“SONY”, O HOMEM QUE MORA EM UMA CASINHA DE CACHORRO NO CENTRO DE CURITIBA

GAZETA DO POVO | Embalado pelo sonho de virar artesão, José Valsonir Gauer quer se ver livre de um quadro depressivo. Para ele, morar nas ruas é melhor do que dar trabalho aos filhos

Construída há três meses, a casinha de madeira que fica em uma calçada da Rua Marechal Deodoro, em pleno Centro de Curitiba, não serve de abrigo a um cachorro – como seria de se supor –, mas a um homem. É ali, sob o teto que construiu com as próprias mãos, que mora José Valsonir Gauer, conhecido como Sony. O homem de 59 anos de idade tem família, mas, tomado pela depressão, optou pelas ruas. Sonha em vencer a doença e a voltar a ter uma moradia digna – como indica a inscrição na casinha.

“Eu tenho meu orgulho e minha vergonha. Eu preciso sarar da depressão e de um pontapé inicial que me ajude a voltar a trabalhar”, disse.

Sony nasceu em Lages, em Santa Catarina, mas há 36 anos mora na região metropolitana de Curitiba. Já teve várias ocupações – mestre-de-obras, motorista, guarda de trânsito –, mas seu talento parece se inclinar mesmo à carpintaria. Diz que no Jardim Paulista e no Santa Fé, bairros de Campina Grande do Sul nos arredores de onde morava, se notabilizou como o artesão capaz de fazer de tudo com madeira. Vendeu muitas casinhas de cachorro, como a que agora lhe serve de moradia.

Teve a ideia de viver no abrigo improvisado praticamente por necessidade. “Na rua, roubavam tudo que eu tinha, eu me molhava quando chovia e passava muito frio”, resumiu. Por isso, Sony juntou a matéria-prima e, em um dia de trabalho, edificou seu novo lar. Na ocasião, passava uns dias na residência do filho, em Campina Grande do Sul. Com a conclusão da obra, colocou a casa sobre rodinhas e a empurrou até Curitiba. “Vim andando. Foi uma jornada. Eu passei mal, quase desmaiei de fome”, lembrou.

Família

Por 25 anos, Sony foi casado até que, em 2003, se separou da mulher. Ele diz que já tinha um quadro de depressão, que se agravou. As aflições causadas pela doença o levaram às ruas, onde passou a viver ao longo dos últimos dez anos. Tem dois filhos “criados” que fazem de tudo para tirar o pai desta condição. Ele até chega a passar curtas temporadas com os filhos, mas acaba voltando para a rua.

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“Eles brigam, querem que eu vá morar com eles. Mas meus filhos têm a vida deles e eu não quero tirar a privacidade de ninguém. Eu tenho orgulho e não quero depender deles, ser um peso. Sinto vergonha de estar assim, mas preciso estar bem pra me estruturar de novo, andar com as minhas próprias pernas”, apontou.

Além de se curar da depressão, Sony sonha em retomar o ofício de artesão – voltar a fazer casinhas, carrinhos e, quem sabe, móveis. Para isso, precisaria de uma ajudinha: calcula que se tivesse uma parafusadeira, uma Makita e uma furadeira, conseguiria começar. Com o trabalho, alugaria uma casa em que possa ficar sozinho, sem dar trabalho a ninguém. “Pode ser uma casinha de duas peças e banheiro, mas que seja meu cantinho”, sonhou.

O orgulho também o impede de pedir – “manguear”, na gíria das ruas. Por isso, vive de doações voluntárias ou de pequenos trabalhos que faz para vizinhos da Marechal, onde se instalou. “Às vezes, a coisa aperta. Já fiquei um dia e meio sem comer, só tomando água”, relembrou.

Depressão e fé

Sony revela que sente vergonha também de ter depressão. Diz que, em alguns dias, não sente vontade sequer de sair da casinha e passa quase o dia todo inerte, olhando para o teto. Ainda não teve a oportunidade de passar por um tratamento psicológico. “A depressão é o seguinte: você está com sede, tem um copo de água logo ali, mas você não tem vontade de esticar o braço pra pegar”, definiu.

Algumas frases grafadas na parede da casinha indicam que Sony também é um homem de fé. De barba e cabelos brancos e compridos, se considera até parecido com o profeta Moisés. Afirma não ser frequentador de igrejas, mas se define como uma pessoa que crê em Deus. Acredita que a justiça divina vai tirá-lo da fase ruim.

“O papa ou um morador de rua, como ser humano, é a mesma coisa. Um não é nem melhor nem pior que o outro. Aos olhos de Deus, são iguais”, disse.

Enquanto a maré brava não passa, Sony permanece na calçada da Marechal. Caprichoso, mantém a via limpa e briga com quem jogo lixo no chão. Ele mesmo acondiciona todas as bitucas dos cigarros que fuma em um potinho de plástico, que esvazia na lixeira. Se vê obrigado até a fazer as necessidades em latas, dentro da casinha. “Eu até já recebi o apelido de ‘Cachorrão’, por viver assim. Mas vai passar. Eu vou dar a volta por cima”, finalizou.

EDISON QUEIROZ (1948-2016): A CHAMA MISSIONÁRIA NA IGREJA LOCAL

ULTIMATO | Missões não é apenas um assunto para congressos, palestras e livros. Deve ser a chama que move a prática da igreja local. Neste sentido, o pastor da Igreja Batista de Santo André (SP), Edison Queiroz de Oliveira, foi um dos mais notáveis entusiastas. Ele fazia questão de mostrar o quanto a igreja local pode – e deve – dedicar suas finanças, seus projetos e sua vida ao compromisso missionário. Escreveu livros, apoiou agências de envio e liderou campanhas de oração em favor da causa missionária.

Um dos textos bíblicos que Queiroz mais citava era Atos 1.8: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samária, e até os confins da terra”.

Edison tinha 68 anos e faleceu nesta quinta-feira (22/09), às 15h10, no Hospital Albert Einstein, vítima de epilepsia causada por uma neoplasia maligna do cérebro, um tipo raro de câncer no cérebro. Ele era casado com Rute, com quem teve três filhos. Era avô de dois netos. O velório está acontecendo na igreja em que Queiróz dedicou-se durante décadas e onde há poucos dias havia sido jubiliado, no dia 05. O funeral está previsto para ocorrer às 16h30 no Cemitério Memorial Santo André.

O pastor e amigo da família, Roberto Morales, disse que “se Edison estava consciente no momento do seu falecimento, a última coisa que ele ouviu foi sobre um telefonema dado da Albânia pela missionária Najua Diba, que pediu que se dissesse a ele que a igreja da Albânia estava com seu templo acabado do lado de fora, graças às ofertas da Igreja Brasileira, e que o acabamento do interior da igreja já está em andamento com oferta recebida da Suíça”.

40 DIAS DE JEJUM E ORAÇÃO

Um dos projetos mais recentes do pastor Edison Queiroz é o Movimento 40 Dias de Jejum e Oração , que começou com uma visão que Deus deu a uma senhora membro da Primeira Igreja Batista em Santo André, para que a igreja fizesse 40 dias de jejum e oração. Como resultado desta visão, o pr. Edison Queiroz escreveu 40 mensagens devocionais, divididas em temas semanais para sua igreja. Diversos pastores pediram copias do livreto para fazerem os 40 dias de jejum e oração em suas igrejas. A partir daí, o movimento começou a crescer e espalhar pelo Brasil.

DEPOIMENTOS

Confira a seguir alguns depoimentos sobre o pr. Edison Queiróz:

“Meu querido, amor da minha vida foi pra Jesus!!! Vou vê-lo por toda eternidade!! Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus filhos!! O Senhor deu, o Senhor tomou bendito seja o nome do Senhor!! A vontade de Deus foi feita… Louvado seja o Senhor!!”.
Rutinha Queiroz, esposa

“Obrigado Deus, por ter me dado o melhor pai e a melhor mãe do mundo. Hoje o Senhor levou o meu pai para pertinho de tí, meu coração doi muito de saudades, mas sei que ele está desfrutando da vida eterna com Jesus”.
André Queiroz, filho

“Nos sentimos profundamente tristes. Perdemos um dos maiores incentivadores, mobilizadores, ofertantes e intercessores da Igreja Brasileira. Sua vida viu o que muitos não querem encarar de frente. Sua vida serviu. Sua vida inspirou. E sua Igreja o seguiu”.
AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras)

“Edison Queiroz tinha um perfil ministerial dedicado a visão ministerial e seus frutos falam pela sua pessoa. Ele amava e vivia para missões”.
Junta de Missões Nacionais – Convenção Batista Brasileira

A DEPRESSÃO NOS PASTORES

ABSTRAÇÕES DE UM PASTOR | Aquele que cuida também precisa ser cuidado

Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti ó Deus, suspire a minha alma”. – Salmo 42.1

Pesquisas recentes vêm demonstrando que, entre as classes profissionais mais sujeitas ao estresse provocado por suas atividades, uma das que encabeçam a lista dos que mais sofrem é a dos pastores, mesmo considerando que estes não são propriamente “profissionais”, e sim vocacionados a prestar um serviço santo à Igreja de nosso Senhor. Perdem apenas para a classe dos professores e profissionais da saúde (enfermeiros, médicos e atendentes – principalmente os da rede pública).

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) [1], a depressão atinge 121 milhões de pessoas ao redor do mundo e está entre as principais causas que contribuem para incapacitar um indivíduo. A OMS prevê que até o ano de 2020 a depressão passe a ser a segunda maior causa de incapacidade e perda de qualidade de vida.

O Dr. Pérsio Ribeiro Gomes de Deus, cristão, pianista, é Médico Psiquiatra e Docente da EST – Mackenzie (DEUS, 2010), e relata que “em nossa prática clínica como psiquiatra, temos atendido um número expressivo de pastores com quadros depressivos, como observado por outros autores (KOENIG, 2001; MOREIRA-ALMEIDA et al., 2006)”.

Mais alarmante ainda é a sua constatação ao citar que “Lotufo Neto (1977, p. 251) encontrou maior incidência de doenças mentais entre ministros protestantes se comparados à população geral, e os transtornos depressivos responderam por 16,4% das doenças mentais encontradas nos ministros protestantes”.

O Dr. Pérsio de Deus, co-autor do excelente livro “Eclipse da Alma” (GOMES; PAZINATO, MALTA; DEUS – 2010), escreveu artigo[2] sobre essa temática de “pastores e a depressão”, encontrado no site da Universidade Mackenzie:

Os dados de nossa pesquisa (DEUS, 2008) confirmam os achados desses outros pesquisadores. Dentre os 50 prontuários de pacientes cristãos portadores de depressão atendidos na referida pesquisa num período de seis meses, 13 pertenciam a pastores, representando 26% dos pacientes atendidos. Acreditamos que as respostas desses pacientes merecem uma atenção particular.

Dos 13 pastores, nove são presbiterianos, três são batistas, e um é da Assembleia de Deus. Essa porcentagem precisa ser considerada de forma cuidadosa, pois não espelha a incidência real de doença depressiva entre religiosos ou entre pastores. A explicação desse desvio ou artificialidade porcentual pode se dever ao fato de que há poucos psiquiatras cristãos em nosso meio, e essa pesquisa foi realizada por um psiquiatra cristão e presbiteriano.

Esclarecemos ainda que, em razão do tamanho reduzido da amostra, os resultados não permitem generalização, pois não refletem a porcentagem de religiosos protestantes em nosso país, devendo, portanto, ser compreendida como estudo de caso.

Indagados quanto ao seu conhecimento sobre a doença depressiva, obtinham-se informações de que o estado de doença por eles apresentada correspondia à doença depressiva, e somente três deles tinham informações a respeito.

Quanto às causas para seu adoecimento, dos nove pastores presbiterianos, cinco relacionaram sua doença ao estresse do exercício da vida pastoral, dois a problemas de relacionamento conjugal, e dois não sabiam a causa. Dos três pastores batistas, dois relacionaram as causas ao pecado e à falta de fé, e um não sabia a causa. O pastor assembleiano relacionou sua depressão à ação do demônio.

Um dado revelador e preocupante é que, dentre os pastores, dos nove presbiterianos, cinco referiram como causa da depressão o estresse ligado à atividade pastoral. As explicações desse estresse pastoral foram relacionadas aos seguintes fatores:

• problemas com instâncias da Igreja (compreendida como organização) por presbitérios e sínodos: falta de compreensão e apoio das referidas instâncias;
• problemas de relacionamento com as igrejas locais;
• uma queixa comum a todos foi a existência de problemas financeiros advindos da baixa remuneração profissional;
• problemas conjugais também foram significativos: três dos nove pastores presbiterianos não sabem a causa;
• mudanças constantes de campos de trabalho.

Aí cabem várias interrogações…

Por que aqueles que levam a Palavra da Cura estão doentes?
Pastores também precisam de cuidados pastorais?
Precisam cuidar de sua saúde com profissionais da saúde?
Por que o medo de consultar psiquiatras e psicólogos?

O pastor, líder carismático, ungido, investido da imagem do “homem de Deus” na comunidade, tem que estar sempre pronto e disponível para as atividades pastorais. Essa pronta disponibilidade atrelada à falta de um horário determinado para as atividades pastorais é apontada (UNISINOS, 2008) como uma das causas predisponentes a doenças (DEUS, 2010).

A agenda de um Ministro do Evangelho revela, às vezes no mesmo dia, uma montanha russa de emoções contraditórias. “… sepultamento pela manhã, reunião de liderança à tarde, casamento em final de tarde e culto à noite; ou seja, a vivência, num mesmo dia, da dor e do luto, o exercício da lógica e a preocupação, a celebração de momento de alegria, prédica e exortação; e atreladas a essas atividades, todas as emoções sentidas, expressas e contidas pelo veículo sagrado” (DEUS, 2010).

“Aquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém” – Judas 1.24-25.

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[1] fonte: < http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/perguntas_respostas/depressao/sintomas-diagnostico-tratamento-doenca.shtml >, in 13/03/2012.
[2] DEUS, Pérsio Ribeiro Gomes de, Um estudo da depressão em pastores protestantes , Mackenzie Fonte , in 13/03/2012; p. 189-202

O SUICÍDIO E O PAPEL PREVENTIVO DA IGREJA

ULTIMATO | O suicídio é uma questão importante de saúde pública. Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, que tem como objetivo alertar a população a respeito da realidade do problema no Brasil e no mundo, e discutir as formas de prevenção. A prevenção precisa começar nas famílias, nas escolas e também nas comunidades, como as igrejas.

TAMANHO DO PROBLEMA

Segundo relatórios da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de Programas de Saúde Mental, cerca de 1 milhão de pessoas cometem suicídio por ano. Nas estatísticas de tentativas (suicídios não concretizados) este número sobe para entre 15 a 25 milhões por ano. Para cada pessoa que comete suicídio, cerca de seis a dez pessoas próximas sofrerão de adoecimento emocional decorrente desta situação. Atualmente é a segunda maior causa de morte entre jovens (15-29 anos), um alto índice também em idosos e grupos populacionais que incluem pessoas que foram vítimas de violência. Apesar de sua maior incidência ser em países de baixa renda e desigualdade social, vem apresentando crescimento em países desenvolvidos com o aumento de quadros depressivos e abuso de álcool/drogas. O Brasil é hoje o oitavo país do mundo em número de suicídios.

TABU DENTRO E FORA DA IGREJA

O tema da morte é historicamente um tabu ao ser abordado e em muitas culturas é evitado a todo custo. Mas o custo do silêncio é alto. O tema da “morte voluntária”, como no caso do suicídio, encontra ainda mais estigma e dificuldade de abordagem, por ser muitas vezes atribuído desordenadamente à temática da loucura, ou em círculos religiosos, ao pecado.

