PASTORES DEVEM PROCURAR AJUDA EMOCIONAL NA PSICOTERAPIA?

ULTIMATO | Em uma época de ansiedades, transformações, incertezas, guerras e violência, não há como nos mantermos integrados e tranquilos o tempo todo. Mesmo cheios de fé e com nosso espírito firme em Deus, nossa alma muitas vezes se inquieta e sofre com a desestrutura social, a maldade humana e nossas próprias cargas emocionais. Quantas vezes somos atingidos por surpresas doloridas, rupturas de expectativas, e situações de grande complexidade que expõem nossa impotência? Um sábio disse: “Pois ainda que o homem viva muitos anos e regozije-se em todos eles, contudo deve lembrar-se de que há dias de trevas, porque serão muitos” (Ec 11.8).

No passado e no presente temos homens e mulheres, cheios de fé, moralmente íntegros, enfrentando brutais adversidades, injustiças e até martírios (Hb 11,36-40). Andar no escuro, por muito tempo, num combate interior, diuturno, exaustivo é o que místicos cristãos descrevem como a noite escura da alma (J. Bunyan, S. João da Cruz, Tereza de Ávila). Pessoas em sofrimento emocional necessitam de suporte humano afetuoso, sábio, firme, não acusador, distinto de discursos religiosos e moralismo que intensificam o sofrimento, como protestou Jó aos seus amigos bem intencionados, mas inoportunos (Jó 19.1).

Como enfrentar nossas inseguranças e crises pessoais, em face de realidades muito complexas? A fé cristã nos possibilita, com os recursos da graça de Deus, a nos conhecermos no íntimo, como realmente somos, sem disfarces. Nosso misterioso coração necessita ser sondado e discernido, com perícia, para que possamos compreender e elaborar memórias doloridas, emoções tóxicas, jogos neuróticos e pecados estruturais que nos controlam. Mas como trilhar sozinho esse caminho de acesso ao coração? Como aprender sobre nossas emoções, sentimentos, culpas, ansiedades, desejos, medos, ou até mesmo desenvolver bons potenciais ainda inexplorados? Na tradição cristã há os exercícios espirituais e mentoria de “pais” ou diretores espirituais, entre outros dispositivos, para apoio na maturação emocional e elaboração de crises. Estes dispositivos funcionam como uma “herança”, reconhecida como seminal por eminentes construtores da psicologia secular.

A psicoterapia é uma das possibilidades para que a busca por integridade emocional não seja solitária. E os medos de que nesta busca se afaste daquilo em que se acredita, como a fé, o casamento, o ministério, entre outros valores e bens? Se nossa fé está radicada na verdade, em Cristo, porque tememos perdê-los? Não seria importante, podermos abrir – para nós mesmos – nossos medos?

Todos nós temos dificuldades de encarar o que somos e como vivemos. Dificuldade de escutar as expressões de nossa alma, devido a fixações em rotinas e automatismos mentais. Não desfrutamos de pausas para meditação, descanso e gozo. Incorporamos e reforçamos imagens idealizadas sobre a pessoa do pastor. Neste processo podemos ficar prisioneiros da sombria imagem (persona) do super pastor (a), inabalável, bem casado, bom gestor, muito santo, feliz e bem sucedido (a). Nessa vivência inautêntica sabemos que estamos como impostores (as) e tememos ser desmascarado (as). Mas esse sofrimento todo é inútil. Só serve para nos desgastar e nos afastar de tudo e de todos, deixando-nos no mesmo lugar, com os mesmos problemas e conflitos.

É bom saber que Deus ouve nossas angústias e “deseja” que nos reconheçamos como simplesmente humanos. Com direito a buscar ajuda como o fazem nossas ovelhas, junto a alguém preparado e igualmente “sacerdote” em sua ciência: o psicoterapeuta. O psicoterapeuta é o profissional legalmente habilitado para ajuda emocional. Para acolher nossas mais profundas dores, razões e des/razões; tanto as conhecidas quanto as desconhecidas e, até por isso, temidas. É também alguém treinado para nos encorajar a ir em busca do que negligenciamos ou que permitimos que nos tirassem. E ainda para nos ajudar a encontrar o nosso melhor de quem, muitas vezes, por pressões internas e externas, nos afastamos, mesmo que com a melhor das intenções.

Ninguém está livre do mal, mas podemos aprender a lidar com ele em nós mesmos. Todos temos uma “sombra”, um nosso outro lado, não necessariamente ruim, mas apenas desconhecido, que tememos olhar. Não é reprimindo esse lado que ele desaparece. No Gênesis ouvimos a Palavra criadora de Deus dando origem ao céu e terra e a vida humana. E Jesus sempre provocou diálogos para que, mediante conversação, houvesse cura e salvação. Daí a importância do falar; do dividir nossas dores e inquietações. O que nem sempre é fácil, pois, reflexamente, nos escondemos, como Adão, por medo de sermos fulminados num julgamento. Mesmo reconhecendo a necessidade de ajuda protelamos em buscá-la por vergonha, orgulho e outros sentimentos difíceis de lidar, por isso tantos mecanismos de defesa.

O psicoterapeuta tem o compromisso ético de ajudar com um olhar isento de julgamentos, dentro de um setting terapêutico, onde tudo pode ser dito, até porque o dito e o não dito é estritamente confidencial. Alguém treinado a lidar com as inseguranças próprias do humano e que aprendeu a ter coragem (e nos dar coragem) para, com uma atitude criativa, explorar nossa psique, em suas múltiplas facetas sem, contudo, desrespeitar nossas crenças e valores. O encontro terapêutico é um processo dialogal, analítico, catártico e objetivo, com vistas a uma melhor autocompreensão e assertividade. E tem função preventiva para redução de danos e aumento de resiliência psíquica. Um encontro, não de técnicas, mas de pessoas, na busca de compreender e enfrentar a força primitiva e desorganizadora do medo; e, assim, ajudar o desabrochar de bons afetos, e o agir em amor.

Lamentamos as perdas de vidas que sucumbiram à falta de esperança. Acima de qualquer consideração, tenhamos compaixão e misericórdia com quem tenha posto fim à própria vida. Muito provavelmente se tivesse tido oportunidade para abrir seu coração a alguém maduro e de confiança, tal pessoa poderia rever sua decisão de deixar de viver. A qualquer tempo em que tratarmos nossas sombras e complicações existenciais, com supervisão, descobriremos que, independente do quão feia ou má nós a supúnhamos, virá um sentimento de profundo alívio, pela retirada de pesos de nossos ombros. Fardos que nos foram impostos ou que foram criados por nós mesmos. Tenhamos liberdade para ser. Ser não o melhor, nem o primeiro, mas ser simplesmente o meu melhor, verdadeiramente. Ser íntegro comigo e com Deus e com meus limites e potencialidades, ainda que cercado por fatos e pessoas que insistam em ressaltar nossa impotência.

Descobrir que não existe apenas a dor e o vazio desesperador. Existe um sentido de vida que não está no outro, nem no exterior de uma religião, mas está em nós mesmos e na sacralidade de nosso Deus e de nossa relação com Ele. Jesus nos chama a adentrarmos na intimidade dum lugar secreto para nos abrirmos com o Pai (Mt 6.6). É o nosso “Santo dos Santos”, lugar do encontro pessoal com Deus. Não um templo, mas o mais íntimo de nosso espírito diante do Espírito Santo de Deus. E lá no fundo de nosso coração, alma e espírito, sabemos – pois está cravado em nosso ser – que somos muito mais importantes para Deus do que a imagem ou juízos que as pessoas possam ter de nós.

Quando vivemos sob o medo, somos aprisionados e limitados no pensar e no planejar. Já o amor, a graça e a liberdade nos liberam para podermos “vir a ser”, a pessoa para a qual Deus nos criou e capacitou a sermos.

****

O Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos e a EIRENE podem ser pontos de apoio para pastores e familiares em busca de ajuda emocional.

Compartilhe leaving a comment or subscribing to the RSS feed to have future articles delivered to your feed reader.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *