U.S.A.

NEIR MOREIRA | 2015 tem sido um ano ímpar em vários aspectos. E um deles diz respeito aos meus 25 anos de ministério eclesiástico. E evidentemente há muitas experiências que poderia alistar aqui, no entanto quero destacar apenas uma. Na verdade, não se trata de um fato sobrenatural, mas um pedido pessoal.

Era o “longínquo” 1990. Ano que o “filho da Pereira e do Joãozinho” chegava à capital paranaense para continuar trabalhando na extinta Hermes Macedo (eu fora office-boy nessa loja em Paranavaí) e tentar o ingresso no ensino superior (se a Engenharia Civil não foi possível, a Teologia e a Psicologia me acolheram gentilmente).

Paralelamente ao meu crescimento pessoal e profissional, Deus reservou-me experiências espirituais e ministeriais profundas a partir daquele ano. No entanto, uma tem-me acompanhado no último meio quarto de século dedicado à seara do Mestre.

Certa noite, enquanto pedia a Deus sua infinita graça para ministrar sua Palavra, tomei a iniciativa de fazer uma oração que nortearia toda a minha conduta na senda deste santo ministério.

U.S.A. – Essas três letras podem ter diversos significados (incluindo a sigla da maior potência do planeta no presente tempo), mas para mim tem uma representação absolutamente ímpar. Antes de ser uma sigla, é uma palavra: “usa” do verbo usar. Na condição de servo de Deus e vaso nas mãos do Oleiro, penso ser este o verbo ideal para ilustrar esta condição de submissão ao projeto divino. Sendo assim, naquela ocasião eu pedi a Deus que Ele usasse, segundo sua infinita misericórdia, com:

Unção
Sabedoria
Autoridade

Um verbo em forma de um acróstico!

Por que esses elementos? Interessante, se eu fizesse a oração hoje, a resposta fosse exatamente igual. Continuaria suplicando ao Altíssimo sua unção, sabedoria e autoridade toda vez que abrir o coração, a mente e a boca para ministrar a sua Santa e Inerrante Palavra.

Por que esta ordem? Por mais óbvio que possa parecer, não vejo outra ordem que possa refletir o padrão divino. Ou seja, embora nenhum dos 3 recursos sejam dispensáveis, a unção prevalece sobre a sabedoria e autoridade. Em outras palavras, uma mensagem pode ser comunicada sem sabedoria e autoridade, com prejuízo é claro, mas é possível; mas sem unção nenhuma mensagem divina é digna de ser aceita como sendo de Deus. E, por fim, uma mensagem sem autoridade é como uma carta sem remetente, mas uma mensagem sem sabedoria equivale a uma carta composta de palavras sem sentido dispensasse…

Com base no vigésimo versículo do segundo capítulo da primeira missiva do apóstolo do amor (“e vós tendes a unção do Santo, e sabeis todas as coisas”), podemos afirmar categoricamente que a unção e a sabedoria são categorias biblicamente fundamentadas e ao mesmo tempo estão intimamente ligadas entre si. O apóstolo João está afirmando que quem tem a unção é sábio! Quem tem a unção divina é humanamente sábio!

De acordo com o princípio bíblico, uma pessoa ungida por Deus não pode ser ignorante acerca das coisas espirituais, especialmente. Dessa forma, esse versículo pode ser considerado uma chave para decifrar se determinada pessoa é ungida por Deus ou não.

Unção do Santo é pautada na verdade! Unção do Homem é permeada de mentira!

Ser cheio da unção divina é vacinar-se contra as heresias que enfermam muitos crentes atualmente.

Curiosamente, quanto mais uma pessoa se enche da unção do Santo, mais sábia ela é, e não o contrário, como alguns acreditam. O texto supracitado afirma enfaticamente que os que têm a unção divina sabem “todas as coisas” e não apenas opinião acerca de algum tema teológico, por exemplo.

Ter unção e ser ignorante contradiz a Bíblia. Ter unção e ser ignorante é, no mínimo, impossível à luz das Sagradas Escrituras. Unção e sabedoria caminham de mãos dadas!

Finalmente, ter unção e sabedoria divinas significa estar apto para realizar qualquer missão recebida de Deus. E é nesse contexto que entra a autoridade divina.

Observe o que diz o apóstolo Pedro em sua segunda carta, capítulo 3 e versículo 18: “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade”.

A ordem é crescer tanto na graça (unção) quanto no conhecimento (sabedoria). Além disso, segundo a Palavra de Deus, a autoridade concedida é pautada no senhorio de Jesus Cristo. Mesmo porque a mesma fonte que libera unção e sabedoria também o faz em relação à autoridade.

Ouso afirmar que ter a unção do Santo dá acesso à sabedoria do Alto sob a autoridade daquele da Tudo Pode.

O ESCONDERIJO DE ADÃO

NEIR MOREIRA | “E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim” (Gn 3.8).

Se há alguém que a humanidade pode tanto imitar em seus atos quanto culpar pelos seus fracassos esse é Adão. O primeiro homem na face da terra, segundo o relato bíblico, é muito mais do que um explorador de uma terra virgem, ou nomeador oficial de animais. Ele, na verdade, representa toda a raça humana. Traz em seu DNA as marcas potenciais de bilhões de pessoas que o sucederiam.

E, de acordo com o contexto bíblico supracitado, dois comportamentos adâmicos são uma espécie de trailer do filme que a humanidade faria rodar em sua existência. O primeiro é a sua capacidade de ouvir; e o segundo é a possibilidade de esconder. O mesmo Adão que consegue identificar a voz de Deus é o mesmo que intenta se esconder dele. E leva junto a sua companheira.

Adão é o símbolo daquele que não se encontra tão distante de Deus a ponto de não poder ouvi-lo; mas, nem tão próximo o suficiente para ter a oportunidade de esconder-se de Deus (ou pelo menos tentar). Adão é o típico cristão morno e perigosamente frouxo em suas convicções. Sabe exatamente o plano de Deus para sua vida, habita inclusive em seu jardim particular, e tem sido diariamente visitado pela presença divina em seu cotidiano. A despeito disso, ele prefere convencer tanto a si mesmo quanto à sua família (ou quem estiver por perto) que o melhor é evitar qualquer relacionamento duradouro, ou mais sério, com Deus. Com a igreja. Com a família. Com a sociedade.

Esconder é muito mais do que recuar. É muito pior do que se abater. É muito mais sério do que se arrepender. No esconderijo de Adão não é preciso reaver as falhas; não é requerido reconsiderar os maus projetos; não é necessário se arrepender dos pecados. O esconderijo de Adão é a bainha do pecado oculto. É o parque de diversões da liberalidade. É o recreio da licenciosidade.

Vale a pena indagar: eles foram se esconder aonde?

“Entre as árvores do jardim”. Mas, quem passeava no jardim pela viração do dia? “Deus”. Logo, o plano do primeiro jardineiro não resistiu à do seu Criador. Foi justamente no “playground” de Deus que os pombinhos foram brincar de esconde-esconde. Escorregaram literalmente da graça divina e viram seus pés enlamearem-se na poça da vergonha.

Deus, todavia, não brinca! Mesmo quando descansa! A rigor, Ele trabalha até agora (Jo 5.17).

Sua missão hoje é procurar-nos incansavelmente; muito embora Ele conheça muito bem tanto a nós quanto os nossos esconderijos. Ele nos procura não porque nos perdeu, mas porque são poucos os que, depois de ouvi-lo, têm a coragem de se apresentar a Ele, ao invés de se ocultar na multidão, no ativismo, na religiosidade ou por trás da máscara do seu egoísmo.

Ao ouvir a voz de Deus, hoje, vença o medo do encontro e se lance nos braços daquele que o entende e o convida a aprofundar o relacionamento espiritual.

TELE-BABILÔNIA E O BEIJO GAY DAS VOVÓS

NEIR MOREIRA | Babilônia (também conhecida como Babel ou Babil) foi uma cidade da Mesopotâmia, às margens do Rio Eufrates, cujas ruínas hoje coincidem com a cidade de Al Hillah, no Iraque a cerca de 80 km a sul da capital do país, Bagdá. Babilônia foi um exemplo de uma grande metrópole, bem organizada e com um caráter multi-étnico.

A antiga cidade de Babilônia começou imediatamente após o Dilúvio e simboliza a expressão da rebelião direta do homem contra Deus e Sua ordem. O nome “Babel” foi dado à cidade de Ninrode, por causa da sentença de Deus sobre seus habitantes (Gn 11.1-9).

A Bíblia menciona o termo Babilônia mais de duzentas e oitenta vezes, e segundo os pesquisadores, depois de Jerusalém, Babilônia é a cidade mais citada em toda a Bíblia.

Assim como essa cidade desempenhou um importante papel no passado, ela igualmente desempenhará um papel central no futuro. Babilônia se tornará, provavelmente, a capital do Anticristo durante os futuros sete anos de tribulação, segundo os estudiosos em escatologia. Pode-se comparar os textos de Isaías 13.19 e de Apocalipse 18.10.

O verdadeiro caráter de Babilônia é revelado a João em Apocalipse 17.5 como um mistério assim descrito: “Babilônia, a Grande, a Mãe das Meretrizes e das Abominações da Terra”.

Este breve pano de fundo bíblico-histórico sobre Babilônia por si só demarca o triste perfil desta cidade, cujo homônimo dá título a mais recente telenovela de uma emissora brasileira.

Sem me ater aos objetivos da TV brasileira quanto aos valores defendidos pela igreja e pelas famílias cristãs, apreciaria apenas adicionar um graveto na fogueira da discussão sobre a tão propalada telenovela que exibiu o beijo gay das vovós em horário nobre.

Inicialmente, eu encontro dificuldade para entender como uma legião de cristãos perde tempo para discutir o conteúdo moral de um folhetim que historicamente não tem nenhuma relação com o Cristianismo e nem a preocupação de fundamentar seu enredo nos ensinos de Cristo.

Fico pensando, se cristãos estão se sentindo prejudicados com o conteúdo das novelas “globais”, é de se esperar que em breve vão manifestar as suas indignações sobre algum canal de lutas (em função da possível violência física e psíquica), e até dos canais considerados adultos (caso alguma novidade erótica agrida a sensibilidade deste “cristão”)…

Me poupe!

Continuo pensando que tipo de cristão se presta a questionar a “imoralidade” estampada na TV como se isso fosse um problema apenas desse meio de comunicação, e não da cosmovisão decadente da sociedade atual.

Para os insistentes, pergunto: o que a sua igreja local oferece como um programa de melhor qualidade moral e espiritual do que o entretenimento da Tele-Babilônia e outros programas televisivos?

Boa parte das igrejas cristãs (evangélicas e até católicas) abre suas portas para os cultos de oração, cultos evangelísticos, cultos de ensino bíblico, sem contar o investimento para os estudos bíblicos e teológicos, nos seus variados níveis. Não mencionei ainda os sem número de ministérios voltados para casais, criação de filhos, adolescentes, terceira idade, artes, música, etc. E, por falar em música, as igrejas são referência no que há de melhor em conjuntos corais, vocais e instrumentais.

E eu nem citei os variados ministérios familiares adotados por muitas denominações, os quais se valem dos milhares de lares cristãos para estabelecerem igualmente milhares de igrejas nas casas.

Igrejas-casas que não pagam imposto! Igrejas-lares que pagam o preço da santificação!

Por fim, e não menos importante, transcrevo o texto do apóstolo João – Apocalipse 18.2-5 – escrito no primeiro século da era cristã acerca dos eventos futuros que envolverão a Babilônia:

“E clamou fortemente com grande voz, dizendo: Caiu, caiu a grande Babilônia, e se tornou morada de demônios, e coito de todo espírito imundo, e coito de toda ave imunda e odiável. Porque todas as nações beberam do vinho da ira da sua fornicação, e os reis da terra fornicaram com ela; e os mercadores da terra se enriqueceram com a abundância de suas delícias. E ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas. Porque já os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou das iniquidades dela”.

Curioso observar que a ordem é para sair da Babilônia e não mudar a Babilônia. Sair diz respeito a uma decisão estritamente minha de abrir mão da luxúria e lascívia que todo tipo de Babilônia representa: no passado ela foi símbolo de confusão espiritual, no presente é signo de libertinagem, e no futuro escatológico será a insígnia do pecado superlativo.

E, para tratar esse mal histórico, diagnosticado pelo salmista, ele mesmo receitou a dieta radical: “Não porei coisas más diante dos meus olhos” (Sl 101.3)!

Afinal, ou eu mudo em relação à Babel, ou a Babel me muda! E, pra pior!

FONTES:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Babil%C3%B4nia
http://www.chamada.com.br/mensagens/babilonia_profecia.html

QUANTOS AMIGOS VOCÊ CONSEGUE TER?

VEJA | Criador do “número de Dunbar”, o antropólogo e psicólogo evolucionista inglês Robin Dunbar explica por que, apesar das redes sociais, os amigos de verdade se restringem a um grupo de, em média, 150 indivíduos por pessoa

Quantos amigos você tem na internet? Quinhentos? Mil? Pois bem, não se iluda. O limite das relações humanas é determinado pela biologia. O ser humano tem capacidade de manter uma rede de amizade composta por, em média, 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, ele foi estipulado, na década de 90, pelo antropólogo inglês Robin Dunbar. Aos 67 anos, o professor da Universidade de Oxford, é um dos mais importantes estudiosos da psicologia evolutiva. Segundo ele, esse número se mantém estável desde os primórdios da humanidade e não mudou com a popularização das redes sociais digitais. “Compartilhar informações pessoais com quem não se tem intimidade cria a falsa sensação de amizade”, disse ele a VEJA. Dunbar é autor de uma dezena de livros. O mais importante deles, de 2010, é How Many Friends Does One Person Needs? Dunbar´s number and other evolutionary quirks (em tradução livre, Quantos amigos uma pessoa precisa? O número de Dunbar e outras peculiaridades evolucionárias). A seguir, a entrevista de Dunbar:

QUAL É O IMPACTO DAS REDES SOCIAIS DIGITAIS NAS RELAÇÕES HUMANAS, SOBRETUDO NAS DE AMIZADE?
As redes, como o Facebook, mudaram a forma como nos relacionamos com os amigos que estão distantes -e, por isso, tornaram-se tão populares. Elas criam, no entanto, a falsa impressão de que possuímos muitos amigos. Encontrar a pessoa pessoalmente e conviver com ela faz toda a diferença. Nesse sentido, o Skype é melhor, pois proporciona a “coexistência” do outro, ainda que virtualmente. O problema é que o Facebook classifica todo mundo como amigo. Muitos ali são apenas conhecidos – muitas vezes, quase desconhecidos. Compartilhar informações pessoais com quem não se tem intimidade cria a falsa sensação de amizade. Na realidade, a média de 150 amigos por pessoa mantém-se inalterada, independentemente das redes sociais digitais.

COMO O SENHOR CHEGOU AO “NÚMERO DE DUNBAR”, QUE DETERMINA A MÉDIA DE 150 AMIGOS POR PESSOA?
Esse número se mantém o mesmo desde os primórdios da humanidade. Entre os primatas, a quantidade de amigos é determinada pelo tamanho do cérebro. Quanto maior o cérebro, maior é a capacidade do indivíduo de estabelecer vínculos de amizade. Os macacos, por exemplo, mantêm uma comunidade restrita a cinquenta integrantes. É uma fórmula de sucesso. Durante milhares de anos o ser humano viveu em aldeias e vilarejos. Há pouco mais de um século habitamos grandes cidades, com populações numerosas. Ainda assim, nosso círculo social funciona da mesma maneira de milênios atrás. Aqueles que conhecemos pessoalmente, em quem podemos confiar e com quem temos alguma afinidade não passa de 150. Um dos primeiros estudos que fizemos para comprovar esse número ocorreu em 1993, quando pedimos para que famílias inglesas enviassem cartões de natal para sua rede de conhecidos, uma tradição forte no país. Ao fim da pesquisa, descobrimos que o número de pessoas que receberam esses cartões foi aproximadamente esse, 150. Dentro desta rede estavam familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho.

NA PRÁTICA, O QUE DEFINE ESSE GRUPO?
Imagine-se na seguinte situação: você está no aeroporto de Hong Kong, em plena madrugada, e vê uma pessoa conhecida. Você se deslocaria para cumprimentá-la sem hesitar? Se a resposta for positiva, essa pessoa está entre seus 150 amigos. Ela pode não ser um melhor amigo, mas você sabe quem ela é e qual o papel dela no seu círculo social – e vice versa. Essas são pessoas que você encontra pelo menos uma vez por ano e que seriam convidadas para uma grande festa organizada por você.

