REFORMALATRIA: 4 PERIGOS A EVITAR PARA NÃO IDOLATRAR A REFORMA PROTESTANTE

ULTIMATO | “Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos, e o não são, e tu os achaste mentirosos. E sofreste, e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste. Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres” (Ap 2.2-5).

O teólogo francês João Calvino gostava de ensinar, com sólida base bíblica, que o coração do homem é uma fábrica de ídolos. Sempre que o nosso coração se distancia milímetros de seu apego a Cristo, inevitável e imediatamente ele fabrica uma incontável multidão de deuses que desejam lutar dentro dele por cada nicho e cada altar, eclipsando assim a figura de Jesus Cristo. Uma data tão auspiciosa como a abertura das comemorações dos 500 anos dos inícios da Reforma Protestante, pode e seguramente, nos oferece a ocasião para grosseira idolatria.

Há mesmo quem esteja até festejando o fato de o Papa Francisco participar dessas comemorações na Suécia ou ainda sinta-se valorizado e reconhecido porque um grupo de peregrinos luteranos foi recebido com uma imagem de Lutero na Sala de audiências Paulo VI no Vaticano um dia desses.

1. NÃO HAVIA CRISTIANISMO, IGREJA E EVANGELHO NO MUNDO ANTES DA REFORMA?

Entretanto, quais são os reais perigos de uma ‘Reformalatria’? O primeiro deles me parece ser ainda aquele de pensar que antes de 31 de outubro de 1517 não havia cristianismo, igreja e evangelho no mundo. Acreditar que do capítulo final de Atos 28 até os dias de Lutero a obra de Deus permaneceu numa espécie de animação suspensa e a história da igreja não passa de uma tragédia religiosa repletas de hereges e ofensas dirigidas a Deus em forma de culto. Na verdade, a Reforma aconteceu porque esses e outros erros existiam mesmo. Mas existiam não num vácuo, mas na dinâmica da vida da igreja estabelecida que durante a sua história produziu, pela graça de Deus, homens e obras extraordinários e a Reforma apenas intentou, vinda do mesmo Deus, corrigir tais erros. Mesmo porque, os Reformadores eram homens que viviam dentro daquela igreja histórica.

2. OS REFORMADORES FORAM USADOS POR DEUS, MAS ELES NÃO INVENTARAM A RODA

O segundo perigo é o da canonização dos Reformadores. Pensar e acreditar que eram todos perfeitos, homens que viviam em virtudes extraordinárias, quase super-humanos. Atribuir a eles inerrância e infalibilidade porque chegaram a algumas posições e interpretações bíblicas ou doutrinárias, faz-nos incorrer no mesmo crime e erros daqueles que invocam a Tradição ou o magistério Papal como autoridade equivalente às Escrituras. Isso também é idolatria. Não restam dúvidas, nossos Reformadores foram usados por Deus como instrumentos para o início e a continuação e sistematização da Reforma e muitas de suas contribuições são perenes. Mas eles não inventaram a roda, talvez, no máximo a descobriram e melhoraram o seu uso.

3. O TIPO DE LITURGIA DO TEMPO DA REFORMA NÃO É O ÚNICO ACEITÁVEL POR DEUS

Um terceiro perigo é o de se desejar repetir acrítica e anacronicamente o estilo de culto, o tipo da liturgia, cantos e usos e costumes da igreja dos séculos 16, 17 e 18, como os únicos aceitáveis por Deus e os únicos capazes de dar à Igreja uma identidade cristã. É um erro pensar que devemos pregar usando de maneira absoluta os mesmos métodos e conceitos de comunicação e transmissão de conteúdos desde o púlpito ou a mesma didática da época para a catequese (o conteúdo, esse sim, perene). Também é um erro pensar numa forma única de estética para o templo e a própria ação litúrgica. Evidentemente que os elementos de culto empregados pelos reformadores são indeléveis e inegociáveis, mas não porque fossem por eles estabelecidos, mas porque são Bíblicos e se encontram presentes nos dois cânones das Escrituras e foram firmemente estabelecidos por Deus.

4. SÓ UMA VOLTA RADICAL AO PASSADO GLORIOSO DOS REFORMADORES PODE NOS SALVAR?

Uma quarta sedução à idolatria é concluir que em nossos dias não existam contribuições válidas para a igreja e que tudo se encontra tão perdido e corrompido que só uma volta radical ao passado glorioso de nossos heróis pode nos salvar. Além de pretencioso esse pensamento é ingênuo, para não dizer infantil. Os nossos dias trazem consigo não só inúmeras e inimagináveis oportunidades, como também ferramentas maravilhosas, um acúmulo de conhecimento sistematizado que os Reformadores jamais sonharam possuir. Pesquisas científicas avançadas nas áreas da história, arqueologia, línguas antigas, antropologia cultural e etc., nos fazem penetrar com muito mais profundidade as maravilhas da Bíblia. Novas Universidades, novos e equipados seminários, a enorme profusão de editoras e novos autores, teólogos e pesquisadores nos enchem de esperança quanto ao futuro da Igreja.

Mas, nenhuma idolatria é mais perigosa do que esquecer que Cristo é o Senhor e Cabeça da Igreja. Que Ele é o mais interessado em sua eterna juventude, vitalidade, pureza e fidelidade. Que Ele mesmo é quem empodera essa igreja por meio do seu Espírito, que levanta, comissiona e envia homens, pecadores e frágeis, para continuar reformado e restaurando a vida da igreja até o dia em que Ele mesmo, em pessoa, virá buscá-la e a conduzirá para um tempo em que as Reformas já não serão necessárias e nem mesmo relembradas.

• Luiz Fernando dos Santos é ministro reformado na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

A CABANA: APENAS UMA OBRA DE FICÇÃO

MARCOS SIMAS | Fui à pré-estreia do filme “A Cabana”, homônimo do livro que havia lido faz algum tempo. Logo após sair do cinema um amigo que assistiu comigo postou algo sobre o filme em tom elogioso e, de imediato, recebeu reprimendas e alertas de alguns de seus milhares de seguidores no Facebook.

Para mim não foi novidade. Quando o livro saiu, alguns anos atrás, tive que explicar para um monte de pais e mães de minha igreja do que se tratava a obra e porque havia tantos comentários na internet se opondo ao conteúdo do livro supostamente herege.

Sinceramente, ainda me impressiona quando cristãos ficam assustados com conteúdos editoriais desse tipo que são simples estórias e ao mesmo tempo se apavoram com a possibilidade de danos que podem advir de um conteúdo ficcional que fale sobre Deus, Jesus, o Espírito Santo, ou a Trindade.

Deus não precisa de defensores em alerta máximo nas redes sociais, para protegê-lo de ataques hereges que tentam de alguma forma afetar sua imagem e tudo aquilo que os seus acreditam, deixando-o com baixa popularidade. Ou mesmo que “arranhem” sua imagem e atrapalhem o processo de evangelização – se é que ainda nos preocupamos exatamente com isso hoje em dia.

Confesso que também me pergunto se as críticas ao autor da obra (não o conheço pessoalmente e nem tenho contrato ou procuração para defendê-lo) não seriam de fato o resultado de preconceitos? Afinal, o personagem que se refere a Deus é apresentado ali como mulher e negra. O Espírito Santo é uma mulher descendente de asiáticos. E Jesus é um homem comum, frágil e sensível.

O livro “A cabana” é primeiramente uma ficção e não um ensaio, tão pouco uma tese ou história de uma realidade factual. E também não é uma obra de Teologia. É simplesmente uma estória! E, de fato, é uma estória que sinaliza em alguns belos momentos a soberania e a grandeza de Deus, que se fez homem como nós, e que procura mostrar certa leveza em relação a uma Trindade que não conseguimos compreender; afinal, 1+1+1=3 ou 1+1+1=1?

O autor procura desenvolver a estória a partir de alguns elementos muito caros e provocativos ao ser humano moderno. Principalmente aos que se dizem cristãos: dor, sofrimento, maldade, injustiça, perda, pais e filhos, família, criança, um breve momento e tudo pode acontecer a qualquer um de nós. E isso nos toca e apavora a todos, já que queremos ter sempre o controle da vida e da morte em nossas mãos. Mas esses temas já eram de difícil compreensão até mesmo para os antigos personagens bíblicos, incluindo Jó, Davi e os discípulos (Jó 42; Sl 37; João 9).

O filme me fez lembrar de como não entendemos os mistérios de Deus, apesar de tentarmos e de alguns nos prometerem que isso é possível (Rm 11.33-34a). Ao mesmo tempo, me fez lembrar o alto preço que foi pago por Jesus para se tornar como nós, sendo confundido, desvalorizado e injustiçado até a morte mais vergonhosa de sua época – que grande e impressionante amor!

Não é raro perceber hoje nas igrejas cristãs heresias mais perigosas, disseminadas com a seriedade de quem produz teologia, e não ficção. É verdade que são teologias ficciosas, que tentam desviar os cristãos da verdadeira doutrina (2Tm 4.3-4). E há também péssimos testemunhos chegando a todos pela TV ou internet, com práticas e conteúdos muito mais escandalosos do que o livro “A cabana” apresenta, principalmente no que se refere a dinheiro, sexo e poder – essa trilogia do mal, que ultimamente tem envolvido os políticos e poderosos do nosso país, nos dando a sensação de profunda desesperança. E é contra isso que devemos nos posicionar! Isso é realidade e história, e não ficção e estória.

É claro que todos têm o direito de discordar da forma, do conteúdo e dos símbolos religiosos como são utilizados em “A cabana”, assim como em outras obras que tentar abarcar a temática religiosa, principalmente os personagens mais sagrados e caros para a grande maioria dos cristãos. Lembremos de “O código Da Vinci” que questionava a divindade de Jesus e, ao mesmo tempo, falava de supostos sentimentos pouco divinos, ou humanos demais, sobre Maria Madalena.

Devemos ser menos alarmistas e abandonarmos a mania de sermos os “Patrulheiros da fé”, principalmente com a internet e as mídias sociais que são hoje tamanha ferramenta para instigar a agressividade e violência entre pessoas, ainda que religiosas, ou principalmente entre elas.

• Marcos Simas é casado com Alzeli e pai de Pedro e Clara. Trabalha como editor, tendo publicado mais de 400 obras ao longo de mais de 25 anos.

SILÊNCIO: UM FILME DE MARTIN SCORCESE

ULTIMATO | O DESCONCERTANTE SILÊNCIO DE DEUS

Em 2011 estava lendo o suplemento literário do jornal O Estado de S. Paulo quando me deparei com um título que chamou minha atenção: O desconcertante silêncio de Deus. A matéria em questão era sobre o lançamento no Brasil de O silêncio, do romancista japonês Shuzako Endo (1923-1996). A resenha chamou tanto minha atenção que corri para comprar o livro. Não demorou para que eu o devorasse . O livro de Endo é um dos mais poderosos e perturbadores que já li. Shuzako Endo era um narrador extremamente habilidoso. E sua biografia o capacitou para escrever um livro tão intenso: tendo sido batizado em uma igreja cristã – católica – na infância, sofreu preconceito e perseguição de seus patrícios por ter abraçado a fé cristã. Alguns anos depois viaja para o Ocidente, para a França, para ser mais preciso, para estudar. Mas mais uma vez sofre preconceito, desta feita, étnico, por não ser branco. Estas experiências o levam a questionar a fé que abraçou. Endo depois viajou para a Palestina e o que não muitos anos depois viria a ser o atual Estado de Israel, com objetivo de estudar in loco sobre a vida terrena de Jesus. Nesta viagem teve percepção clara de como Jesus também sofreu preconceito, discriminação e rejeição. Quando retorna ao Japão, dedica-se a pesquisar documentos e relatos sobre a presença missionária jesuíta portuguesa na região de Nagasaki. O resultado é Silêncio¹, livro baseado na história das missões jesuíticas portuguesas no Japão do século XVII. Uma história dramática, de sofrimento intenso, de muitos martírios, torturas indescritivelmente dolorosas, física e emocionalmente, uma perseguição implacável aos kirishitan (como os japoneses pronunciavam a palavra “cristão”), intolerância religiosa (tema que está na moda hoje) elevada à última potência, com objetivo explícito de erradicar qualquer traço de presença ou influência cristã no país.

O silêncio (Chimnoku, em japonês) do título do livro, é o silêncio de Deus². O livro, portanto, trata de um dos temas mais difíceis da teologia cristã em todos os tempos. Pois na Bíblia, Deus é apresentado como aquele que fala, e algo acontece: “Haja luz – e houve luz” (Gn 1.3 s). “Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o Senhor Deus, quem não profetizará?” (Am 3.8). Mas, e quando este Deus que fala, se cala? E quando Deus não fala? Este é o dilema terrível trabalhado com maestria rara na obra de Endo. O prefácio do livro é escrito pelo próprio diretor, o respeitado e consagrado cineasta ítalo-americano Martin Scorcese, que assina clássicos como “Taxi Driver” (1976), “Touro Indomável” (1980), “A cor do dinheiro” (1986), e também de filmes que tratam de temáticas religiosas, como “A última tentação de Cristo” (1988) e “Kundun” (1997, este tratando do budismo tibetano). Fiquei curiosíssimo na época quando, neste prefácio, Scorcese anuncia que estava trabalhando na adaptação do livro de Endo para o cinema.

EM FILME, “SILÊNCIO” FOI ESNOBADO E DESPREZADO PELA ACADEMIA

Eis que finalmente, no início de 2017, o filme de Scorsese chegou às telas de todo o mundo. Filme longo, cerca de três horas de duração. Tremendamente bem conduzido, com atuações memoráveis: Andrew Garfield, que aos poucos se firma como o ator mais competente de sua geração, como o Padre Sebastião Rodrigues, e o já veterano Liam Neeson, como o Padre Cristóvão Ferreira, estão simplesmente magníficos em seus respectivos papeis. Neeson consegue expressar todos os seus sentimentos apenas com seu olhar, com a maneira como franze a testa, como abaixa o levanta os olhos enquanto conversa. Tristeza, revolta, acomodação, tudo está em seu olhar.

Inexplicavelmente o filme foi esnobado e desprezado pela Academia de Hollywood, pois recebeu apenas uma mísera indicação para o Oscar, e em uma categoria técnica: Melhor Fotografia, que por fim, não ganhou. Scorsese é um diretor experiente, trabalhou anos e anos neste filme, e não recebeu reconhecimento deste seu trabalho primoroso, nem da parte da muitas vezes incompreensível Academia, e nem da parte do grande público. Lamentável.

