JEOVÁ “CHAPA QUENTE”!

NEIR MOREIRA | O Congresso Internacional dos Gideões Missionários da Última Hora (GMUH) é um dos maiores eventos desta natureza no contexto pentecostal brasileiro, o qual é realizado anualmente na cidade de Camboriú (Santa Catarina). De acordo com o site oficial, os Gideões Missionários sustentam mais de 1.300 famílias (no Brasil e em outros 42 países).

A força deste trabalho missionário é notório não apenas entre os pentecostais, mas também entre os que apoiam a obra missionária idealizada e iniciada pelo pastor Cesino Bernardino no final da década dos 70. Além disso, a população local e seus políticos enxergaram nos Gideões uma alavanca turística a qual faz o município aumentar consideravelmente sua “população” nos 10 dias de festa que geralmente ocorre entre os meses de abril e maio. Ressalte-se também que esse Congresso é tido como uma vitrine e plataforma para muitos pregadores e cantores itinerantes Brasil a fora.

Em 2013, em função do meu trabalho, foi a minha segunda experiência nesse Congresso (a primeira foi no longínquo 1994 – uma aventura de cinco amigos apilhados num indefectível Opala).

Hospedado juntamente com a minha equipe de trabalho numa casa próxima ao templo sede da igreja (um dos locais onde ocorre o Congresso), tinha a nosso favor a proximidade entre a hospedagem e o ginásio de esportes – local onde abriga as principais reuniões. Isso não quer dizer que o trajeto seja fácil e rápido. Muito ao contrário! É preciso não ter pressa para se tentar chegar a algum ponto no meio da multidão que teima em aumentar a cada minuto.

Quem gosta dos Gideões mas sofre de agorafobia tem duas opções: ou fica em casa assistindo pela net, ou precisa ter fé e ser curado nos minicultos que ocorrem o tempo todo e em cada esquina num som que escandalizaria qualquer decibelímetro.

No último domingo da festa e era perceptível a expectativa nas caras e bocas dos vendedores que disputavam, na base do gogó, a preferência dos consumidores que se espremiam nas vielas que circundam o local do evento. Não é o caso enumerar aqui o que se vende ali. Difícil é encontrar uma pessoa que não tenha comprado “algumas coisinhas” nos Gideões. Ou seja, lá se compra de tudo (pergunte a um gideonita). E, obviamente, se vende quase tudo (indague a um expositor)!

Enquanto eu distribuía o meu material de marketing (entre um esbarrão e outro – o que é inevitável) fui chacoalhado por uma expressão bradada (eles gostam deste termo) dentro de uma daquelas barracas a qual foi introjetada para dentro dos meus tímpanos:

– JEOVÁ “CHAPA QUENTE”!

Bem, a minha veia teológica está estourando e me convidando a dissecar esse termo, mas a minha veia psicológica me diz que eu devo me controlar. Por ora, a segunda vence (ou domina) a primeira.

Duas observações, no entanto, cabem aqui.

Em primeiro lugar, como todo o ser humano inserido num contexto específico, ele vai desenvolver um comportamento aceito e compartilhado por seus pares. Um aspecto pontual é o idioma. Nesse caso, consigo identificar o gideonês. Ou seja, algumas expressões que nascem e proliferam entre os gideonitas (termo criado para designar um apoiador e seguidor dos Gideões Missionários).

Em segundo lugar, é óbvio que um trabalho dessa envergadura atrai tanto admiradores quanto críticos da obra missionária. Isso é fato! Penso apenas que somente deve tomar o tempo para criticar quem conhece in loco o referido movimento. Talvez valesse a sugestão: todos deveriam visitar, pelo menos uma vez na vida, a “Meca das Missões”. Afinal, se visitar Maaca é um sonho distante para os meus amigos muçulmanos, conhecer os Gideões é bem mais barato; mas não menos concorrido.

Detalhe 1: se o acesso a Meca é proibido às pessoas que não são muçulmanas, Camboriú abre os braços, casas, quartos, apartamentos, e cada metro quadrado a todos os amantes da obra missionária.

Detalhe 2: enquanto os muçulmanos afortunados dirigem-se à Meca para sua purificação espiritual, os missiólogos, missionários e “missioneiros” podem ser renovados espiritualmente através das mensagens e músicas ministradas quase que 24 horas por dia na capital missionária do Brasil.

Finalmente, embora eu não me considere um gideonita, aprendi o seguinte em relação a eles:

Ou você os ama ou os despreza, mas nunca os ignora!

Ademais, quer você goste, ou não, eles estão fazendo a obra missionária. Em alto e bom som!

Ficou curioso ou curiosa? Arrume as malas, encha o tanque, separe uma cadeira dobrável e desça a serra. Afinal a versão 2014 do Congressos dos Gideões começa no próximo sábado. Se não achar nenhuma “hospedaria”, durma no Opala mesmo…

Compartilhe leaving a comment or subscribing to the RSS feed to have future articles delivered to your feed reader.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *