SE DEUS DESLIGASSE O RADAR?

“Pular o carnaval com moderação é o mesmo que pedir ao alcoólatra que beba conscientemente. Um copo após o outro; nunca ao mesmo tempo… O carnaval usa a máscara da libertinagem num corpo sensual dançando na pista escorregadia da imoralidade. E a conta da festa da carne será paga pelo espírito. Sem máscara, é claro” – Pr. Neir Moreira.

O TROVÃO DO ETERNO

NEIR MOREIRA | Enquanto Samuel oferecia o sacrifício, os filisteus se aproximavam dispostos a atacar Israel. Naquele momento o Eterno trovejou sobre os filisteus, e eles entraram em pânico (1 Samuel 7.10).

Não se sabe ao certo o tempo exato deste ofício sacerdotal, mas o que sabemos é que durante este tempo fatos importantíssimos, do ponto de vista espiritual, ocorreram.

O primeiro fato é que, “enquanto Samuel oferecia o sacrifício”, os maiores inimigos de Israel à época, os filisteus, se prepararam para atacar o povo de Deus. Fica claro que o fato de mantermos a prática rotineira do sacrifício não nos isenta dos ataques dos nossos inimigos. O fato de orarmos incessantemente não nos garante vida fácil. O fato de jejuarmos regularmente não nos assegura isenção de lutas e problemas. O sacrifício não nos livra dos ataques, mas nos garante resultados positivos…

O segundo fato é que, “enquanto Samuel oferecia o sacrifício”, houve um fenômeno divino-natural: o Eterno Deus de Israel liberou uma rajada de trovões sobre os filisteus. O texto não diz que Samuel estava demasiadamente preocupado com o que havia de acontecer. Ele, enquanto elo entre o povo e Deus optou por exercer seu ofício a despeito de todo o contexto adverso que o povo estava enfrentando. O povo e ele; afinal o líder não está isento das condições precárias que eventualmente os seus liderados enfrentem. Parece que o texto quer nos ensinar que, apesar dos ataques que o povo de Deus sofra, eu devo continuar fazendo exatamente aquilo que Deus me capacitou a fazer, afinal Ele fará tudo o que for necessário para que o livramento ocorra ao seu povo. O líder não deve se desesperar, muito menos demonstrar insegurança ao povo. Nenhum sacrifício deve ser abandonado em função dos ataques alheios. Nenhuma obra de Deus deve ser interrompida por causa dos Tobias e Cia. Nenhum ministério deve parar por causa daqueles que nos atacam. Nada e ninguém devem ser suficientemente capazes de bloquear nosso acesso ao altar de sacrifício ao Eterno. Mesmo porque quando o Eterno age, os resultados aparecem…

O terceiro fato é que, “enquanto Samuel oferecia o sacrifício”, os inimigos de Israel entraram em pânico. E esse desespero não foi fruto do sacrifício de Samuel (embora alguns queiram acreditar), mas em função do trovão do Eterno que foi disparado contra os filisteus e que ocorreu no mesmo tempo em que Samuel oficiava o seu sacrifício. Isso evidencia que nossas vitórias não significam resultados diretos de nossos sacrifícios. Ou seja, a observância dos rituais de sacrifícios, a vida de oração e vigilância, a prática do jejum e da consagração não representam e asseguram os livramentos necessários. Tudo isso é fundamental para mantermos nossa comunhão com Deus e nosso crescimento pessoal. Quanto à nossa proteção diante dos adversários é uma prerrogativa única do nosso Deus.

Finalmente, cabe a nós mantermos focados nos sacrifícios e na atividade espiritual e confiar que o nosso Deus nos protegerá de todo e qualquer inimigo que nos tenta assombrar.

ÉRAMOS TRÊS

NEIR MOREIRA | “Eu levei 40 anos para encontrar o amor da minha vida”. Essa é uma declaração que minha esposa, Saiomara, tem repetido a amigos em comum em relação ao fato de me conhecer.

Um homem de sorte esse Neir, não acha? Bem, exagero à parte, o fato é que o tempo exerce um fascínio sobre a maioria dos humanos.

Se a vida cobrou do meu cônjuge um pesado pedágio para nos permitir encontrar, em contrapartida, ela a compensou sendo muito generosa e ágil ao nos presentear com a nossa filha.

O seu nome é uma variação do original Naomi que significa “meu deleite”, “minha doçura” ou “aquela que é bonita e honesta”. O nome Naomi tem origem no hebraico Na’omiy, que quer dizer “agradabilidade, deleite” (Noemi). Também é um nome de origem japonesa, formado a partir da união dos elementos nao, que significa “honesto, reto” e mi, que quer dizer “bonito, belo”, e significa “aquela que é bonita e honesta” ou “a honestidade bela” .

A rigor, o seu nome completo representa uma bela história subjacente:

NAHOMY – além da importância do seu significado histórico e simbolismo bíblico, a escolha deste nome foi uma homenagem que fiz à minha sogra, Noemi. É isso mesmo que você leu: minha sogra! Ao contrário de muitos que ignoram e até ridicularizam aquelas que geraram o amor de suas vidas, eu prefiro elogiar a dona do ventre que acolheu não apenas minha esposa, Saiomara (e as outras duas que compõem as trigêmeas, Samara e Silmara), mas também os outros filhos, Simone e Roberto.

SAIOMARA – Talvez eu seja o único homem na face da terra que tem duas Saiomaras sob seu teto. E ter duas Saiomaras não é pouca coisa. Será que há um galardão especial para esta circunstância? …

WOGLER DA SILVA – Nossa filha é fruto da miscigenação (muito comum no Brasil): de um lado o sangue alemão-polonês e de outro o português-brasileiro. E essa mistura não se limita apenas ao sobrenome; ela é visível numa pequena mancha em seu pulso esquerdo. Endossando a crendice popular, nós críamos que esta marca era fruto de um desejo de a Saiomara comer jabuticaba durante a gravidez.

Gravidez que a família toda assumiu! Cada centímetro que a barriga expandiu, cada grama que a balança não perdoou, cada enjoo e vontade além de todo o desejo foram compartilhados nos 9 meses mais ansiosos pela família Wogler-Silva.

A Nahomy, me parece, tem um pai, digamos, onipresente: eu li o anúncio do resultado do teste de gravidez (a Saio estava grávida e não sabia), e eu filmei extasiado o parto enquanto a Saio dilacerava em dor. Bem, se a Nahomy tem um pai onipresente, a mãe me parece ser onipotente, pois parece ter ignorado todo o sofrimento decorrente do parto. E esse fenômeno da natureza humana já fora predito nas palavras do Senhor Jesus registradas no Evangelho segundo João capítulo 16 e versículo 21: “A mulher que está dando à luz sofre dores e tem medo, porque chegou a sua hora; mas, quando o bebê nasce, ela já não mais se lembra da angústia, por causa da alegria de ter vindo ao mundo seu filho”.

Se o pai da Nahomy é onipresente, e a mãe onipotente, resta ao irmão ser onisciente; mas isso só ele pode saber.

E, às vésperas de completar 5 aninhos, a Nahomy continua sendo uma doçura em forma de gente (seria uma herança paterna?), embora igualmente ela seja uma Saiomara quando é levado em consideração o seu “gênio”. Gênio intelectual!

Além disso, sua doçura é uma característica que irradia e contagia toda a família. Arrisco-me a dizer que a história da família Wogler-Silva pode ser dividida em dois períodos distintos: a.N. (antes da Nahomy) e c.N. (com a Nahomy).

Com a chegada da Nahomy, a casa ficou menos organizada, menos silenciosa (quase nunca), e sem carência – agora somos uma família completa.

Éramos três. Felizes!

Somos quatro. Docemente felizes!

U.S.A.

NEIR MOREIRA | 2015 tem sido um ano ímpar em vários aspectos. E um deles diz respeito aos meus 25 anos de ministério eclesiástico. E evidentemente há muitas experiências que poderia alistar aqui, no entanto quero destacar apenas uma. Na verdade, não se trata de um fato sobrenatural, mas um pedido pessoal.

Era o “longínquo” 1990. Ano que o “filho da Pereira e do Joãozinho” chegava à capital paranaense para continuar trabalhando na extinta Hermes Macedo (eu fora office-boy nessa loja em Paranavaí) e tentar o ingresso no ensino superior (se a Engenharia Civil não foi possível, a Teologia e a Psicologia me acolheram gentilmente).

Paralelamente ao meu crescimento pessoal e profissional, Deus reservou-me experiências espirituais e ministeriais profundas a partir daquele ano. No entanto, uma tem-me acompanhado no último meio quarto de século dedicado à seara do Mestre.

Certa noite, enquanto pedia a Deus sua infinita graça para ministrar sua Palavra, tomei a iniciativa de fazer uma oração que nortearia toda a minha conduta na senda deste santo ministério.

U.S.A. – Essas três letras podem ter diversos significados (incluindo a sigla da maior potência do planeta no presente tempo), mas para mim tem uma representação absolutamente ímpar. Antes de ser uma sigla, é uma palavra: “usa” do verbo usar. Na condição de servo de Deus e vaso nas mãos do Oleiro, penso ser este o verbo ideal para ilustrar esta condição de submissão ao projeto divino. Sendo assim, naquela ocasião eu pedi a Deus que Ele usasse, segundo sua infinita misericórdia, com:

Unção
Sabedoria
Autoridade

Um verbo em forma de um acróstico!

Por que esses elementos? Interessante, se eu fizesse a oração hoje, a resposta fosse exatamente igual. Continuaria suplicando ao Altíssimo sua unção, sabedoria e autoridade toda vez que abrir o coração, a mente e a boca para ministrar a sua Santa e Inerrante Palavra.

Por que esta ordem? Por mais óbvio que possa parecer, não vejo outra ordem que possa refletir o padrão divino. Ou seja, embora nenhum dos 3 recursos sejam dispensáveis, a unção prevalece sobre a sabedoria e autoridade. Em outras palavras, uma mensagem pode ser comunicada sem sabedoria e autoridade, com prejuízo é claro, mas é possível; mas sem unção nenhuma mensagem divina é digna de ser aceita como sendo de Deus. E, por fim, uma mensagem sem autoridade é como uma carta sem remetente, mas uma mensagem sem sabedoria equivale a uma carta composta de palavras sem sentido dispensasse…

Com base no vigésimo versículo do segundo capítulo da primeira missiva do apóstolo do amor (“e vós tendes a unção do Santo, e sabeis todas as coisas”), podemos afirmar categoricamente que a unção e a sabedoria são categorias biblicamente fundamentadas e ao mesmo tempo estão intimamente ligadas entre si. O apóstolo João está afirmando que quem tem a unção é sábio! Quem tem a unção divina é humanamente sábio!

De acordo com o princípio bíblico, uma pessoa ungida por Deus não pode ser ignorante acerca das coisas espirituais, especialmente. Dessa forma, esse versículo pode ser considerado uma chave para decifrar se determinada pessoa é ungida por Deus ou não.

Unção do Santo é pautada na verdade! Unção do Homem é permeada de mentira!

Ser cheio da unção divina é vacinar-se contra as heresias que enfermam muitos crentes atualmente.

Curiosamente, quanto mais uma pessoa se enche da unção do Santo, mais sábia ela é, e não o contrário, como alguns acreditam. O texto supracitado afirma enfaticamente que os que têm a unção divina sabem “todas as coisas” e não apenas opinião acerca de algum tema teológico, por exemplo.

Ter unção e ser ignorante contradiz a Bíblia. Ter unção e ser ignorante é, no mínimo, impossível à luz das Sagradas Escrituras. Unção e sabedoria caminham de mãos dadas!

Finalmente, ter unção e sabedoria divinas significa estar apto para realizar qualquer missão recebida de Deus. E é nesse contexto que entra a autoridade divina.

Observe o que diz o apóstolo Pedro em sua segunda carta, capítulo 3 e versículo 18: “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade”.

A ordem é crescer tanto na graça (unção) quanto no conhecimento (sabedoria). Além disso, segundo a Palavra de Deus, a autoridade concedida é pautada no senhorio de Jesus Cristo. Mesmo porque a mesma fonte que libera unção e sabedoria também o faz em relação à autoridade.

Ouso afirmar que ter a unção do Santo dá acesso à sabedoria do Alto sob a autoridade daquele da Tudo Pode.

O ESCONDERIJO DE ADÃO

NEIR MOREIRA | “E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim” (Gn 3.8).

Se há alguém que a humanidade pode tanto imitar em seus atos quanto culpar pelos seus fracassos esse é Adão. O primeiro homem na face da terra, segundo o relato bíblico, é muito mais do que um explorador de uma terra virgem, ou nomeador oficial de animais. Ele, na verdade, representa toda a raça humana. Traz em seu DNA as marcas potenciais de bilhões de pessoas que o sucederiam.

E, de acordo com o contexto bíblico supracitado, dois comportamentos adâmicos são uma espécie de trailer do filme que a humanidade faria rodar em sua existência. O primeiro é a sua capacidade de ouvir; e o segundo é a possibilidade de esconder. O mesmo Adão que consegue identificar a voz de Deus é o mesmo que intenta se esconder dele. E leva junto a sua companheira.

Adão é o símbolo daquele que não se encontra tão distante de Deus a ponto de não poder ouvi-lo; mas, nem tão próximo o suficiente para ter a oportunidade de esconder-se de Deus (ou pelo menos tentar). Adão é o típico cristão morno e perigosamente frouxo em suas convicções. Sabe exatamente o plano de Deus para sua vida, habita inclusive em seu jardim particular, e tem sido diariamente visitado pela presença divina em seu cotidiano. A despeito disso, ele prefere convencer tanto a si mesmo quanto à sua família (ou quem estiver por perto) que o melhor é evitar qualquer relacionamento duradouro, ou mais sério, com Deus. Com a igreja. Com a família. Com a sociedade.

Esconder é muito mais do que recuar. É muito pior do que se abater. É muito mais sério do que se arrepender. No esconderijo de Adão não é preciso reaver as falhas; não é requerido reconsiderar os maus projetos; não é necessário se arrepender dos pecados. O esconderijo de Adão é a bainha do pecado oculto. É o parque de diversões da liberalidade. É o recreio da licenciosidade.

Vale a pena indagar: eles foram se esconder aonde?

“Entre as árvores do jardim”. Mas, quem passeava no jardim pela viração do dia? “Deus”. Logo, o plano do primeiro jardineiro não resistiu à do seu Criador. Foi justamente no “playground” de Deus que os pombinhos foram brincar de esconde-esconde. Escorregaram literalmente da graça divina e viram seus pés enlamearem-se na poça da vergonha.

Deus, todavia, não brinca! Mesmo quando descansa! A rigor, Ele trabalha até agora (Jo 5.17).

Sua missão hoje é procurar-nos incansavelmente; muito embora Ele conheça muito bem tanto a nós quanto os nossos esconderijos. Ele nos procura não porque nos perdeu, mas porque são poucos os que, depois de ouvi-lo, têm a coragem de se apresentar a Ele, ao invés de se ocultar na multidão, no ativismo, na religiosidade ou por trás da máscara do seu egoísmo.

Ao ouvir a voz de Deus, hoje, vença o medo do encontro e se lance nos braços daquele que o entende e o convida a aprofundar o relacionamento espiritual.

TELE-BABILÔNIA E O BEIJO GAY DAS VOVÓS

NEIR MOREIRA | Babilônia (também conhecida como Babel ou Babil) foi uma cidade da Mesopotâmia, às margens do Rio Eufrates, cujas ruínas hoje coincidem com a cidade de Al Hillah, no Iraque a cerca de 80 km a sul da capital do país, Bagdá. Babilônia foi um exemplo de uma grande metrópole, bem organizada e com um caráter multi-étnico.

A antiga cidade de Babilônia começou imediatamente após o Dilúvio e simboliza a expressão da rebelião direta do homem contra Deus e Sua ordem. O nome “Babel” foi dado à cidade de Ninrode, por causa da sentença de Deus sobre seus habitantes (Gn 11.1-9).

A Bíblia menciona o termo Babilônia mais de duzentas e oitenta vezes, e segundo os pesquisadores, depois de Jerusalém, Babilônia é a cidade mais citada em toda a Bíblia.

Assim como essa cidade desempenhou um importante papel no passado, ela igualmente desempenhará um papel central no futuro. Babilônia se tornará, provavelmente, a capital do Anticristo durante os futuros sete anos de tribulação, segundo os estudiosos em escatologia. Pode-se comparar os textos de Isaías 13.19 e de Apocalipse 18.10.

O verdadeiro caráter de Babilônia é revelado a João em Apocalipse 17.5 como um mistério assim descrito: “Babilônia, a Grande, a Mãe das Meretrizes e das Abominações da Terra”.

Este breve pano de fundo bíblico-histórico sobre Babilônia por si só demarca o triste perfil desta cidade, cujo homônimo dá título a mais recente telenovela de uma emissora brasileira.

Sem me ater aos objetivos da TV brasileira quanto aos valores defendidos pela igreja e pelas famílias cristãs, apreciaria apenas adicionar um graveto na fogueira da discussão sobre a tão propalada telenovela que exibiu o beijo gay das vovós em horário nobre.

Inicialmente, eu encontro dificuldade para entender como uma legião de cristãos perde tempo para discutir o conteúdo moral de um folhetim que historicamente não tem nenhuma relação com o Cristianismo e nem a preocupação de fundamentar seu enredo nos ensinos de Cristo.

Fico pensando, se cristãos estão se sentindo prejudicados com o conteúdo das novelas “globais”, é de se esperar que em breve vão manifestar as suas indignações sobre algum canal de lutas (em função da possível violência física e psíquica), e até dos canais considerados adultos (caso alguma novidade erótica agrida a sensibilidade deste “cristão”)…

Me poupe!

Continuo pensando que tipo de cristão se presta a questionar a “imoralidade” estampada na TV como se isso fosse um problema apenas desse meio de comunicação, e não da cosmovisão decadente da sociedade atual.

Para os insistentes, pergunto: o que a sua igreja local oferece como um programa de melhor qualidade moral e espiritual do que o entretenimento da Tele-Babilônia e outros programas televisivos?

Boa parte das igrejas cristãs (evangélicas e até católicas) abre suas portas para os cultos de oração, cultos evangelísticos, cultos de ensino bíblico, sem contar o investimento para os estudos bíblicos e teológicos, nos seus variados níveis. Não mencionei ainda os sem número de ministérios voltados para casais, criação de filhos, adolescentes, terceira idade, artes, música, etc. E, por falar em música, as igrejas são referência no que há de melhor em conjuntos corais, vocais e instrumentais.

E eu nem citei os variados ministérios familiares adotados por muitas denominações, os quais se valem dos milhares de lares cristãos para estabelecerem igualmente milhares de igrejas nas casas.

Igrejas-casas que não pagam imposto! Igrejas-lares que pagam o preço da santificação!

Por fim, e não menos importante, transcrevo o texto do apóstolo João – Apocalipse 18.2-5 – escrito no primeiro século da era cristã acerca dos eventos futuros que envolverão a Babilônia:

“E clamou fortemente com grande voz, dizendo: Caiu, caiu a grande Babilônia, e se tornou morada de demônios, e coito de todo espírito imundo, e coito de toda ave imunda e odiável. Porque todas as nações beberam do vinho da ira da sua fornicação, e os reis da terra fornicaram com ela; e os mercadores da terra se enriqueceram com a abundância de suas delícias. E ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas. Porque já os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou das iniquidades dela”.

Curioso observar que a ordem é para sair da Babilônia e não mudar a Babilônia. Sair diz respeito a uma decisão estritamente minha de abrir mão da luxúria e lascívia que todo tipo de Babilônia representa: no passado ela foi símbolo de confusão espiritual, no presente é signo de libertinagem, e no futuro escatológico será a insígnia do pecado superlativo.

E, para tratar esse mal histórico, diagnosticado pelo salmista, ele mesmo receitou a dieta radical: “Não porei coisas más diante dos meus olhos” (Sl 101.3)!

Afinal, ou eu mudo em relação à Babel, ou a Babel me muda! E, pra pior!

FONTES:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Babil%C3%B4nia
http://www.chamada.com.br/mensagens/babilonia_profecia.html

O “PERTURBADOR DA RUA XV”

NEIR MOREIRA | A cidade de Curitiba, assim como outras, é conhecida por muitos adjetivos e codinomes. Porém, ela pode ser identificada através dos seus ícones.

Entre os principais pode-se citar o palhaço da Rua XV (comumente chamado de “sombra” em função de sua perseguição aos transeuntes), a mulher da loteria (que apesar de preferir manter-se sentada junto à marquise, consegue com sua potente voz vender os bilhetes de loteria) e o Oil Man (o famoso sujeito que desfila seminu pelas ruas centrais, com sua indefectível sunga vermelha e besuntado literalmente por um óleo sobre sua vasta pele… Impossível não ser notado pelo mais desavisado dos transeuntes, admirado por quem gosta do exótico, e, criticado pelos ortodoxos da vida alheia.

No entanto, há um sujeito que parece ser o campeão quando o assunto é “ódio da vizinhança”.

O irmão Pedro pode ser considerado um evangelista nato com discurso fundamentalista e fincado num contexto majoritariamente de compulsão comercial e desfile misto de autoridades, políticos, modelos e consumidores. Enfim, “todo mundo” passa pela Rua das Flores – nome popularmente conhecido do trecho inicial da Rua XV de Novembro, no centro da capital paranaense, e que foi a primeira grande via pública exclusiva para pedestres, inaugurada no Brasil em 1972.

Numa via caracterizada por edifícios e sobrados centenários, bares turísticos e canteiros de flores em boa parte de sua extensão, destaca-se, entre o burburinho da multidão ávida por consumo, uma voz rouca e insistente de um homem magro com um megafone em sua mão o qual despeja sobre os transeuntes uma mensagem evangelística desafiadora e de conteúdo apocalíptico que beira à ameaça.

O que muitos talvez ignoram é que por trás deste homem destemido e obstinado pela “salvação das almas” há um indivíduo pacato e que, segundo ele mesmo, tentou vender o “ponto”, mas como ninguém quis comprar, então continuou com sua missão de levar o evangelho a todos os admiradores da rua mais famosa de Curitiba.

O “arauto da XV” representa uma parcela da cristandade que não se omite ao chamado evangelístico, e opta por uma modalidade criticada não apenas pelos varejistas da região, mas por muitos cristãos que veem nessa atitude uma motivação exibicionista. A ele se juntam outros “loucos” que fazem dos terminais de ônibus suas igrejas móveis, cujos membros estão em constante deslocamento; não sem antes serem abordados por suas mensagens simples (até mesmo incoerentes do ponto de vista da Gramática e Homilética) mas poderosas e eficazes (sob a perspectiva da espiritualidade e vocação evangelística. Afinal, você pode até tentar ignorar, mas certamente não conseguirá: ou os amará ou os odiará.

Se o rei Acabe chamou o profeta Elias de o “perturbador de Israel” em função deste denunciar a vida de luxúria e pecado daquele (conforme 1Reis 18), não será novidade o irmão Pedro ser taxado de o “perturbador da Rua XV”; mesmo porque com (ou sem) megafone ele tem incomodado a muitos, mas principalmente aqueles que estão à margem do Caminho da Salvação.

Nesse quesito, a função da transmissão do Evangelho cumpre sua missão: ao apelo à salvação só nos resta duas alternativas: aceitar ou rejeitar.

EU VOTARIA NA MARINA

NEIR MOREIRA | Transcrevo abaixo minha crônica produzida em 2010 cujo teor pode ser igualmente observado quatro anos depois…

O voto, dizem, é secreto. Mas enquanto a urna eletrônica não aparece, permita-me revelar um “segredo eleitoral” (mas não conte a ninguém, afinal é sigiloso…): Eu votaria na Marina. E por 6 motivos básicos:

1. Eu votaria na Marina porque ela é MULHER. “Nunca na história desse país” eu votei no sexo oposto. Mas cansei. Todos os homens que me representaram no Palácio do Planalto (ou Planalto dos Despachos, como é o nome oficial) não me deixaram saudades. Porque não ousar? Se mulher sabe tão bem conduzir outros espaços, porque não em Brasília? Afinal, Alemanha, Chile e até Trinidad e Tobago já experimentaram.

2. Eu votaria na Marina porque ela tem FICHA LIMPA. A rigor, não entendi porque a comemoração da aprovação do “Ficha Limpa” no Congresso. Deveria ser obrigação moral! Ser honesto deveria vir de berço. “Nunca na história desse país” eu soube de uma maracutaia na qual estivesse envolvida essa candidata. A propósito, Marina é mais do que candidata, ele é a representante legítima de um contingente de insatisfeitos do atual quadro de podridão ética e política. O PT não ficou pequeno para ela, tornou-se imoral. Mesmo na política, água e azeite não se misturam. Seu sangue “verde esperança” quase coagulou sob a bandeira vermelha do partido dos mensaleiros.

3. Eu votaria na Marina porque ela é CRISTÃ. Embora política e fé não se misturam ambas se dialogam. É errado votar em cristão por apenas compatibilidade de credo, mas é correto votar em cristão que possua uma plataforma de ação política coerente com suas convicções. Marina é mais do que uma mulher batalhadora. Ela vive suas crenças. Sua bandeira política não ostenta uma Bíblia, mas suas palavras transmitem segurança de quem conhece e teme a Deus. Ser cristão contemporâneo significa nunca negar a fé, mas jamais usá-la como palanque eleitoral.

4. Eu votaria na Marina porque ela é COMPETENTE. Essa acreana foi empregada doméstica, ambientalista, pedagoga, graduada em História, sindicalista e política (vereadora, deputada estadual, senadora da República e ministra do Meio Ambiente). Seu currículo é mais importante do que seu partidarismo. Seu passado pode ser passado a limpo (uma redundância inevitável) a qualquer tempo. Sua contribuição ao País não se resume a um programa de fertilidade eleitoral (o PAC deveria ser PACE: Programa de Aceleração do Crescimento Eleitoral). A rigor, ela não precisou ser “mãe” de nenhum programa para parir sua candidatura. Sua biografia é uma historiografia.

5. Eu votaria na Marina porque ela é INTELIGENTE. Não boto muita fé naquela expressão de que os opostos se atraem. Eu sempre preferi estar perto de pessoas inteligentes. Não perco meu tempo com quem não me acrescenta nada. Ao contrário de Darwin, minha seleção não é natural, é criteriosa. Marina não tem um discurso politiquês; ela pensa como gente e não como partidária. Ela serve à política e não da política.

6. Eu votaria na Marina porque ela é HUMILDE. E essa condição não se refere ao fato de ter origem pobre. Quem não conhece um pobre soberbo? Subir na vida já não é novidade para muita gente. O trabalho aliado à competência e persistência pode ascender muita agente na escala social. Origem humilde não significa necessariamente humildade. Lula, só para citar um distinto exemplo, é de origem humilde… Ponto.

Eu votaria na Marina por essas seis razões. Assim como eu também votaria em outro candidato, embora não tenha o mesmo número de razões. Talvez haja outros motivos “inconscientes”. Talvez porque ela, de alguma forma, no presente momento ofereça menos risco à minha integridade ética-política. Talvez porque a candidata ex-seringueira seja melhor do que a candidata ex-guerrilheira. Talvez porque quando vejo um candidato fisicamente frágil, emocionalmente forte, espiritualmente autêntico, politicamente coerente e ecologicamente correto eu me sinta atraído. Mesmo que inconscientemente.

Nunca se sabe ao certo.

A LÍNGUA ERUDITA

NEIR MOREIRA | A capacidade humana de expressar seus sentimentos e emoções constitui-se certamente numa dádiva divina. O ser humano é um ser essencialmente social. E historicamente, ele tem transmitido sua história e conquistas através da comunicação oral. A oralidade é um dos canais prediletos da raça humana.

O homem fala. E a mulher? Dizem os estatísticos que um pouco mais que nós. Não vou ceder à tentação de discutir isso, mesmo porque na conjugação social todos nós falamos: acordados, dormindo, sonhando, andando, ao telefone, para os outros, para a gente mesmo, para Deus, às paredes, por gestos, enfim… Falamos. Afinal, quem não fala? Até o corpo tem sua linguagem. Já foi o tempo em que mudo era a pessoa que não falava. Hoje ele tem uma língua que o permite “falar”. Mesmo surdo-mudo. Há também aqueles que de tanto falar sequer conseguem ouvir os outros. Às vezes nem a si próprio. Há um adágio popular que diz: “quem fala o que quer ouve o que não quer”. Minha mãe sempre dizia: “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”. Para economizar minhas palavras, há ainda aqueles que não têm papas na língua (no original espanhol “não tem pevides na língua” – pevides são pequenos tumores que revestem a língua de algumas aves, obstruindo-lhes o cacarejo). Pobres aves! Não dá para dizer o mesmo da nossa raça…

E o falatório humano, diga-se de passagem, encontra no contexto cultual e religioso a caixa de ressonância ideal para a sua propagação. No fenômeno do culto religioso, especialmente o protestante, preferencialmente o pentecostal há muita, muita comunicação. Tanta que às vezes atrapalha. É gente falando consigo mesmo. Outros falando dos outros. Uns falando com Deus. Outros bradando ao microfone – quer ouçam, quer não. Na lista ainda consta o vocal que fala cantando, a orquestra que fala musicalmente, a bateria que literalmente “berra”, o bebê que “fala” à mãe que quer o peito. E nos tempos da pós-modernidade tem a multimídia que fala através das letras, cores e imagens. Afinal, se Deus não escreve mais na parede para os “filhos” de Nabucodonosor que ainda resistem em nosso meio, a igreja contemporânea deu um jeito de afixar o quadro eletrônico. Difícil saber onde termina o auxílio tecnológico e começa o entretenimento visual. “Fala Deus” – bradaria um fanático.

E Deus fala mesmo.

A Bíblia Sagrada mais do que um manual de ética e conduta é a revelação do Deus que fala e age. A propósito, uma fala criadora. Na Bíblia encontramos mais de 860 vezes a expressão “disse Deus”. A rigor, através do relato bíblico, um dos primeiros atos criadores de Deus foi através de sua voz: “E disse Deus: Haja luz, e houve luz” (Gênesis 1.3). Interessante observar que antes de formar o homem, Deus falou que faria isso. “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1.26). A fala egocêntrica, pivô da eterna discussão entre os seguidores de Piaget e Vigotsky talvez tenha no ato divino sua matriz. O que ambos os teóricos concordam que a fala da criança quando brinca não significa uma comunicação, mas um comentário da sua criação. Este comportamento nós não herdamos de um antropóide; mas de Deus.

Curiosamente, enquanto Deus cria a partir da sua fala, nós destruímos até pela nossa língua – o órgão digestivo acessório formado por 17 músculos e cuja função primária é a gustação. Existe um mito de que a língua é o músculo mais forte do corpo humano! E sobre ela, o sábio Salomão afirma que “a morte e a vida estão no poder da língua” (Provérbios 18.21), mas também salienta que “o que guarda a sua boca e a sua língua guarda a sua alma das angústias” (21.23). O apóstolo e meio-irmão de Jesus no livro que leva o seu nome aprofunda o tema ao assegurar que “a língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno” (Tiago 3.6). Ainda no versículo 26 do seu primeiro capítulo, o então pastor da igreja em Jerusalém define a verdadeira religião: “se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã” (1.26).

Considerando estas referências, fica clara a preocupação que temos de ter para controlar este pequeno, ágil e eficiente membro humano. Assim como Moisés, há muita gente pesada de língua, a qual deveria contratar um “orador-trainer” para domar sua língua na academia do bom senso. Outros, pobres de argumento, mas ricos de blasfêmias, talvez precisassem solicitar ao seu líder espiritual que molhasse a ponta do dedo para refrescá-la. Misericórdia!

Misericórdia sim, pois deveríamos usar nossa língua para proclamar o evangelho de Cristo às pessoas e não difamar o nosso irmão. Misericórdia sim, pois preferimos tecer comentários maldosos a exaltar as virtudes dos fracos. Misericórdia sim, pois sequer temos a nobreza de desligar o celular quando entramos no espaço sagrado da adoração. Misericórdia sim, pois em vez de dar glória a Deus mandamos é torpedo aos amigos. Misericórdia sim, pois em vez de conquistarmos mais discípulos para o Mestre, hoje disputamos quem de nós tem mais seguidores ou curtidores. Misericórdia sim, pois ocupamos o tempo sagrado da oração para pedir em vez de agradecer. Misericórdia sim, pois conseguimos captar a nota dissonante do estreante da orquestra, mas não aplaudimos pelo conjunto da obra. Misericórdia sim, pois reclamamos mais e elogiamos menos. Misericórdia sim, pois alimentamos a indústria da fofoca, inclusive no seio da igreja, mas não nos matriculamos no curso de boas maneiras (Existe? Devia!). Misericórdia sim, pois estudamos para falar bonito, mas jamais procuramos o curso de ouvir perfeitamente bem o que o meu irmão está tentando me dizer, mas a minha insensibilidade não me permite. Misericórdia sim, pois o juízo virá também. Afinal, chegará o dia no qual “toda a língua confessará a Deus” (Rm 14.11). Toda língua mesmo. A deficiente e a matraqueira.

E por falar em matraca, reza a lenda que os escravos a trouxeram para o Brasil junto com os seus folclores, culturas e rituais. Em muitas de suas reuniões eles a utilizavam. Segundo contam, este instrumento era capaz de atrair vários espíritos. Bons e maus. Para além da fantasia, a realidade mostra que a verdadeira matraca é uma pessoa loquaz, tagarela e faladora. O risco é saber se a dita matraca é do bem ou do mal. Na dúvida, melhor evitá-la.

Bom, “para não ficar apenas nas minhas palavras” – velho e gasto bordão pentecostal – eu apreciaria fazer minhas as palavras do profeta messiânico, aquele mesmo que teve os seus lábios tocados por uma brasa viva do altar: “O Senhor DEUS me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer a seu tempo uma boa palavra ao que está cansado. Ele desperta-me todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça, como aqueles que aprendem” (Isaías 50.4).

Língua erudita é muito mais do que o meio sistemático de comunicar conceitos profundos ou abstratos – este é apenas mais um conceito inteligente. Língua erudita, para os sábios, é aquela que apesar de pouco usada, quando acionada não fere, não disputa, não humilha e não ignora. Língua erudita é muito mais do que um membro do corpo; ela é o instrumento na promoção da paz e do amor. A erudição do sábio não está na sua capacidade de falar e não ser compreendido, mas na possibilidade de falar, mesmo que através do silêncio, através de sua empatia e compaixão ao necessitado.

CASAS QUE EMBURRECEM

RUBEM ALVES | “O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!”

Quem disse foi o Riobaldo, com o que concordo e também digo amém. Pois eu estava rastreando uns camundongos burros criados pelo professor Tsien e umas teorias do professor Reuben Fererstein (pronuncia-se fóier-stáin) no meio de uma mataria de ideias quando topei com um menino de sandálias havainas na porta do aeroporto de Guarapuava, que fez minha rastreação parar. O que ele me pedia era mais importante: pedia que eu lhe comprasse um salgadinho para ajudar. Parei, comprei, comi, perdi o rumo, deixei de rastrear os camundongos do professor Tsien e as teorias do professor Feuerstein, entrei por uma “digressão”, meu pensamento excursionou ao sabor das minhas emoções – mas agora estou de volta, o faro de cão rastreador afinado de novo.

Pois o professor Tsien, da Universidade de Princeton, deu-se ao trabalho de criar camundongos mais burros que os domésticos. Se você se espanta com o fato de um cientista gastar tempo e dinheiro para produzir camundongos burros, desejo chamar a sua atenção para o fato de que a burrice é muito útil, do ponto de vista político e social. Aldous Huxley afirma que a estabilidade social do Admirável mundo novo se devia aos mecanismos psicopedagógicos cujo objetivo era emburrecer as pessoas. A educação se presta aos mais variados fins. Pessoas inteligentes, que vivem pensando e tendo ideias diferentes, são perigosas. Ao contrário, a ordem político-social é mais bem servida por pessoas que pensam sempre os mesmos pensamentos, isto é, pessoas emburrecidas. Porque ser burro é precisamente isto, pensar os mesmos pensamentos – ainda que sejam pensamentos grandiosos. Prova disso são as sociedades das abelhas e das formigas, notáveis por sua estabilidade e capacidade de sobrevivência.

Os camundongos burros do professor Tsien, confrontados com situações problemáticas, eram sempre derrotados pelos camundongos domésticos. Mas o objetivo da pesquisa era inteligente. o professor Tsien queria testar uma teoria: a de que, se os camundongos burros fossem colocados em situações interessantes, estimulantes, desafiadoras, sua inteligências inferior construiria mecanismos que os tornariam inteligentes. Em outras palavras: limitações genéticas da inteligência podem ser compensadas pelos desafios do meio ambiente. Assim, ele colocou os camundongos burros em gaiolas que mais se pareciam com parques de diversão, dezenas de coisas a serem feitas, dezenas de situações a serem exploradas, dezenas de objetos curiosos. Como mesmo os burros têm curiosidade e gostam de fuçar, os camundongos começaram a agir. Depois de um certo período de tempo, colocados em situações idênticas juntamente com os camundongos domésticos, os camundongos burros tinham deixado de ser burros. Não ficaram de recuperação.

