A LÍNGUA ERUDITA

NEIR MOREIRA | A capacidade humana de expressar seus sentimentos e emoções constitui-se certamente numa dádiva divina. O ser humano é um ser essencialmente social. E historicamente, ele tem transmitido sua história e conquistas através da comunicação oral. A oralidade é um dos canais prediletos da raça humana.

O homem fala. E a mulher? Dizem os estatísticos que um pouco mais que nós. Não vou ceder à tentação de discutir isso, mesmo porque na conjugação social todos nós falamos: acordados, dormindo, sonhando, andando, ao telefone, para os outros, para a gente mesmo, para Deus, às paredes, por gestos, enfim… Falamos. Afinal, quem não fala? Até o corpo tem sua linguagem. Já foi o tempo em que mudo era a pessoa que não falava. Hoje ele tem uma língua que o permite “falar”. Mesmo surdo-mudo. Há também aqueles que de tanto falar sequer conseguem ouvir os outros. Às vezes nem a si próprio. Há um adágio popular que diz: “quem fala o que quer ouve o que não quer”. Minha mãe sempre dizia: “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”. Para economizar minhas palavras, há ainda aqueles que não têm papas na língua (no original espanhol “não tem pevides na língua” – pevides são pequenos tumores que revestem a língua de algumas aves, obstruindo-lhes o cacarejo). Pobres aves! Não dá para dizer o mesmo da nossa raça…

E o falatório humano, diga-se de passagem, encontra no contexto cultual e religioso a caixa de ressonância ideal para a sua propagação. No fenômeno do culto religioso, especialmente o protestante, preferencialmente o pentecostal há muita, muita comunicação. Tanta que às vezes atrapalha. É gente falando consigo mesmo. Outros falando dos outros. Uns falando com Deus. Outros bradando ao microfone – quer ouçam, quer não. Na lista ainda consta o vocal que fala cantando, a orquestra que fala musicalmente, a bateria que literalmente “berra”, o bebê que “fala” à mãe que quer o peito. E nos tempos da pós-modernidade tem a multimídia que fala através das letras, cores e imagens. Afinal, se Deus não escreve mais na parede para os “filhos” de Nabucodonosor que ainda resistem em nosso meio, a igreja contemporânea deu um jeito de afixar o quadro eletrônico. Difícil saber onde termina o auxílio tecnológico e começa o entretenimento visual. “Fala Deus” – bradaria um fanático.

E Deus fala mesmo.

A Bíblia Sagrada mais do que um manual de ética e conduta é a revelação do Deus que fala e age. A propósito, uma fala criadora. Na Bíblia encontramos mais de 860 vezes a expressão “disse Deus”. A rigor, através do relato bíblico, um dos primeiros atos criadores de Deus foi através de sua voz: “E disse Deus: Haja luz, e houve luz” (Gênesis 1.3). Interessante observar que antes de formar o homem, Deus falou que faria isso. “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1.26). A fala egocêntrica, pivô da eterna discussão entre os seguidores de Piaget e Vigotsky talvez tenha no ato divino sua matriz. O que ambos os teóricos concordam que a fala da criança quando brinca não significa uma comunicação, mas um comentário da sua criação. Este comportamento nós não herdamos de um antropóide; mas de Deus.

Curiosamente, enquanto Deus cria a partir da sua fala, nós destruímos até pela nossa língua – o órgão digestivo acessório formado por 17 músculos e cuja função primária é a gustação. Existe um mito de que a língua é o músculo mais forte do corpo humano! E sobre ela, o sábio Salomão afirma que “a morte e a vida estão no poder da língua” (Provérbios 18.21), mas também salienta que “o que guarda a sua boca e a sua língua guarda a sua alma das angústias” (21.23). O apóstolo e meio-irmão de Jesus no livro que leva o seu nome aprofunda o tema ao assegurar que “a língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno” (Tiago 3.6). Ainda no versículo 26 do seu primeiro capítulo, o então pastor da igreja em Jerusalém define a verdadeira religião: “se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã” (1.26).

Considerando estas referências, fica clara a preocupação que temos de ter para controlar este pequeno, ágil e eficiente membro humano. Assim como Moisés, há muita gente pesada de língua, a qual deveria contratar um “orador-trainer” para domar sua língua na academia do bom senso. Outros, pobres de argumento, mas ricos de blasfêmias, talvez precisassem solicitar ao seu líder espiritual que molhasse a ponta do dedo para refrescá-la. Misericórdia!

Misericórdia sim, pois deveríamos usar nossa língua para proclamar o evangelho de Cristo às pessoas e não difamar o nosso irmão. Misericórdia sim, pois preferimos tecer comentários maldosos a exaltar as virtudes dos fracos. Misericórdia sim, pois sequer temos a nobreza de desligar o celular quando entramos no espaço sagrado da adoração. Misericórdia sim, pois em vez de dar glória a Deus mandamos é torpedo aos amigos. Misericórdia sim, pois em vez de conquistarmos mais discípulos para o Mestre, hoje disputamos quem de nós tem mais seguidores ou curtidores. Misericórdia sim, pois ocupamos o tempo sagrado da oração para pedir em vez de agradecer. Misericórdia sim, pois conseguimos captar a nota dissonante do estreante da orquestra, mas não aplaudimos pelo conjunto da obra. Misericórdia sim, pois reclamamos mais e elogiamos menos. Misericórdia sim, pois alimentamos a indústria da fofoca, inclusive no seio da igreja, mas não nos matriculamos no curso de boas maneiras (Existe? Devia!). Misericórdia sim, pois estudamos para falar bonito, mas jamais procuramos o curso de ouvir perfeitamente bem o que o meu irmão está tentando me dizer, mas a minha insensibilidade não me permite. Misericórdia sim, pois o juízo virá também. Afinal, chegará o dia no qual “toda a língua confessará a Deus” (Rm 14.11). Toda língua mesmo. A deficiente e a matraqueira.

E por falar em matraca, reza a lenda que os escravos a trouxeram para o Brasil junto com os seus folclores, culturas e rituais. Em muitas de suas reuniões eles a utilizavam. Segundo contam, este instrumento era capaz de atrair vários espíritos. Bons e maus. Para além da fantasia, a realidade mostra que a verdadeira matraca é uma pessoa loquaz, tagarela e faladora. O risco é saber se a dita matraca é do bem ou do mal. Na dúvida, melhor evitá-la.

Bom, “para não ficar apenas nas minhas palavras” – velho e gasto bordão pentecostal – eu apreciaria fazer minhas as palavras do profeta messiânico, aquele mesmo que teve os seus lábios tocados por uma brasa viva do altar: “O Senhor DEUS me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer a seu tempo uma boa palavra ao que está cansado. Ele desperta-me todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça, como aqueles que aprendem” (Isaías 50.4).

Língua erudita é muito mais do que o meio sistemático de comunicar conceitos profundos ou abstratos – este é apenas mais um conceito inteligente. Língua erudita, para os sábios, é aquela que apesar de pouco usada, quando acionada não fere, não disputa, não humilha e não ignora. Língua erudita é muito mais do que um membro do corpo; ela é o instrumento na promoção da paz e do amor. A erudição do sábio não está na sua capacidade de falar e não ser compreendido, mas na possibilidade de falar, mesmo que através do silêncio, através de sua empatia e compaixão ao necessitado.

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