A CURA COMO FORÇA PARA VIVER COM NOSSAS DORES E LIMITES

DR. RONALDO SATHER-ROSA

A CURA É UM PROCESSO

Desenvolve-se ao longo da evolução da personalidade. Ao curar-se um sintoma ou um aspecto doentio do individuo, em determinada etapa de seu desenvolvimento psicológico, físico e relacional é claro que não se elimina a possibilidade de surgirem outros focos de enfermidade com sintomas diferentes numa mesma época ou em tempos diferentes.

Também pode ocorrer que a causa dos sintomas não tenha sido eliminada ou que não tenha ocorrido a “CURA DA ALMA”. Pois, como observa Erich Fromm (1966, p. 79), “… a palavra ‘cura’, não tem o sentido simples de tratamento sintomático, que o uso atual comumente lhe confere, mas é empregada no significado mais lato de tratamento da personalidade”.

Além disto, a cura é expressão de aperfeiçoamento constante do ser visando à plenitude da vida no individuo e em seus relacionamentos com o Criador, com o próximo, com a natureza e consigo mesmo.

O ser humano está sempre sujeito às transformações que ocorrem no seu organismo nas múltiplas interações com o meio-ambiente em que vive. Portanto, o cuidado consigo é tarefa para toda a vida. O descuido pode provocar a volta da doença ou o surgimento de nova enfermidade.

Daí o valor das “COMUNIDADES DE FÉ E SOLIDARIEDADE” como espaço preventivo de cuidado pastoral pelo bem-estar, não apenas momentâneo, das pessoas na permanente busca da vida completa.

A CURA NÃO NECESSARIAMENTE SIGNIFICA A ELIMINAÇÃO DA DOENÇA

A cura pode ser o ganho de uma atitude nova, ou de outra perspectiva sobre determinada condição.

Paulo, o Apóstolo, testemunha que “para que eu não ficasse orgulhoso demais por causa das coisas maravilhosas que vi, foi-me dada uma doença dolorosa, como se fosse um espinho na carne (…) três vezes orei ao Senhor e lhe pedi que tirasse isso de mim. Então ele me respondeu: ‘A MINHA GRAÇA É O SUFICIENTE para você (…)’” (II Coríntios 12.7-9). A cura se deu não pela eliminação do “espinho” e sim pela concessão da Graça.

Portanto, nem sempre há correspondência entre o desejo da pessoa que busca a cura e a “resposta” a esse anseio. Isso não significa necessariamente incredulidade ou maldição: a “resposta” pode ser melhor do que a aspiração pessoal.

Dorothee Sölle (1996) lembra que as sociedades contemporâneas perderam a capacidade de suportar o sofrimento inerente à existência humana e de enriquecer-se, através dele, em termos de humanização, humildade e sabedoria.

Leonardo Boff (2001, 145) menciona expressão de médico alemão: “Saúde não é a ausência de danos. Saúde é a força de viver com esses danos”.

Porém, especialmente no Brasil, é fundamental combater o sofrimento desnecessário, como aqueles causados por injustiças sociais e por violências.

(Texto revisado e adaptado de meu artigo publicado originalmente em Tempo e Presença, 19, 294, p. 16-18).

Compartilhe leaving a comment or subscribing to the RSS feed to have future articles delivered to your feed reader.

2 respostas para “A CURA COMO FORÇA PARA VIVER COM NOSSAS DORES E LIMITES”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *