MEU APOLITICISMO

NEIR MOREIRA | Em tempos de campanha política, sugiro a leitura de uma das minhas crônicas que trata sobre o contexto político brasileiro…

Eu me julgo apolítico. Não etimológica, mas essencialmente. Não me refiro à política como a arte ou ciência da organização, direção e administração, o que está presente em praticamente toda a esfera de procedimentos relativos a “polis” (cidade), mas àquela praticada notadamente pelos representantes das unidades da federação brasileira.

É óbvio que o simples fato de me posicionar frente à estrutura que suporta todo o partidarismo tupiniquim já se pode configurar uma política. Se me permitem: faço política do meu apoliticismo – ou seja, a minha rejeição a qualquer envolvimento em questões meramente partidárias.

Contrariando a maioria dos e-mails que enchem a minha caixa de entrada, recentemente recebi um que não merecia a lixeira, e coincidentemente fora enviado por uma cidadã brasiliense. A veracidade do seu teor discorria sobre o comportamento de um determinado povo. Segundo ele:

– Quem não estaciona nas calçadas apesar das placas?

– Quem não fala no celular enquanto dirige?

– Quem não trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento?

– Quem não para em filas duplas, triplas?

– Quem não registra seu imóvel no cartório com valor abaixo do comprado com o intuito de pagar menos impostos?

– Quem não compra recibos para abater na declaração do imposto de renda a fim de pagar menos imposto?

– Quem não viola a lei do silêncio?

– Quem não dirige após consumir bebida alcoólica?

– Quem não suborna ou pelo menos tenta quando é pego cometendo infração?

– Quem não utiliza atestados médicos sem estar doente a fim de faltar ao trabalho?

– Quem não faz “gato” de luz, de água e de TV a cabo?

– Quem não muda a cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas?

– Quem não altera para mais o valor da nota fiscal quando viaja a serviço pela empresa?

– Quem não estaciona em vagas exclusivas para deficientes?

– Quem não adultera o velocímetro do carro para vendê-lo mais facilmente?

– Quem não mente a idade do filho para que este não pague passagem?

– Quem não emplaca o carro fora do seu domicílio para amenizar o IPVA?

– Quem não frequenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho?

– Quem não apanha do local de trabalho pequenos objetos como clipes, envelopes, canetas, lápis, como se isso não fosse roubo?

– Quem não mente ao agente federal sobre o conteúdo da bagagem quando volta do exterior?

– Quem não saqueia as cargas de veículos acidentados nas estradas?

– Quem não troca votos por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, dentadura, cadeira de roda, cesta básica?…

Que povo é esse? Quem procede assim?

Pensa… Pensa…

Difícil assegurar categoricamente. Diversos testes de fidelidade foram aplicados em muitos países. E o resultado é tão diverso e complexo quanto à própria história da espécie humana.

É evidente que não se pode generalizar, mas uma das provas que ratificam o perfil ético de uma nação é exatamente o seu extrato político. Um país cujos representantes políticos em sua grande maioria são graduados em oratória e persuasão, mas infelizmente foram reprovados nas disciplinas elementares da ética e do respeito ao cidadão, mereceria uma espécie de “ENEM-Político”.

Sinto-me envergonhado quando os MESMOS telejornais veiculam os MESMOS políticos respondendo as MESMAS perguntas do MESMO jeito. Sinto-me envergonhado quando anualmente CPIs são criadas e raramente somos informados da sua conclusão (vergonhosamente “terminar em pizza” é uma expressão genuinamente brasileira). Sinto-me envergonhado, pois o meu Estado frequentou os noticiários em função de um deputado paranaense literalmente voar a 190 km, no perímetro urbano, ceifando a vida de dois jovens. Sinto-me envergonhado pelos parlamentares oriundos dos redutos evangélicos e sua pífia contribuição para o resgate da credibilidade da referida classe política.

Em tempo: mesmo no Brasil há raras e caras exceções. Que bom elas existem. Pena que se pode contar nos dedos.

Dia desses durante um evento acadêmico, o orador foi questionado sobre o estigma que Brasília carrega pelo fato de acolher a sede o poder político brasileiro. Lembro-me claramente da expressão facial do professor e especialmente de sua resposta: “Quem, afinal, envia os políticos para lá? Não são todos os Estados brasileiros?”…

Silêncio estratégico…

Brasília é tão brasileira quanto às demais capitais e cidades. Do Oiapoque ao Chuí. A corrupção não tem a marca “made in Brasília”. A impunidade, infelizmente, veste verde e amarelo. E com colarinho branco, jaleco cinza, cinto dourado e botas enlameadas.

Meu apoliticismo se justifica pelo fato de não se poder esperar melhores políticos sem a renovação da origem onde são “criados”. Enquanto a sociedade reproduzir este tipo de comportamento será impossível enviar um novo colegiado que nos represente dignamente em Brasília, Curitiba ou em qualquer município brasileiro. Investir na família, na educação, e especialmente no resgate dos princípios éticos é o mínimo que se pode esperar para filtrar esta atmosfera que teima em repousar sobre este gigante adormecido em berço esplêndido.

Mas há um remanescente que não se sujeita às falcatruas. Quer políticas quer não. Há um contingente de brasileiros pálidos de insatisfação e ao mesmo tempo vermelhos de vergonha. Alvirrubro: talvez seja a cor que melhor represente aqueles que resistem à tentação de pertencer à banda podre da política nacional. Acredito, sim, que uma célula sadia pode combater o vírus da decadência moral e espiritual.

Enfim, quanto a mim: apolítico sim, sonhador talvez, incrédulo nunca.

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