POR QUE NÃO CONSEGUIMOS MANTER UMA REDE MAIOR DE AMIGOS?
O problema não é capacidade de memória. Conseguimos fazer isso com um número muito superior a 150 indivíduos – saber quem são e o que fazem. A questão é o tipo de relação que mantemos com as pessoas. Qual é o papel que elas têm em nossa vida? Quanto tempo nós investimos na relação com elas? Dos 150 amigos, cinquenta são considerados bons amigos. Desses, apenas quinze podem ser chamados de melhores amigos. E entre eles, somente cinco pertencem à categoria dos amigos íntimos, aqueles que você procura quando está com problemas, pede conselhos, busca consolo e até mesmo aceita dinheiro emprestado. É importante lembrar que o número 150 é uma média. Ele pode variar, conforme a personalidade de cada pessoa, suas habilidades sociais e seu gênero. Alguém com mais traquejo para lidar com os mais diversos tipos de pessoas, obviamente tende a ter um círculo de amizade maior. Da mesma forma, acontece com os extrovertidos –ainda que o vínculo estabelecido por eles seja menos profundo do que os firmados entre os introvertidos e seus amigos.

O QUE DEFINE OS DIFERENTES GRAUS DE AMIZADE?
A frequência do contato é sem dúvida o que mais importa na construção de uma amizade. A intensidade da relação depende muito do quanto você vê a pessoa e do tempo que você gasta com ela. Investimos cerca de 40% do nosso tempo social com nossos cinco amigos íntimos e 60% do tempo social com nossos quinze melhores amigos. Sobra pouco para os cem amigos que restam. São os encontros de verdade, cara a cara, que sustentam e fazem uma amizade sobreviver. Se um novo amigo entra em nossa vida, significa que algum outro amigo, com quem não se tem mais tanto contato, perdeu seu lugar no grupo dos 150. É mais ou menos como ocorre nos relacionamentos amorosos: você quer fazer com que seu parceiro se sinta especial e, para isso, você precisa sacrificar o tempo dedicado a outras pessoas. É por isso que, quando um amigo muda de cidade, fica mais difícil manter o vínculo.

OS FAMILIARES ESTÃO INCLUÍDOS NA CONTA DOS 150 AMIGOS?
Sim, algumas pesquisas mostraram que, na Europa, 50% das pessoas do círculo social são parentes. Já no Brasil, essa proporção é ainda maior, ultrapassando 50% dos laços de amizade, talvez porque as famílias são maiores. A relação que estabelecemos com os parentes que estão no grupo dos 150 difere muito da que estabelecemos com os amigos que adquirimos ao longa da vida. Quando passamos mais de seis meses sem encontrar um desses amigos, os vínculos emocionais com ele tendem a enfraquecer. Com isso, essa pessoa acaba por perder o lugar na hierarquia das relações sociais. Há de se levar ainda em conta ainda que as amizades passam por mudanças no transcorrer dos anos. O cartel de amigos costuma se renovar em cerca de 20% de tempos em tempos. Em contrapartida, a relação de amizade estabelecida dentro da família não requer essa presença constante. Ela se tende a se manter intacta durante quase toda a vida.

NÃO É PREOCUPANTE O TEMPO QUE AS PESSOAS, SOBRETUDO OS JOVENS, PASSAM ONLINE?
Sim, muito preocupante. Ao longo da vida nós temos de desenvolver diversas habilidades para conseguirmos sobreviver em nosso complexo mundo social. Leva-se cerca de 20 a 25 anos de prática para que uma pessoa tenha habilidades sociais satisfatórias. Se, por exemplo, uma criança estiver brincando no parque e outra criança jogar areia nela, ela aprenderá a administrar essa situação de forma adequada e manter seu círculo social funcionando. Mas crianças que não tem a oportunidade de passar por essas experiências e adquirir essas habilidades sociais podem se tornar alienadas e completamente egoístas. Elas passam muito tempo conversando com os amigos pela internet e, se algum deles insultá-lo, basta fechar a janela da conversa e começar a bater papo com outra pessoa. Na vida real não nós podemos fazer isso, nós somos obrigados a aprender maneiras de lidar com situações desagradáveis. As conversas online tendem a ocorrer em uma bolha. O ato de não vermos as pessoas com quem estamos conversando faz com que nossa imaginação voe. Atribuímos a nosso interlocutor as características que gostaríamos de encontrar no modelo perfeito de amigo ou parceiro.

