogo evolucionista inglês Robin Dunbar explica por que, apesar das redes sociais, os amigos de verdade se restringem a um grupo de, em média, 150 indivíduos por pessoa

Quantos amigos você tem na internet? Quinhentos? Mil? Pois bem, não se iluda. O limite das relações humanas é determinado pela biologia. O ser humano tem capacidade de manter uma rede de amizade composta por, em média, 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, ele foi estipulado, na década de 90, pelo antropólogo inglês Robin Dunbar. Aos 67 anos, o professor da Universidade de Oxford, é um dos mais importantes estudiosos da psicologia evolutiva. Segundo ele, esse número se mantém estável desde os primórdios da humanidade e não mudou com a popularização das redes sociais digitais. “Compartilhar informações pessoais com quem não se tem intimidade cria a falsa sensação de amizade”, disse ele a VEJA. Dunbar é autor de uma dezena de livros. O mais importante deles, de 2010, é How Many Friends Does One Person Needs? Dunbar´s number and other evolutionary quirks (em tradução livre, Quantos amigos uma pessoa precisa? O número de Dunbar e outras peculiaridades evolucionárias). A seguir, a entrevista de Dunbar:

QUAL É O IMPACTO DAS REDES SOCIAIS DIGITAIS NAS RELAÇÕES HUMANAS, SOBRETUDO NAS DE AMIZADE?
As redes, como o Facebook, mudaram a forma como nos relacionamos com os amigos que estão distantes -e, por isso, tornaram-se tão populares. Elas criam, no entanto, a falsa impressão de que possuímos muitos amigos. Encontrar a pessoa pessoalmente e conviver com ela faz toda a diferença. Nesse sentido, o Skype é melhor, pois proporciona a “coexistência” do outro, ainda que virtualmente. O problema é que o Facebook classifica todo mundo como amigo. Muitos ali são apenas conhecidos – muitas vezes, quase desconhecidos. Compartilhar informações pessoais com quem não se tem intimidade cria a falsa sensação de amizade. Na realidade, a média de 150 amigos por pessoa mantém-se inalterada, independentemente das redes sociais digitais.

COMO O SENHOR CHEGOU AO “NÚMERO DE DUNBAR”, QUE DETERMINA A MÉDIA DE 150 AMIGOS POR PESSOA?
Esse número se mantém o mesmo desde os primórdios da humanidade. Entre os primatas, a quantidade de amigos é determinada pelo tamanho do cérebro. Quanto maior o cérebro, maior é a capacidade do indivíduo de estabelecer vínculos de amizade. Os macacos, por exemplo, mantêm uma comunidade restrita a cinquenta integrantes. É uma fórmula de sucesso. Durante milhares de anos o ser humano viveu em aldeias e vilarejos. Há pouco mais de um século habitamos grandes cidades, com populações numerosas. Ainda assim, nosso círculo social funciona da mesma maneira de milênios atrás. Aqueles que conhecemos pessoalmente, em quem podemos confiar e com quem temos alguma afinidade não passa de 150. Um dos primeiros estudos que fizemos para comprovar esse número ocorreu em 1993, quando pedimos para que famílias inglesas enviassem cartões de natal para sua rede de conhecidos, uma tradição forte no país. Ao fim da pesquisa, descobrimos que o número de pessoas que receberam esses cartões foi aproximadamente esse, 150. Dentro desta rede estavam familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho.

NA PRÁTICA, O QUE DEFINE ESSE GRUPO?
Imagine-se na seguinte situação: você está no aeroporto de Hong Kong, em plena madrugada, e vê uma pessoa conhecida. Você se deslocaria para cumprimentá-la sem hesitar? Se a resposta for positiva, essa pessoa está entre seus 150 amigos. Ela pode não ser um melhor amigo, mas você sabe quem ela é e qual o papel dela no seu círculo social – e vice versa. Essas são pessoas que você encontra pelo menos uma vez por ano e que seriam convidadas para uma grande festa organizada por você.

POR QUE NÃO CONSEGUIMOS MANTER UMA REDE MAIOR DE AMIGOS?
O problema não é capacidade de memória. Conseguimos fazer isso com um número muito superior a 150 indivíduos – saber quem são e o que fazem. A questão é o tipo de relação que mantemos com as pessoas. Qual é o papel que elas têm em nossa vida? Quanto tempo nós investimos na relação com elas? Dos 150 amigos, cinquenta são considerados bons amigos. Desses, apenas quinze podem ser chamados de melhores amigos. E entre eles, somente cinco pertencem à categoria dos amigos íntimos, aqueles que você procura quando está com problemas, pede conselhos, busca consolo e até mesmo aceita dinheiro emprestado. É importante lembrar que o número 150 é uma média. Ele pode variar, conforme a personalidade de cada pessoa, suas habilidades sociais e seu gênero. Alguém com mais traquejo para lidar com os mais diversos tipos de pessoas, obviamente tende a ter um círculo de amizade maior. Da mesma forma, acontece com os extrovertidos –ainda que o vínculo estabelecido por eles seja menos profundo do que os firmados entre os introvertidos e seus amigos.

O QUE DEFINE OS DIFERENTES GRAUS DE AMIZADE?
A frequência do contato é sem dúvida o que mais importa na construção de uma amizade. A intensidade da relação depende muito do quanto você vê a pessoa e do tempo que você gasta com ela. Investimos cerca de 40% do nosso tempo social com nossos cinco amigos íntimos e 60% do tempo social com nossos quinze melhores amigos. Sobra pouco para os cem amigos que restam. São os encontros de verdade, cara a cara, que sustentam e fazem uma amizade sobreviver. Se um novo amigo entra em nossa vida, significa que algum outro amigo, com quem não se tem mais tanto contato, perdeu seu lugar no grupo dos 150. É mais ou menos como ocorre nos relacionamentos amorosos: você quer fazer com que seu parceiro se sinta especial e, para isso, você precisa sacrificar o tempo dedicado a outras pessoas. É por isso que, quando um amigo muda de cidade, fica mais difícil manter o vínculo.

OS FAMILIARES ESTÃO INCLUÍDOS NA CONTA DOS 150 AMIGOS?
Sim, algumas pesquisas mostraram que, na Europa, 50% das pessoas do círculo social são parentes. Já no Brasil, essa proporção é ainda maior, ultrapassando 50% dos laços de amizade, talvez porque as famílias são maiores. A relação que estabelecemos com os parentes que estão no grupo dos 150 difere muito da que estabelecemos com os amigos que adquirimos ao longa da vida. Quando passamos mais de seis meses sem encontrar um desses amigos, os vínculos emocionais com ele tendem a enfraquecer. Com isso, essa pessoa acaba por perder o lugar na hierarquia das relações sociais. Há de se levar ainda em conta ainda que as amizades passam por mudanças no transcorrer dos anos. O cartel de amigos costuma se renovar em cerca de 20% de tempos em tempos. Em contrapartida, a relação de amizade estabelecida dentro da família não requer essa presença constante. Ela se tende a se manter intacta durante quase toda a vida.

NÃO É PREOCUPANTE O TEMPO QUE AS PESSOAS, SOBRETUDO OS JOVENS, PASSAM ONLINE?
Sim, muito preocupante. Ao longo da vida nós temos de desenvolver diversas habilidades para conseguirmos sobreviver em nosso complexo mundo social. Leva-se cerca de 20 a 25 anos de prática para que uma pessoa tenha habilidades sociais satisfatórias. Se, por exemplo, uma criança estiver brincando no parque e outra criança jogar areia nela, ela aprenderá a administrar essa situação de forma adequada e manter seu círculo social funcionando. Mas crianças que não tem a oportunidade de passar por essas experiências e adquirir essas habilidades sociais podem se tornar alienadas e completamente egoístas. Elas passam muito tempo conversando com os amigos pela internet e, se algum deles insultá-lo, basta fechar a janela da conversa e começar a bater papo com outra pessoa. Na vida real não nós podemos fazer isso, nós somos obrigados a aprender maneiras de lidar com situações desagradáveis. As conversas online tendem a ocorrer em uma bolha. O ato de não vermos as pessoas com quem estamos conversando faz com que nossa imaginação voe. Atribuímos a nosso interlocutor as características que gostaríamos de encontrar no modelo perfeito de amigo ou parceiro.

