NEGUINHO DE ALMA BRANCA

NEIR MOREIRA | Passava das doze horas e o meu cuco biológico já dava os primeiros sinais de fome. Sabe como é: nessas horas a gente foge do trabalho e corre para o restaurante.

Após me servir no buffet, sentei-me à mesa junto ao vidro que dava para a rua. Entre uma garfada e outra, uma olhadela na agitação característica do último mês do ano. Entre uma garfada e outra, um pensamento como tempero de um cronista. Entre uma garfada e outra, um comentário, no mínimo, inoportuno…

O que eu ouviria naquele instante, por pouco não me tira a fome. Embora eu não soubesse dizer se foi um elogio ou uma explicação fisiológica. O certo é que constrangeu. Tanto a mim quanto os demais presentes no pequeno estabelecimento comercial.

“Tá aqui um neguinho de alma branca” – disse um sujeito a outro com a mão sobre o meu ombro. Talvez com o intuito de reforçar, a expressão veio acompanhada de um sorriso inominável.

Eu deixaria quieto – eu diria na gíria da galera – mas não foi possível.

“Por que branca”? – quis saber minha pobre alma descolorida ante a surpresa.

A resposta veio visual e verbalmente. Se a boca fala do que está cheio o coração, também é verdade que a face revela o interior do miocárdio.

“Antigamente…” – essa foi a tentativa de explicação que, devo admitir, não consegui ouvir, sequer entender.

Então, a alma realmente tem cor? Taí uma questão que gravita na interface da teologia-filosofia… ou seria da teologia-medicina?

Se tem, qual é? Branca, preta, vermelha, ou seria incolor?

Se tem, cada cor “combina” com a pele? O branco tem alma branca, o negro tem alma escura, o asiático tem alma amarela?

Ou qual a “melhor” cor para cada tipo de pele? Talvez uma loira prefira alma dourada, o índio a alma vermelha, o asiático uma alma negra, e o crioulo uma alma alva. Quem sabe…

Bem, se não temos respostas a todas as perguntas, retomo duas ciências para formular novas questões: a psicologia e a teologia.

Em primeiro lugar, eu tive um professor na minha graduação em psicologia o qual tinha uma questão em aberta bem interessante. Ele se/nos perguntava: porque negritamos o texto e nunca o branqueamos?

Em segundo lugar, costumeiramente no contexto eclesiástico ensinamos nossas crianças que quem comete pecado fica com o coração negro! Será? Qual a base bíblica?

Nesse caso, o céu é todo branco e o inferno todo preto. Parece que os anjos são alvos e os demônios negros. Eu disse: parece…

Curiosamente em Curitiba quando se quer apenas café pede-se “café preto”; se é com leite, “pingado”. Aí, fiquei pensando qual seria a cor do café. Mesmo porque quando misturamos “café preto” com “leite branco” não tomamos “pingado cinza”… Fiquei pensando…

Também fiquei pensando na expressão que ouvi. Pensei também qual seria a reação daquele indivíduo se fosse o contrário; se por acaso eu lhe dissesse: “olá branquinho de alma preta”! Pensando bem, não combina. Além do mais ele ficaria chateado. Poderia gerar uma discussão boba. Estragaria o sagrado momento da alimentação dele. Revelaria o lado negro da minha alma branca. Essas coisas…

Melhor ficar só pensando… No máximo, escrevendo…

Mesmo porque jamais faria apologia da cor da minha epiderme. Se ser negro não é menos importante do que ser branco; se ser negro não é menos inteligente do que ser branco; se ser negro não é menos humano do que ser branco; porque eu deveria saber a cor da minha alma. Logo, não pretendo descobrir tampouco aceito que me sugiram cores.

Boaventura Santos afirmou que “temos o direito de ser iguais sempre que as diferenças nos inferiorizam; e temos o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza”.

Se eu desconheço a cor da minha alma, estou ciente apenas que ela foi lavada.

Lavada, sim! Pelo sangue do Cordeiro.

Colorida, não! Pelo licor do preconceito.

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