AS TORTURAS TERRÍVEIS SOFRIDAS PELOS CRISTÃOS CAMPONESES POBRES

O livro que inspira o filme é muito denso. É muito difícil, virtualmente impossível, passar para o cinema o turbilhão de emoções e sentimentos contraditórios que invadem a mente e o coração do jovem Padre Sebastião Rodrigues diante do cenário que encontra no Japão: em pouco tempo a missão jesuítica naquele país obtivera razoável sucesso. Há muitos convertidos entre os camponeses pobres. Mas o xogunato da época não tinha o menor interesse na presença de religiões vindas da Europa no Japão. Com objetivo declarado de eliminar todo e qualquer sinal da presença cristã no país, os xoguns usam torturas horríveis, que com o tempo se mostram capazes de esmagar o corpo e a mente do crente mais resistente. Logo chegam a Portugal rumores que o Padre Ferreira, a lenda dos jesuítas, haveria apostatado. Não se sabe se a notícia procede ou não. Dois padres jovens, o mencionado Rodrigues e seu colega Francisco Garpe (chamado de Garupe na legendagem brasileira), voluntariam-se para ir ao Japão e descobrir a veracidade ou não daqueles boatos. Já no Japão, são ajudados por Kichigiro, um japonês convertido ao cristianismo, mas que logo se revela pouco – ou nada – confiável.

O horror com que os padres Rodrigues e Garpe se deparam é indescritível. Eles logo se dão conta que no vocabulário vivencial dos xoguns não existem palavras como compaixão, misericórdia e perdão. Aldeias inteiras são massacradas. Os convertidos têm que esconder sua fé, e vivem constantemente com medo, desconfiam de tudo e de todos. Diante das autoridades, os criptocristãos se passavam por budistas, mas às ocultas, celebravam os ritos cristãos como podiam. Eles temiam particularmente a presença em suas aldeias de um destacamento de soldados armados enviados pelo xogum que obrigasse a todos os aldeões a um teste, para descobrir se eram ou não cristãos: todos eram organizados em uma fila e, um por um, teriam que pisar no que é chamado de “fumiê” – uma placa pequena com uma representação de Jesus crucificado. Quem não pisasse seria imediatamente identificado como cristão, e seria executado da maneira mais cruel, lenta e dolorosa possível. Quem pisasse, teria sua vida preservada, mas viveria o resto de seus dias com peso na consciência por não ter tido coragem de afirmar sua fé.

A presença dos padres lhes acende uma chama de esperança. Mas Rodrigues, em quem se concentra o foco narrativo do filme, começa a ter dúvidas atrozes: por que tanto sofrimento? Por que Deus permite tudo aquilo? Por que Deus não intervém? Por que o silêncio divino? Qual o sentido em tudo aquilo?

DE QUE VALE UMA FÉ QUE SÓ TRAZ SOFRIMENTO, PERSEGUIÇÃO E MORTE?

Por fim, o mistério é esclarecido: o Padre Ferreira havia mesmo renegado a fé – mas o fizera para salvar uma família de aldeões. O preço para salvar a vida daqueles camponeses pobres fora sua demonstração pública de apostasia. Aí está a malignidade genial de Inoue, o magistrado japonês responsável por erradicar do Japão por completo a presença cristã. Em um diálogo com o Padre Rodrigues, Inoue conta-lhe uma parábola: um rico senhor japonês tinha quatro concubinas em seu palácio, que viviam brigando entre si. Um dia expulsou as quatro, e passou a viver em paz. Rodrigues, inocentemente, responde que o homem tinha sido sábio em expulsar as quatro mulheres. Inoue então lhe explica que o rico senhor japonês era o próprio Japão, e as quatro concubinas, as nações européias católicas Portugal e Espanha, e as protestantes Inglaterra e Holanda. Logo, a motivação primeira de Inoue é nacionalista: ele quer um Japão livre da presença de credos estrangeiros. Em uma das sequências mais fortes do filme, Inoue pergunta a Rodrigues se este achava justo perturbar o povo japonês com uma fé que só lhes traria sofrimento, perseguição e morte. Com espanto, Rodrigues se dá conta que o inquisidor Inoue tem uma visão do cristianismo muito maior que ele jamais suspeitara.

Rodrigues não tem resposta para as perguntas de Inoue. O jovem missionário, idealista e romântico em sua visão da vida, é colocado frente ao mesmo dilema que, não muitos anos antes, Ferreira tivera de enfrentar. E sua decisão é a mesma de seu mentor: ele renuncia a fé cristão para salvar a vida de aldeões pobres.

Padre Rodrigues tem de enfrentar as traições e pedidos de perdão de Kichigiro. E descobre que, não raro, ele age em relação com Deus como o detestável e inconstante guia japonês. Rodrigues se dá conta que não é de modo algum melhor que Kichigiro. Na verdade, todos somos Kichigiro.

NOTAS:
1. A primeira edição do livro traz o artigo definido masculino singular – O silêncio. Já a segunda edição traz simplesmente Silêncio, sem o artigo. Observe-se que o artigo também é inexistente na versão inglesa – Silence. A eliminação do artigo é fiel ao original japonês.
2. Para uma abordagem do silêncio de Deus em perspectiva da teologia bíblica, consultar, José Baez, Silvio. Quando tudo se cala. O silêncio na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2011, p. 117-166.
3. Para detalhes, consultar, entre outros, Philip Jenkins. A próxima Cristandade. A chegada do cristianismo global. São Paulo: Record, 2004.

• Carlos Caldas é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo e professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas.

EXISTEM DOIS TIPOS DE PESSOAS: AS QUE AGRADECEM E AS INGRATAS

ULTIMATO | O mundo das lutas, problemas e privações é habitado por dois tipos de pessoas: aquelas que glorificam a Deus, e lhe dão graças e aquelas que, nas mesmas circunstâncias, não o fazem. As primeiras são apontadas pelo apóstolo Paulo como bem-aventuradas; as segundas como loucas. A ingratidão, segundo ele, é causa de soberba e degradação. Achando-se sábios, tornam-se loucos.

Considero esse entendimento do apóstolo intrigante. Ele apresenta a gratidão como um divisor de águas. Ou melhor, como um divisor de almas. Na sequência de seu pensamento, o quadro é triste: embrutecimento e declínio moral são o caminho daqueles que “nem lhe deram graças” (Rm 1: 21).

Ao tentar compreender a razão por que a gratidão ocupa posição tão destacada no pensamento do apóstolo, dou-me conta de que estou às voltas com um mistério. Considero-a integrante de uma trindade fundamental da alma humana, formada pela fé, pela contrição e pela gratidão.

A gratidão me parece ser uma capacidade, ou disposição do coração, que funciona como célula-tronco espiritual. É capaz de se transformar em qualquer tipo de “tecido da alma”. Além disso, é atitude esperada por Deus entre aqueles que o buscam. Ela não pode, no entanto, ser comprada no mercado. Então, de onde vem? Como desenvolvê-la? Tenho aprendido que é dádiva do próprio Deus; e que se desenvolve pela prática, pelo seu exercício.

Consciente de que estou examinando um mistério, tento compreender esse coração que dá graças mesmo em meio às vicissitudes; essa alma cujo culto é permeado de comunhão, cânticos e ações de graças; esse coração que, na alegria e na dor, adora seu Criador. De fato, este último gesto pressupõe a gratidão. Pois ela não floresce em um coração ressentido, como o de Jonas.

Ora, temos aprendido que “sem fé é impossível agradar a Deus”; também ouvimos do salmista que é de um coração contrito que Deus se agrada. E também, que o mundo está dividido entre aqueles que mantêm e os que não mantêm o coração grato. Mas, tendo chegado a este ponto, é razoável indagar: como? Onde haveremos de encontrar, dentro de nós, a fé, a contrição e a gratidão que tanto agradam a Deus?

Eu ousaria sugerir que tais células-tronco da alma já estão lá. Foram depositadas em nossas vidas pelo próprio Criador. Entretanto, como são capacidades, ferramentas, aguardam seu uso adequado. São chaves que abrem determinadas portas. São tesouras que cortam de modo peculiar; são martelos que batem em pregos; são palavras inefáveis a serem ditas; são linguagem apropriada para expressar segredos íntimos, e revelá-los até mesmo a quem dessa linguagem se utiliza.

Estão lá no fundo, dizíamos; são dons do Criador; e seu uso é esperado por ele, do mesmo modo que o lavrador espera o germinar da semente que plantou.

Assim como nos tornamos hábeis no uso de nossas ferramentas de trabalho, devemos praticar o uso da “ferramenta gratidão”. Sem que a utilizemos, ela ficará inerte, dentro de nós, e nada de bom produzirá. Uma tesoura não corta sozinha. Mas tendo sido reconhecida, mediante a exortação da Palavra de Deus, poderá ser utilizada com destreza e grande proveito.

E como é esse misterioso instrumento da alma, que chamamos de gratidão? Penso que se trata de uma linguagem. Uma capacidade de expressar emoções e afetos. Ele pode se manifestar na forma de cântico, de poesia, de gesto de carinho, de sorriso ou mesmo de um simples olhar. Não importa; o que vale é o que está “dizendo”. E normalmente “diz” que algo lá dentro percebeu o bem recebido e se alegrou e deseja que o benfeitor saiba disso.

O coração sabe que esse bem, essa alegria, esse agrado não foi produzido por ele mesmo. Não, veio de fora; veio sem preço, veio de graça — não raramente inesperada. E o exercício a que nos referíamos consiste em identificar o benfeitor e “dizer” isso de volta. A esse “dizer” eu chamaria de agradecimento ou ação de graças. Estamos expressando gratidão. Estamos exteriorizando essa alegria interna, esse bem-querer, esse desejo de retribuição — muitas vezes impossível de realizar, considerando a dimensão da dádiva recebida. Sentimos e dizemos que tal gesto criou em nós uma obrigação de retribuição impossível. Dizemos, então, que estamos muito obrigados.

O que me encanta nisso tudo é que o trabalho constante das células-tronco faz crescer em nós as células da alegria, do contentamento, do afeto, da amabilidade e tantas outras. Em particular, torna-nos generosos. Porque a gratidão é célula-tronco do altruísmo.

A CURA COMO FORÇA PARA VIVER COM NOSSAS DORES E LIMITES

DR. RONALDO SATHER-ROSA

A CURA É UM PROCESSO

Desenvolve-se ao longo da evolução da personalidade. Ao curar-se um sintoma ou um aspecto doentio do individuo, em determinada etapa de seu desenvolvimento psicológico, físico e relacional é claro que não se elimina a possibilidade de surgirem outros focos de enfermidade com sintomas diferentes numa mesma época ou em tempos diferentes.

Também pode ocorrer que a causa dos sintomas não tenha sido eliminada ou que não tenha ocorrido a “CURA DA ALMA”. Pois, como observa Erich Fromm (1966, p. 79), “… a palavra ‘cura’, não tem o sentido simples de tratamento sintomático, que o uso atual comumente lhe confere, mas é empregada no significado mais lato de tratamento da personalidade”.

Além disto, a cura é expressão de aperfeiçoamento constante do ser visando à plenitude da vida no individuo e em seus relacionamentos com o Criador, com o próximo, com a natureza e consigo mesmo.

O ser humano está sempre sujeito às transformações que ocorrem no seu organismo nas múltiplas interações com o meio-ambiente em que vive. Portanto, o cuidado consigo é tarefa para toda a vida. O descuido pode provocar a volta da doença ou o surgimento de nova enfermidade.

Daí o valor das “COMUNIDADES DE FÉ E SOLIDARIEDADE” como espaço preventivo de cuidado pastoral pelo bem-estar, não apenas momentâneo, das pessoas na permanente busca da vida completa.

A CURA NÃO NECESSARIAMENTE SIGNIFICA A ELIMINAÇÃO DA DOENÇA

A cura pode ser o ganho de uma atitude nova, ou de outra perspectiva sobre determinada condição.

Paulo, o Apóstolo, testemunha que “para que eu não ficasse orgulhoso demais por causa das coisas maravilhosas que vi, foi-me dada uma doença dolorosa, como se fosse um espinho na carne (…) três vezes orei ao Senhor e lhe pedi que tirasse isso de mim. Então ele me respondeu: ‘A MINHA GRAÇA É O SUFICIENTE para você (…)’” (II Coríntios 12.7-9). A cura se deu não pela eliminação do “espinho” e sim pela concessão da Graça.

Portanto, nem sempre há correspondência entre o desejo da pessoa que busca a cura e a “resposta” a esse anseio. Isso não significa necessariamente incredulidade ou maldição: a “resposta” pode ser melhor do que a aspiração pessoal.

Dorothee Sölle (1996) lembra que as sociedades contemporâneas perderam a capacidade de suportar o sofrimento inerente à existência humana e de enriquecer-se, através dele, em termos de humanização, humildade e sabedoria.

Leonardo Boff (2001, 145) menciona expressão de médico alemão: “Saúde não é a ausência de danos. Saúde é a força de viver com esses danos”.

Porém, especialmente no Brasil, é fundamental combater o sofrimento desnecessário, como aqueles causados por injustiças sociais e por violências.

(Texto revisado e adaptado de meu artigo publicado originalmente em Tempo e Presença, 19, 294, p. 16-18).

AS QUALIFICAÇÕES E RESPONSABILIDADES BÍBLICAS DOS DIÁCONOS

MINISTÉRIO FIEL | Quem deveria ser um diácono? O que a Bíblia diz que os diáconos devem fazer?

OS DOIS OFÍCIOS BÍBLICOS: PRESBÍTEROS E DIÁCONOS

Comparar o ofício de diácono ao de presbítero nos ajudará a responder essas questões. Os líderes espirituais primários de uma congregação são os presbíteros, os quais são também chamados bispos ou pastores no Novo Testamento. Presbíteros ensinam ou pregam a Palavra e pastoreiam as almas daqueles que estão sob seus cuidados (Ef 4.11; 1Tm 3.2; 5.17; Tt 1.9; Hb 13.17). Os diáconos também possuem uma função crucial na vida e saúde da igreja local, mas a sua função é diferente daquela dos presbíteros. O papel bíblico dos diáconos é cuidar das necessidades físicas e logísticas da igreja, de modo que os presbíteros possam se concentrar no seu chamado primário.

Essa distinção é baseada no padrão encontrado em Atos 6.1-6. Os apóstolos eram devotados “à oração e ao ministério da palavra” (v. 4). Uma vez que esse era o seu chamado primário, sete homens foram escolhidos para lidar com assuntos mais práticos, de modo a dar aos apóstolos a liberdade para continuarem a sua obra.

Essa divisão de trabalho é semelhante à que vemos com os ofícios de presbítero e diácono. Como os apóstolos, a função primária dos presbíteros é pregar a Palavra de Deus. Como os sete, os diáconos servem a congregação em todas as necessidades práticas que possam surgir.

AS QUALIFICAÇÕES DOS DIÁCONOS

A única passagem que menciona as qualificações para os diáconos é 1Timóteo 3.8-13. Nessa passagem, Paulo apresenta uma lista oficial, porém não exaustiva, dos requerimentos para os diáconos.

As similaridades entre as qualificações para diáconos e presbíteros/bispos em 1Timóteo 3 são notáveis. Assim como as qualificações para os presbíteros, um diácono não pode ser dado ao vinho (v. 3), avarento (v. 3), irrepreensível (v. 2; Tt 1.6), marido de uma só mulher (v. 2), e um hábil governante de seus filhos e de sua casa (vv. 4-5). Além disso, o foco das qualificações é o caráter moral da pessoa que há de preencher o ofício: um diácono deve ser maduro e acima de reprovação. A principal diferença entre um presbítero e um diácono é uma diferença de dons e chamado, não de caráter.

PAULO IDENTIFICA NOVE QUALIFICAÇÕES PARA OS DIÁCONOS EM 1 TM 3.8-12:

– Respeitáveis (v. 8): Esse termo normalmente se refere a algo que é honorável, digno, estimado, nobre, e está diretamente relacionado a “irrepreensível”, que é dado como uma qualificação para os presbíteros (1 Tm 3.2).
– De uma só palavra (v. 8): Aqueles que têm a língua dobre dizem uma coisa a certas pessoas, mas depois dizem algo diferente a outras, ou dizem uma coisa, mas querem dizer outra. Eles têm duas faces e são insinceros. As suas palavras não podem ser confiadas, então eles carecem de credibilidade.
– Não inclinados a muito vinho (v. 8): Um homem é desqualificado para o ofício de diácono se for viciado em vinho ou outra bebida forte. Tal pessoa carece de domínio próprio e é indisciplinada.
– Não cobiçosos de sórdida ganância (v. 8): Se uma pessoa ama o dinheiro, não está qualificado para ser um diácono, especialmente porque os diáconos com freqüência lidam com questões financeiras da igreja.
– Sólidos na fé e na vida (v. 9): Paulo também indica que um diácono deve “conservar o mistério da fé com a consciência limpa”. A expressão “o mistério da fé” é simplesmente um modo de Paulo falar do evangelho (cf. 1Tm 3.16). Conseqüentemente, essa afirmação se refere à necessidade de os diáconos manterem-se firmes no verdadeiro evangelho, e não oscilantes. Contudo, essa qualificação não envolve apenas as crenças de alguém, pois o diácono também deve manter essas crenças “com a consciência limpa”. Isto é, o comportamento de um diácono deve ser consistente com suas crenças.
– Irrepreensíveis (v. 10): Paulo escreve que os diáconos devem ser “primeiramente experimentados; e, se se mostrarem irrepreensíveis, exerçam o diaconato” (v. 10). “Irrepreensíveis” é um termo genérico, que se refere ao caráter geral de uma pessoa. Embora Paulo não especifique que tipo de teste deve ser feito, no mínimo, deve-se examinar a vida pessoal, a reputação e as posições teológicas do candidato. Mais do que isso, a congregação não deveria examinar apenas a maturidade moral, espiritual e doutrinária do diácono em potencial, mas deveria também considerar o histórico de serviço da pessoa na igreja.
– Esposa piedosa (v. 11): É discutível se o versículo 11 se refere à esposa do diácono ou a uma diaconisa. No que interessa a esta discussão, vamos assumir que o versículo esteja falando das qualificações da esposa de um diácono. De acordo com Paulo, as esposas dos diáconos devem ser “respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo” (v. 11). Como o seu marido, a esposa deve ser respeitável ou honorável. Em segundo lugar, ela não deve ser maldizente, uma pessoa que espalha fofocas. A esposa de um diácono deve também ser temperante ou sóbria. Isso é, ela deve ser apta a fazer bons julgamentos e não deve estar envolvidas em coisas que possam embaraçar tal julgamento. Por fim, ela deve ser “fiel em todas as coisas” (cf. 1Tm 5.10). Esse é um requerimento genérico que funciona semelhantemente ao requerimento para que os presbíteros e diáconos sejam “irrepreensíveis” (1Tm 3.2; Tt 1.6; 1Tm 3.10).
– Marido de uma só mulher (v. 12): A melhor interpretação dessa passagem difícil consiste em entendê-la como a fidelidade do marido para com sua esposa. Ele deve ser “um homem de uma única mulher”. Isso é, não deve haver qualquer outra mulher em sua vida com a qual ele se relacione em intimidade, seja emocionalmente, seja fisicamente.
– Governe bem seus filhos e a própria casa (v. 12): Um diácono deve ser o líder espiritual de sua esposa e filhos.
De modo geral, se uma qualificação moral é listada para presbíteros, mas não para diáconos, aquela qualificação ainda se aplica a estes. O mesmo ocorre para aquelas qualificações listadas para diáconos, mas não para presbíteros. Por exemplo, um diácono deve ser um homem de “uma só palavra” (v. 8). Paulo não afirma explicitamente o mesmo acerca dos presbíteros, mas não há dúvida de que tal se aplica a eles, uma vez que Paulo disse que os presbíteros devem ser “irrepreensíveis”, o que incluiria essa injunção.

Ainda assim, nós deveríamos observar as diferenças nas qualificações, uma vez que ou elas significam um traço peculiarmente adequado ao oficial para que cumpra seus deveres, ou são algo que era problemático no lugar para onde Paulo escreveu (no caso, Éfeso). Isso deve ficar mais claro à medida que passemos a considerar as responsabilidades de um diácono.

AS RESPONSABILIDADES DOS DIÁCONOS

Se o ofício de presbítero é freqüentemente ignorado na igreja moderna, o ofício de diácono é freqüentemente mal-entendido. Conforme o Novo Testamento, a função do diácono é, principalmente, ser um servo. A igreja precisa de diáconos para proverem suporte logístico e material, de modo que os presbíteros possam focar na Palavra de Deus e na oração.

O Novo Testamento não nos dá muita informação acerca do papel dos diáconos. Os requerimentos dados em 1Timóteo 3.8-12 focam no caráter e na vida familiar do diácono. Existem, contudo, algumas dicas quanto à função dos diáconos quando os requerimentos são comparados àqueles dos presbíteros. Embora muitas das qualificações sejam as mesmas ou muito similares, há algumas notáveis diferenças.

Talvez a distinção mais perceptível entre presbíteros e diáconos seja que os diáconos não precisam ser “aptos a ensinar” (1Tm 3.2). Diáconos são chamados a “conservar” a fé com uma consciência limpa, mas não são chamados a “ensinar” aquela fé (1Tm 3.9). Isso sugere que os diáconos não têm um papel de ensino oficial na igreja.

Como os presbíteros, os diáconos devem governar bem sua casa e seus filhos (1Tm 3.4, 12). Porém, ao referir-se aos diáconos, Paulo omite a seção na qual compara governar a própria casa a cuidar da igreja de Deus (1Tm 3.5). O motivo dessa omissão é, mais provavelmente, devido ao fato de que aos diáconos não é dada uma posição de liderança ou governo na igreja – essa função pertence aos presbíteros.

Embora Paulo indique que um indivíduo deva ser testado antes de poder exercer o ofício de diácono (1Tm 3.10), o requerimento de que ele não seja um neófito não está incluso. Paulo observa que, se um diácono for um recém convertido, pode ocorrer que ele “se ensorbebeça e incorra na condenação do diabo” (1Tm 3.6). Uma implicação dessa diferença poderia ser que aqueles que exercem o ofício de presbítero são mais suscetíveis ao orgulho porque possuem liderança sobre a igreja. Ao contrário, não é tão provável que um diácono, o qual se acha mais em um papel de servo, caia no mesmo pecado. Finalmente, o título de “bispo” (1Tm 3.2) implica a supervisão geral do bem-estar espiritual da congregação, ao passo que o título “diácono” implica alguém que possui um ministério orientado para o serviço.

Além do que podemos vislumbrar dessas diferenças nas qualificações, a Bíblia não indica claramente a função dos diáconos. Contudo, baseado no padrão estabelecido em Atos 6, com os apóstolos e os Sete, parece melhor enxergar os diáconos como servos que fazem o que for necessário para permitir que os presbíteros cumpram o seu chamado divino de pastorear e ensinar a igreja. Assim como os apóstolos delegaram responsabilidades administrativas aos Sete, também os presbíteros devem delegar certas responsabilidades aos diáconos, de modo que os presbíteros possam focar os seus esforços em outras atividades. Como resultado, cada igreja local é livre para definir as tarefas dos diáconos conforme as suas necessidades particulares.

Quais são alguns deveres pelos quais os diáconos devem ser responsáveis hoje? Eles poderiam ser responsáveis por qualquer coisa que não seja relacionada ao ensino e ao pastoreio da igreja. Tais deveres poderiam incluir:
– Instalações: Os diáconos poderiam ser responsáveis por administrar a propriedade da igreja. Isso incluiria assegurar que o lugar de culto esteja preparado para a reunião de adoração, limpá-lo, ou administrar o sistema de som.
– Benevolência: Semelhante ao que ocorreu em Atos 6.1-6 com a distribuição diária em favor das viúvas, os diáconos podem estar envolvidos em administrar fundos ou outras formas de assistência aos necessitados.
– Finanças: Enquanto os presbíteros deveriam, provavelmente, supervisionar as questões financeiras da igreja (At 11.30), pode-se deixar apropriadamente que os diáconos lidem com as questões cotidianas. Isso incluiria coletar e contar as ofertas, manter registros, e assim por diante.
– Introduções: Os diáconos poderiam ser responsáveis por distribuir boletins, acomodar a congregação nos assentos ou preparar os elementos para a comunhão.
– Logística: Os diáconos deveriam estar prontos a ajudar em uma variedade de modos, de modo que os presbíteros possam se concentrar no ensino e no pastoreio da igreja.

CONCLUSÃO

Ao passo que a Bíblia encarrega os presbíteros das tarefas de ensinar e liderar a igreja, o papel dos diáconos é mais orientado ao serviço. Isso é, eles devem cuidar das preocupações físicas ou temporais da igreja. Ao lidarem com tais questões, os diáconos liberam os presbíteros para que foquem no pastoreio das necessidades espirituais da congregação.

Contudo, embora os diáconos não sejam os líderes espirituais da congregação, o seu caráter é da maior importância, motivo pelo qual deveriam ser examinados e apresentar as qualificações bíblicas arroladas em 1 Timóteo 3.

10 COISAS QUE OS JOVENS EM UM RELACIONAMENTO SÉRIO DEVEM SABER

MINISTÉRIO FIEL | 1. O seu desejo de fazer sexo com a pessoa amada não é ruim. Seria um problema diferente para nos preocuparmos caso você não desejasse. A chave é que o desejo de glorificar a Cristo deve ser maior do que o desejo de fazer sexo com quem você ama.

2. A chave para que o desejo de glorificar a Cristo seja maior do que o desejo de fazer sexo é que essa decisão deve ser tomada repetidamente.

3. As pessoas que estão em um relacionamento sério demonstram seu melhor comportamento. Portanto, seja qual for esse comportamento agora, pode-se esperar que, com o tempo, vai “piorar”. Conforme a intimidade aumenta, as pessoas tendem a baixar a guarda. O casamento não resolve um mau comportamento, mas sim, dá a ele mais liberdade para aparecer. Garotas, se o seu namorado é controlador, desconfiado, manipulador ou te menospreza, ele ficará pior e não melhor, à medida que durar o seu relacionamento. Quaisquer que sejam as desculpas que você inventar ou as coisas que você relevar agora, ficará cada vez mais evidente e difícil de ignorar à medida que durar o seu relacionamento. Você não conseguirá consertá-lo, e o casamento não vai endireitá-lo.

4. Quase todos os cristãos que conheço os quais se casaram com um não cristão declaram seu amor pelo seu cônjuge e não se arrependem de terem se casado; no entanto, eles têm vivenciado uma dor profunda e um descontentamento com seu casamento por causa desse jugo desigual e, hoje, não aconselhariam um cristão a se casar com alguém que não seja cristão.

5. Considerar que você é especial e diferente, e que as experiências dos outros não refletem a sua, é uma visão pequena, insensata e arrogante. As pessoas que te amam e te avisam/aconselham sobre seu relacionamentotalvez sejam ignorantes. De fato, existem pessoas assim. Mas há uma probabilidade bem maior de que seus pais, seus pastores, seus amigos casados há mais tempo sejam mais sábios do que você pensa.

6. Morar juntos antes do casamento é um fator que pode matar seu casamento.

7. O sexo antes do casamento não incentiva o rapaz a crescer, ter responsabilidade e a liderar sua casa e família.

8. O sexo antes do casamento fere o coração de uma garota, talvez imperceptivelmente no início, mas sem dúvidas com o passar do tempo, conforme ela troca os benefícios de uma aliança, mas sem a segurança da mesma. Não foi assim que Deus planejou que o sexo nos trouxesse satisfação. Nunca entregue o seu corpo para um homem que não tenha prometido a Deus total fidelidade a você dentro da aliança de casamento, isso implica em prestar contas a uma igreja local. Resumindo, não entregue seu coração a um homem que não presta contas a alguém que dê a ele uma disciplina piedosa.

9. Todos os seus relacionamentos, inclusive seu relacionamento de namoro, têm o propósito maior de trazer glória a Jesus do que proporcionar a você uma satisfação pessoal. Quando a prioridade máxima em nossos relacionamentos é a satisfação pessoal, ironicamente, acabamos nos sentindo totalmente insatisfeitos.

10. Você é amado por Deus com uma graça abundante através da obra redentora de Cristo. E esse amor que nos envolve pela fé em Jesus nos dá poder e satisfação do Espírito Santo para buscar relacionamentos que honrem a Deus e, através deles, aumentem a nossa alegria.

Tradução: Isabela Siqueira

A DEPRESSÃO NOS PASTORES

ABSTRAÇÕES DE UM PASTOR | Aquele que cuida também precisa ser cuidado

Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti ó Deus, suspire a minha alma”. – Salmo 42.1

Pesquisas recentes vêm demonstrando que, entre as classes profissionais mais sujeitas ao estresse provocado por suas atividades, uma das que encabeçam a lista dos que mais sofrem é a dos pastores, mesmo considerando que estes não são propriamente “profissionais”, e sim vocacionados a prestar um serviço santo à Igreja de nosso Senhor. Perdem apenas para a classe dos professores e profissionais da saúde (enfermeiros, médicos e atendentes – principalmente os da rede pública).

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) [1], a depressão atinge 121 milhões de pessoas ao redor do mundo e está entre as principais causas que contribuem para incapacitar um indivíduo. A OMS prevê que até o ano de 2020 a depressão passe a ser a segunda maior causa de incapacidade e perda de qualidade de vida.

O Dr. Pérsio Ribeiro Gomes de Deus, cristão, pianista, é Médico Psiquiatra e Docente da EST – Mackenzie (DEUS, 2010), e relata que “em nossa prática clínica como psiquiatra, temos atendido um número expressivo de pastores com quadros depressivos, como observado por outros autores (KOENIG, 2001; MOREIRA-ALMEIDA et al., 2006)”.

Mais alarmante ainda é a sua constatação ao citar que “Lotufo Neto (1977, p. 251) encontrou maior incidência de doenças mentais entre ministros protestantes se comparados à população geral, e os transtornos depressivos responderam por 16,4% das doenças mentais encontradas nos ministros protestantes”.

O Dr. Pérsio de Deus, co-autor do excelente livro “Eclipse da Alma” (GOMES; PAZINATO, MALTA; DEUS – 2010), escreveu artigo[2] sobre essa temática de “pastores e a depressão”, encontrado no site da Universidade Mackenzie:

Os dados de nossa pesquisa (DEUS, 2008) confirmam os achados desses outros pesquisadores. Dentre os 50 prontuários de pacientes cristãos portadores de depressão atendidos na referida pesquisa num período de seis meses, 13 pertenciam a pastores, representando 26% dos pacientes atendidos. Acreditamos que as respostas desses pacientes merecem uma atenção particular.

Dos 13 pastores, nove são presbiterianos, três são batistas, e um é da Assembleia de Deus. Essa porcentagem precisa ser considerada de forma cuidadosa, pois não espelha a incidência real de doença depressiva entre religiosos ou entre pastores. A explicação desse desvio ou artificialidade porcentual pode se dever ao fato de que há poucos psiquiatras cristãos em nosso meio, e essa pesquisa foi realizada por um psiquiatra cristão e presbiteriano.

Esclarecemos ainda que, em razão do tamanho reduzido da amostra, os resultados não permitem generalização, pois não refletem a porcentagem de religiosos protestantes em nosso país, devendo, portanto, ser compreendida como estudo de caso.

Indagados quanto ao seu conhecimento sobre a doença depressiva, obtinham-se informações de que o estado de doença por eles apresentada correspondia à doença depressiva, e somente três deles tinham informações a respeito.

Quanto às causas para seu adoecimento, dos nove pastores presbiterianos, cinco relacionaram sua doença ao estresse do exercício da vida pastoral, dois a problemas de relacionamento conjugal, e dois não sabiam a causa. Dos três pastores batistas, dois relacionaram as causas ao pecado e à falta de fé, e um não sabia a causa. O pastor assembleiano relacionou sua depressão à ação do demônio.

Um dado revelador e preocupante é que, dentre os pastores, dos nove presbiterianos, cinco referiram como causa da depressão o estresse ligado à atividade pastoral. As explicações desse estresse pastoral foram relacionadas aos seguintes fatores:

• problemas com instâncias da Igreja (compreendida como organização) por presbitérios e sínodos: falta de compreensão e apoio das referidas instâncias;
• problemas de relacionamento com as igrejas locais;
• uma queixa comum a todos foi a existência de problemas financeiros advindos da baixa remuneração profissional;
• problemas conjugais também foram significativos: três dos nove pastores presbiterianos não sabem a causa;
• mudanças constantes de campos de trabalho.

Aí cabem várias interrogações…

Por que aqueles que levam a Palavra da Cura estão doentes?
Pastores também precisam de cuidados pastorais?
Precisam cuidar de sua saúde com profissionais da saúde?
Por que o medo de consultar psiquiatras e psicólogos?

O pastor, líder carismático, ungido, investido da imagem do “homem de Deus” na comunidade, tem que estar sempre pronto e disponível para as atividades pastorais. Essa pronta disponibilidade atrelada à falta de um horário determinado para as atividades pastorais é apontada (UNISINOS, 2008) como uma das causas predisponentes a doenças (DEUS, 2010).

A agenda de um Ministro do Evangelho revela, às vezes no mesmo dia, uma montanha russa de emoções contraditórias. “… sepultamento pela manhã, reunião de liderança à tarde, casamento em final de tarde e culto à noite; ou seja, a vivência, num mesmo dia, da dor e do luto, o exercício da lógica e a preocupação, a celebração de momento de alegria, prédica e exortação; e atreladas a essas atividades, todas as emoções sentidas, expressas e contidas pelo veículo sagrado” (DEUS, 2010).

“Aquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém” – Judas 1.24-25.

____________________
[1] fonte: < http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/perguntas_respostas/depressao/sintomas-diagnostico-tratamento-doenca.shtml >, in 13/03/2012.
[2] DEUS, Pérsio Ribeiro Gomes de, Um estudo da depressão em pastores protestantes , Mackenzie Fonte , in 13/03/2012; p. 189-202

O SUICÍDIO E O PAPEL PREVENTIVO DA IGREJA

ULTIMATO | O suicídio é uma questão importante de saúde pública. Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, que tem como objetivo alertar a população a respeito da realidade do problema no Brasil e no mundo, e discutir as formas de prevenção. A prevenção precisa começar nas famílias, nas escolas e também nas comunidades, como as igrejas.

TAMANHO DO PROBLEMA

Segundo relatórios da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de Programas de Saúde Mental, cerca de 1 milhão de pessoas cometem suicídio por ano. Nas estatísticas de tentativas (suicídios não concretizados) este número sobe para entre 15 a 25 milhões por ano. Para cada pessoa que comete suicídio, cerca de seis a dez pessoas próximas sofrerão de adoecimento emocional decorrente desta situação. Atualmente é a segunda maior causa de morte entre jovens (15-29 anos), um alto índice também em idosos e grupos populacionais que incluem pessoas que foram vítimas de violência. Apesar de sua maior incidência ser em países de baixa renda e desigualdade social, vem apresentando crescimento em países desenvolvidos com o aumento de quadros depressivos e abuso de álcool/drogas. O Brasil é hoje o oitavo país do mundo em número de suicídios.

TABU DENTRO E FORA DA IGREJA

O tema da morte é historicamente um tabu ao ser abordado e em muitas culturas é evitado a todo custo. Mas o custo do silêncio é alto. O tema da “morte voluntária”, como no caso do suicídio, encontra ainda mais estigma e dificuldade de abordagem, por ser muitas vezes atribuído desordenadamente à temática da loucura, ou em círculos religiosos, ao pecado.

Se o tema do suicídio é tabu em muitos ambientes e culturas, imagine em comunidades cristãs! Muitas comunidades cultivam um discurso triunfalista que busca afastar qualquer vestígio de sofrimento e fragilidade, discurso que não condiz com o que realmente vivemos em nossa jornada de discipulado, intimidade com Deus e transformação contínua, tantas vezes permeada pela dor em um mundo caído. Outros tantos atribuem cruelmente as fragilidades à falta de fé, agravando ainda mais o quadro emocional.

O estigma, a vergonha, a impotência, a dificuldade em se compreender os fenômenos em saúde mental, as distorções teológicas que não abrem espaço para o diálogo. Como seres humanos, não estamos imunes aos sofrimentos psíquicos e angústias da alma. Leia sua Bíblia e encontrará uma diversidade de pessoas em sofrimento e questionamento, vivendo todas estas situações na companhia e amparo do Eterno.

Temos dificuldade em abordar questões emocionais, da subjetividade, que por tantas vezes nos parecem inacessíveis e inomináveis. Os sofrimentos de ordem psíquica mostram-se multifatoriais, sejam desequilíbrios químicos, aspectos biológicos, socioculturais e até mesmo “religiosos”.

Como comunidade cristã, sofremos de maneira geral com a dificuldade de integração entre temas da saúde mental e espiritualidade cristã, tão necessária e urgente nos dias atuais. Precisamos incentivar o diálogo para auxiliar na prevenção desta questão do suicídio, por exemplo, bem como de tantas outras que assolam a saúde emocional. A depressão, a ansiedade, o burnout, os transtornos de personalidade, o suicídio, o trauma, a violência, entre outras questões, afetam pessoas de todas as nações, classes sociais e crenças.

Afetam líderes e liderados, pastores e ovelhas. Precisamos cuidar uns dos outros e de nossas lideranças, tantas vezes exauridas em seus ministérios e necessitando de atenção e tempo disponível para cuidar dos aspectos de sua saúde física, mental ,espiritual, etc. Precisamos atuar tanto na prevenção quanto no cuidado com aqueles que já sofrem e os que são impactados pelas consequências desta realidade.

O PAPEL DA COMUNIDADE

O papel da comunidade no auxílio à prevenção é de singular importância nestes processos de adoecimento multifatoriais. Não podemos caminhar sozinhos em meio à dor. Quando a comunidade sai da postura da negação (“isso não acontece com discípulos de Jesus” – quantas vezes escuto isto…) e as pessoas se percebem humanas, frágeis, parte de um mundo caído e que necessita de restauração e ressurreição interior, aí sim, começamos a dialogar. Quando nos percebemos tão necessitados da Graça de Deus e tão dependentes Dele, buscando sentido para a vida e razão para a existência, nos aproximamos do sofrimento do próximo com uma escuta mais amorosa e misericordiosa. Quando nos tornamos conscientes acerca destas questões, a comunidade se torna um espaço potencial que pode promover cuidado e restauração. A construção de vínculos de apoio mútuo, o senso de pertencimento, o contexto para a busca de sentido da vida e o espaço frutífero para nutrir a esperança, desfrutando da intimidade de Deus e uns dos outros.

Precisamos da comunidade de amigos e irmãos que nos incentivem na vida devocional, nos integrem em serviço ao próximo. Comunidade que esteja atenta para discernir os sinais de adoecimento psíquico e fatores de risco. Que respeite as fragilidades, que caminhe na direção do outro com ação e oração. O primeiro passo é nossa abertura para ouvir sobre estes temas e falar abertamente sobre eles. Esta realidade está presente em todas as nossas comunidades.

É importante pontuar que precisamos reconhecer nossos limites. Deus age de diversas maneiras. Precisamos de abertura às parcerias e encaminhamentos, agregando todos os recursos que Deus nos doou e disponibilizou nas diferentes áreas de conhecimento e atuação, para que o cuidado seja integral. Somos seres bio-psico-sociais-espirituais e precisamos cuidar de todos estes aspectos que compõe o todo. Sejam líderes, membros da comunidade, psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, etc, todos contribuindo para que este cuidado seja mais amplo e eficaz.

• Karen Bomilcar é psicóloga clínica hospitalar, mestre em Teologia e Estudos Interdisciplinares pelo Regent College (Canadá). Atualmente reside em São Paulo (SP) onde serve no discipulado e cuidado pastoral de pessoas de diversas comunidades cristãs.

O SOFRIMENTO E O CONSOLO

CRISTIANISMO HOJE | Quando menos esperamos, o sofrimento bate à nossa porta, entra sem pedir licença e se instala em nossa casa

Quando menos esperamos, o sofrimento bate à nossa porta, entra sem pedir licença e se instala em nossa casa. É uma visita incômoda, inoportuna e dolorosa. E ele se manifesta de muitas maneiras: na perda de um ente querido; no conflito que gera ruptura na família; na violência gratuita que nos vitima na rua; no filho que faz escolhas erradas; no diagnóstico da moléstia incurável; no acidente grava; no desemprego; na experiência de traição ou humilhação… Muitas são as formas, mas o sentimento comum a todas é: sofrimento.

Lamentavelmente, a Igreja contemporânea, com seu exagerado triunfalismo, prega que o mal já está vencido. Por isso, o crente precisa ter uma vida próspera, vitoriosa e sem sofrimento. Uma das abordagens pós-modernas da fé cristã ensina que quem está sofrendo fez algo errado. Ou encontra-se em pecado e sob o domínio de Satanás, ou não crê nem confia em Deus a ponto de contribuir financeiramente ou, então, está na igreja errada. É um Evangelho de ofertas, que nega a dor e a perda. Um Evangelho que desconhece que a Igreja de Jesus Cristo foi gerada, no primeiro século, com perseguição e sofrimento – e que esta Igreja continua sofrendo em várias regiões do mundo por causa do nome do Senhor.

Diante do sofrimento, perguntamo-nos, perplexos: “Como pode um justo sofrer nas mãos de um Deus que diz que é bom?” O sofrimento é um mistério. Não podemos explicar como pode um justo sofrer diante de um Senhor que é bom e que tem tudo sob seu controle. Sabemos, no entanto, que o Deus das Escrituras é pai de Jesus Cristo – o Deus encarnado que sofreu conosco e sofreu por nós. Por isso, ele nos compreende e caminha conosco nas nossas dores e angústias, consolando-nos e enxugando as nossas lágrimas. Um dia, nos encontraremos com ele e, como Tomé, tocaremos nas cicatrizes de seu amor por nós. Só mesmo um Deus ferido pela tragédia humana poderia nos curar e nos salvar.

Acompanhamos José na sua biografia relatada no Gênesis e nos compadecemos de todos seus infortúnios: primeiro, o ódio de seus irmãos, que o lançaram em um poço e, para livrarem-se dele, venderam-no como escravo. Depois, foi vitima da armação de uma mulher casada que, inconformada por ser rejeitada pelo rapaz hebreu, fez o marido jogá-lo no cárcere. Mesmo assim, a Bíblia não registra reclamações ou atos de rebeldia por parte de José. Do abandono e humilhação, tornou-se um ministro poderoso do Egito. Quando uma grande fome assola Israel e seus irmãos vêm ao Egito buscar comida, é José que os recebe no palácio real. Ele os tem em suas mãos para julgá-los ou despedi-los de mãos vazias; em vez disso, ele chora e se dá a conhecer a eles. Os irmãos temem uma vingança, mas José os perdoa, dizendo que não foram eles que lhe fizeram tudo aquilo, mas Deus que, em sua providência, transformou o aparente mal em sofrera em bem para todos.

No livro de Jó, Satanás se apresenta perante Deus e diz que ninguém o ama desinteressadamente. Na ótica diabólica, se o Senhor fizesse cessar as bênçãos sobre a vida de Jó, este se voltaria contra ele. Deus, então, dá permissão para o diabo oprimir a Jó, que perde tudo que tinha, vê a morte dos filhos e, por fim, adoece gravemente. Mesmo diante da incompreensão da própria mulher e do consolo ineficiente de seus amigos, Jó diz: “Eu sei que o meu Redentor vive, por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, não outros; de saudade me desfalece o coração dentro em mim”. Em meio à suas dores, sem entender o que lhe acontecia, Jó se entrega ao seu Senhor, expressa seu desejo e amor por ele e, cheio de esperança, sabe que o mal vai passar. Depois de tudo, quando o sofrimento cessa, ele conclui: “Eu te conhecia só de ouvir; agora meus olhos te veem”.

Em meio à humanidade que sofre, descobrimos que não somos os únicos, e que o sofrimento é parte integrante da nossa experiência existencial. Sabemos, no entanto, que o sofrimento, a maldade, a violência, a mentira, o ódio e a morte têm prazo de validade; eles são efêmeros e passageiros. A ressurreição de Jesus Cristo é o registro, no meio da História, de como será o final dessa mesma História. Ele nos assegura que somos parte de um projeto eterno, e que viveremos nossa humanidade de forma plena, sem sofrimento ou morte. Assim, para aqueles que buscam e praticam o bem, a eternidade já começou, pois o bem é eterno e o mal, passageiro.

O sofrimento nos mobiliza de tal maneira que não percebemos que ele sempre vem acompanhado. Uma companhia discreta, mas presente. A santa, bendita e doce presença do Espírito Santo, também chamado de Consolador.