A IMPORTÂNCIA DA AMIZADE PARA O SER HUMANO É TÃO IMPORTANTE HOJE QUANTO NO PASSADO?
Claro que sim. Nós só sobrevivemos em grupo. Hoje em dia não precisamos dos amigos para nos protegermos dos predadores, como acontecia nos primórdios da humanidade. As circunstâncias mudaram, evidentemente. Os amigos são essenciais para todo tipo de situação que nos permite seguir a vida com sucesso – de alguém para desabafar a quem tome conta de seu filho quando você tiver um compromisso. O grupo dos 150 amigos define uma série de acontecimentos em nossa vida. Em 70% dos casos, o encontro do par romântico acontece por intermédio de uma dessas pessoas. Além disso, vários estudos já mostraram que os amigos são importantes até para a saúde. Se você quiser viver muito, eu aconselho a ter uma rede bem integrada de amigos de qualidade. A construção de relações de amizade ricas e duradouras está associada a uma série de benefícios à saúde. Ajuda na prevenção de uma série de doenças –distúrbios cardiovasculares, depressão, Alzheimer, entre outras. Eu diria que os efeitos positivos da amizade na saúde são tão grandes quanto parar de fumar.

ASSIM COMO EXISTE UM HORMÔNIO ASSOCIADO AO STRESS, PODEMOS DIZER QUE HÁ UM HORMÔNIO DA AMIZADE?
Sim, a endorfina. Ela funciona como uma espécie de ópio, mas sem oferecer o risco da dependência. Quando o contato com outra pessoa nos é de alguma forma prazeroso, a endorfina é liberada, proporcionando a sensação de relaxamento e felicidade. Rir, conversar, sair para dançar ou ouvir música com os amigos são gatilhos para a síntese de endorfina. Graças a essa substância, nos sentimos parte de um grupo, um dos principais alicerces para a consolidação da amizade.

COMO HOMENS E MULHERES SE DIFEREM EM RELAÇÃO À COMUNIDADE?
A explicação é a mesma para todos os primatas. As fêmeas que definem a vida social, os machos apenas as seguem, eles são mais flexíveis e não têm relações tão profundas quanto as fêmeas, que são mais intensas em seus relacionamentos. Entre a maioria das espécies primatas, o segredo para uma fêmea ter sucesso reprodutivo vem do apoio que ela ganha das outras fêmeas. E é preciso muita dedicação para que elas consigam se inserir nesse mundo social. Pesquisas com babuínos do Quênia mostraram que as fêmeas que tiverem sucesso socialmente são também as que tiveram a prole mais numerosa e sobrevivente ao longo da vida.

ISSO SIGNIFICA QUE MULHERES TÊM MAIS HABILIDADES SOCIAIS?
Sim. Para os homens as amizades são mais casuais, enquanto para as mulheres essas relações são mais intensas, mais valiosas. Se um casal mudar de cidade, por exemplo, é mais provável que a mulher mantenha as amizades antigas. Uma das explicações para isso está no fato de que as mulheres compartilham com as outras os problemas relacionados aos cuidados com os filhos. Para o homem, se ele for morar em outra cidade, só precisa de um novo clube para frequentar – não importa quem são os sócios. É como um time de futebol: é importante que os jogadores tenham um bom relacionamento, mas a relação não necessariamente precisa ser intensa. Esse raciocínio funciona bem no campo da política, negócios, forças armadas… Mas as coisas podem mudar muito, porque as mulheres estão cada vez mais presentes nessas áreas.

ESSAS DIFERENÇAS TAMBÉM PODEM SER NOTADAS NO CÉREBRO DE HOMENS E MULHERES?
Ainda não sabemos exatamente como, mas o cérebro de homens e mulheres estão organizados de maneira diferente. Uma boa pista é o fato de mulheres terem mais substância branca, o que gera mais conexões no cérebro. Talvez por isso as mulheres consigam administrar um número maior de amigos. Elas geralmente têm uma rede social maior e mais complexa, com mais “melhores amigos”.

O “PERTURBADOR DA RUA XV”

NEIR MOREIRA | A cidade de Curitiba, assim como outras, é conhecida por muitos adjetivos e codinomes. Porém, ela pode ser identificada através dos seus ícones.

Entre os principais pode-se citar o palhaço da Rua XV (comumente chamado de “sombra” em função de sua perseguição aos transeuntes), a mulher da loteria (que apesar de preferir manter-se sentada junto à marquise, consegue com sua potente voz vender os bilhetes de loteria) e o Oil Man (o famoso sujeito que desfila seminu pelas ruas centrais, com sua indefectível sunga vermelha e besuntado literalmente por um óleo sobre sua vasta pele… Impossível não ser notado pelo mais desavisado dos transeuntes, admirado por quem gosta do exótico, e, criticado pelos ortodoxos da vida alheia.

No entanto, há um sujeito que parece ser o campeão quando o assunto é “ódio da vizinhança”.

O irmão Pedro pode ser considerado um evangelista nato com discurso fundamentalista e fincado num contexto majoritariamente de compulsão comercial e desfile misto de autoridades, políticos, modelos e consumidores. Enfim, “todo mundo” passa pela Rua das Flores – nome popularmente conhecido do trecho inicial da Rua XV de Novembro, no centro da capital paranaense, e que foi a primeira grande via pública exclusiva para pedestres, inaugurada no Brasil em 1972.

Numa via caracterizada por edifícios e sobrados centenários, bares turísticos e canteiros de flores em boa parte de sua extensão, destaca-se, entre o burburinho da multidão ávida por consumo, uma voz rouca e insistente de um homem magro com um megafone em sua mão o qual despeja sobre os transeuntes uma mensagem evangelística desafiadora e de conteúdo apocalíptico que beira à ameaça.

O que muitos talvez ignoram é que por trás deste homem destemido e obstinado pela “salvação das almas” há um indivíduo pacato e que, segundo ele mesmo, tentou vender o “ponto”, mas como ninguém quis comprar, então continuou com sua missão de levar o evangelho a todos os admiradores da rua mais famosa de Curitiba.

O “arauto da XV” representa uma parcela da cristandade que não se omite ao chamado evangelístico, e opta por uma modalidade criticada não apenas pelos varejistas da região, mas por muitos cristãos que veem nessa atitude uma motivação exibicionista. A ele se juntam outros “loucos” que fazem dos terminais de ônibus suas igrejas móveis, cujos membros estão em constante deslocamento; não sem antes serem abordados por suas mensagens simples (até mesmo incoerentes do ponto de vista da Gramática e Homilética) mas poderosas e eficazes (sob a perspectiva da espiritualidade e vocação evangelística. Afinal, você pode até tentar ignorar, mas certamente não conseguirá: ou os amará ou os odiará.

Se o rei Acabe chamou o profeta Elias de o “perturbador de Israel” em função deste denunciar a vida de luxúria e pecado daquele (conforme 1Reis 18), não será novidade o irmão Pedro ser taxado de o “perturbador da Rua XV”; mesmo porque com (ou sem) megafone ele tem incomodado a muitos, mas principalmente aqueles que estão à margem do Caminho da Salvação.

Nesse quesito, a função da transmissão do Evangelho cumpre sua missão: ao apelo à salvação só nos resta duas alternativas: aceitar ou rejeitar.