Não conheço a obra do professor Feuerstein. Suas teorias sobre a inteligência me foram contadas. Fiquei fascinado. Desejo que ele esteja certo. Pois o que ele pensa está de acordo com as conclusões de laboratório do professor Tsien. Feuerstein tem interesse especial em pessoas que, por fatores genéticos (Síndrome de Down, por exemplo) ou ambientais (ambientes pobres econômica e culturalmente), tiveram suas inteligências prejudicadas. Diante de testes o seu desempenho é inferior ao de crianças “normais”. Sua hipótese, testada e confirmada, é que, se tais pessoas forem colocadas em ambientes interessantes, desafiadores e variados, sua inteligência inferior sofrerá uma transformação para melhor. A inteligência se alimenta de desafios, ela murcha e encolhe. As inteligências privilegiadas podem também ficar emburrecidas pela falta de excitação e desafios.

Isso me fez dar um pulo dos camundongos do professor Tsien, das teorias do professor Feuerstein, para as casas onde moramos. Nossas casas são um dos muitos ambientes em que vivemos. Cada ambiente é um estímulo para a inteligência. (É difícil ser inteligente num elevador. No elevador só há uma coisa a fazer: apertar um botão…). E pensei que há casas que emburrecem e há casas onde a inteligência pode florescer.

Não adianta ser planejada por arquiteto, rica, decorada por profissionais, cheia de objetos de arte. Não sei se decoração é arte que se aprende em escola. Se a decoração se aprende em escola, pergunto se existe, no currículo, uma matéria com o título “Decoração de emburrecer – Decoração para provocar a inteligência”… Essa pergunta não é ociosa. Casas que emburrecem tornam as pessoas chatas. Criam o tédio. Imagino que muitos conflitos conjugais e separações se devem ao fato de que a casa, finamente decorada, emburrece os moradores. Lá os objetos não podem ser tocados. Tudo tem que estar em ordem, um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar. Orgulho da dona de casa, casa em ordem perfeita.

Acho que foi Jaspers que disse que não precisava viajar porque todas as coisas dignas de serem conhecidas estavam na sua casa. Jaspers viajava sem sair de casa. Mas há casas que são um tédio: lugar para dormir, tomar banho, comer e ver televisão não há mais o que fazer na casa, e o remédio é sair de gaiola tão chata e ir para outros lugares onde coisas interessantes podem ser encontradas. Sugiro aos psicopedagogos que, ao lidarem com uma criança supostamente burrinha, investiguem a casa em que ela vive. O quarto mais fascinante do sobradão colonial do meu avô era o quarto do mistério, de entrada proibida, onde eram guardadas, numa desordem total, quinquilharias e inutilidades acumuladas durante um século. Ali a imaginação da gente corria solta. Já a sala de visitas, linda e decorada, era uma chatura. A criançada nunca ficava lá. Na sala de visitas a única coisa que me fascinava eram os vidros coloridos importados, lisos, através dos quais a luz do sol se filtrava.

Na minha experiência, a inteligência começa nas mãos. As crianças não se satisfazem com o ver: elas querem pegar, virar, manipular, desmontar, montar. Um amante se satisfaria com o ato de ver o corpo da amada? Por que, então, a inteligência iria se satisfazer com o ato de ver as coisas? A função dos olhos é mostrar, para as mãos, o caminho das coisas a serem mexidas.

Acho que uma casa deve estar cheia de objetos para serem mexidos. A casa, ela mesma, é para ser mexida. Razão por que eu prefiro as casas velhas. Tenho um amigo que comprou um lindo apartamento, novinho, e morre de tédio. Porque não há, no seu apartamento, nada para ser consertado. Eu sinto uma discreta felicidade quando alguma coisa quebra ou enguiça. Porque, então, eu posso brincar…

Os livros precisam estar ao alcance das mãos. Em todo lugar. Na sala, no banheiro, na cozinha, no quarto. Muito útil é uma pequena estante na frente da privada, com livros de leitura rápida. Livros de arte, por exemplo! É preciso que as crianças e os jovens aprendam que livros são mundos pelas quais se fazem excursões deliciosas. Claro! Para isso é preciso que haja guias! Cuidado com os brinquedos: brinquedo é um objeto que desafia a nossa habilidade com as mãos ou com as ideias. Esses brinquedos de só apertar um botão para uma coisa acontecer são objetos emburrecedores – aperta um botão, a boneca canta; aperta outro botão, a boneca faz xixi; aperta um botão, o carro corre. Não fazem pensar. No momento em que a menina resolver fazer uma cirurgia na boneca para ver como a mágica acontece – nesse momento ela estará ficando inteligente. Quebra-cabeças: objetos maravilhosos que desenvolvem uma enorme variedade de funções lógicas e estéticas ao mesmo tempo. Armar quebra-cabeças à noite: uma excelente forma de terapia familiar e pedagogia: o pai ensinando ao filho os truques. Ferramentas: com elas as crianças desenvolvem habilidades manuais, aprendem física e experimentam o prazer de consertar ou fazer coisas. A quantidade de conhecimento de física mecânica que existe numa caixa de ferramentas é incalculável. A cozinha aberta a todas. A cozinha é um maravilhosos laboratório de química. Cozinhar educa a sensibilidade.

Você nunca havia pensado nisso, na relação entre a sua casa e a sua inteligência, a sua inteligência e a inteligência dos seus filhos. Sua casa pode ser emburrecedora. Ou pode ser um espaço fascinante onde os camundongos do professor Tsien repentinamente ficam inteligentes…