A IMPORTÂNCIA DA AMIZADE PARA O SER HUMANO É TÃO IMPORTANTE HOJE QUANTO NO PASSADO?
Claro que sim. Nós só sobrevivemos em grupo. Hoje em dia não precisamos dos amigos para nos protegermos dos predadores, como acontecia nos primórdios da humanidade. As circunstâncias mudaram, evidentemente. Os amigos são essenciais para todo tipo de situação que nos permite seguir a vida com sucesso – de alguém para desabafar a quem tome conta de seu filho quando você tiver um compromisso. O grupo dos 150 amigos define uma série de acontecimentos em nossa vida. Em 70% dos casos, o encontro do par romântico acontece por intermédio de uma dessas pessoas. Além disso, vários estudos já mostraram que os amigos são importantes até para a saúde. Se você quiser viver muito, eu aconselho a ter uma rede bem integrada de amigos de qualidade. A construção de relações de amizade ricas e duradouras está associada a uma série de benefícios à saúde. Ajuda na prevenção de uma série de doenças –distúrbios cardiovasculares, depressão, Alzheimer, entre outras. Eu diria que os efeitos positivos da amizade na saúde são tão grandes quanto parar de fumar.

ASSIM COMO EXISTE UM HORMÔNIO ASSOCIADO AO STRESS, PODEMOS DIZER QUE HÁ UM HORMÔNIO DA AMIZADE?
Sim, a endorfina. Ela funciona como uma espécie de ópio, mas sem oferecer o risco da dependência. Quando o contato com outra pessoa nos é de alguma forma prazeroso, a endorfina é liberada, proporcionando a sensação de relaxamento e felicidade. Rir, conversar, sair para dançar ou ouvir música com os amigos são gatilhos para a síntese de endorfina. Graças a essa substância, nos sentimos parte de um grupo, um dos principais alicerces para a consolidação da amizade.

COMO HOMENS E MULHERES SE DIFEREM EM RELAÇÃO À COMUNIDADE?
A explicação é a mesma para todos os primatas. As fêmeas que definem a vida social, os machos apenas as seguem, eles são mais flexíveis e não têm relações tão profundas quanto as fêmeas, que são mais intensas em seus relacionamentos. Entre a maioria das espécies primatas, o segredo para uma fêmea ter sucesso reprodutivo vem do apoio que ela ganha das outras fêmeas. E é preciso muita dedicação para que elas consigam se inserir nesse mundo social. Pesquisas com babuínos do Quênia mostraram que as fêmeas que tiverem sucesso socialmente são também as que tiveram a prole mais numerosa e sobrevivente ao longo da vida.

ISSO SIGNIFICA QUE MULHERES TÊM MAIS HABILIDADES SOCIAIS?
Sim. Para os homens as amizades são mais casuais, enquanto para as mulheres essas relações são mais intensas, mais valiosas. Se um casal mudar de cidade, por exemplo, é mais provável que a mulher mantenha as amizades antigas. Uma das explicações para isso está no fato de que as mulheres compartilham com as outras os problemas relacionados aos cuidados com os filhos. Para o homem, se ele for morar em outra cidade, só precisa de um novo clube para frequentar – não importa quem são os sócios. É como um time de futebol: é importante que os jogadores tenham um bom relacionamento, mas a relação não necessariamente precisa ser intensa. Esse raciocínio funciona bem no campo da política, negócios, forças armadas… Mas as coisas podem mudar muito, porque as mulheres estão cada vez mais presentes nessas áreas.

ESSAS DIFERENÇAS TAMBÉM PODEM SER NOTADAS NO CÉREBRO DE HOMENS E MULHERES?
Ainda não sabemos exatamente como, mas o cérebro de homens e mulheres estão organizados de maneira diferente. Uma boa pista é o fato de mulheres terem mais substância branca, o que gera mais conexões no cérebro. Talvez por isso as mulheres consigam administrar um número maior de amigos. Elas geralmente têm uma rede social maior e mais complexa, com mais “melhores amigos”.