Se o tema do suicídio é tabu em muitos ambientes e culturas, imagine em comunidades cristãs! Muitas comunidades cultivam um discurso triunfalista que busca afastar qualquer vestígio de sofrimento e fragilidade, discurso que não condiz com o que realmente vivemos em nossa jornada de discipulado, intimidade com Deus e transformação contínua, tantas vezes permeada pela dor em um mundo caído. Outros tantos atribuem cruelmente as fragilidades à falta de fé, agravando ainda mais o quadro emocional.

O estigma, a vergonha, a impotência, a dificuldade em se compreender os fenômenos em saúde mental, as distorções teológicas que não abrem espaço para o diálogo. Como seres humanos, não estamos imunes aos sofrimentos psíquicos e angústias da alma. Leia sua Bíblia e encontrará uma diversidade de pessoas em sofrimento e questionamento, vivendo todas estas situações na companhia e amparo do Eterno.

Temos dificuldade em abordar questões emocionais, da subjetividade, que por tantas vezes nos parecem inacessíveis e inomináveis. Os sofrimentos de ordem psíquica mostram-se multifatoriais, sejam desequilíbrios químicos, aspectos biológicos, socioculturais e até mesmo “religiosos”.

Como comunidade cristã, sofremos de maneira geral com a dificuldade de integração entre temas da saúde mental e espiritualidade cristã, tão necessária e urgente nos dias atuais. Precisamos incentivar o diálogo para auxiliar na prevenção desta questão do suicídio, por exemplo, bem como de tantas outras que assolam a saúde emocional. A depressão, a ansiedade, o burnout, os transtornos de personalidade, o suicídio, o trauma, a violência, entre outras questões, afetam pessoas de todas as nações, classes sociais e crenças.

Afetam líderes e liderados, pastores e ovelhas. Precisamos cuidar uns dos outros e de nossas lideranças, tantas vezes exauridas em seus ministérios e necessitando de atenção e tempo disponível para cuidar dos aspectos de sua saúde física, mental ,espiritual, etc. Precisamos atuar tanto na prevenção quanto no cuidado com aqueles que já sofrem e os que são impactados pelas consequências desta realidade.

O PAPEL DA COMUNIDADE

O papel da comunidade no auxílio à prevenção é de singular importância nestes processos de adoecimento multifatoriais. Não podemos caminhar sozinhos em meio à dor. Quando a comunidade sai da postura da negação (“isso não acontece com discípulos de Jesus” – quantas vezes escuto isto…) e as pessoas se percebem humanas, frágeis, parte de um mundo caído e que necessita de restauração e ressurreição interior, aí sim, começamos a dialogar. Quando nos percebemos tão necessitados da Graça de Deus e tão dependentes Dele, buscando sentido para a vida e razão para a existência, nos aproximamos do sofrimento do próximo com uma escuta mais amorosa e misericordiosa. Quando nos tornamos conscientes acerca destas questões, a comunidade se torna um espaço potencial que pode promover cuidado e restauração. A construção de vínculos de apoio mútuo, o senso de pertencimento, o contexto para a busca de sentido da vida e o espaço frutífero para nutrir a esperança, desfrutando da intimidade de Deus e uns dos outros.

Precisamos da comunidade de amigos e irmãos que nos incentivem na vida devocional, nos integrem em serviço ao próximo. Comunidade que esteja atenta para discernir os sinais de adoecimento psíquico e fatores de risco. Que respeite as fragilidades, que caminhe na direção do outro com ação e oração. O primeiro passo é nossa abertura para ouvir sobre estes temas e falar abertamente sobre eles. Esta realidade está presente em todas as nossas comunidades.

É importante pontuar que precisamos reconhecer nossos limites. Deus age de diversas maneiras. Precisamos de abertura às parcerias e encaminhamentos, agregando todos os recursos que Deus nos doou e disponibilizou nas diferentes áreas de conhecimento e atuação, para que o cuidado seja integral. Somos seres bio-psico-sociais-espirituais e precisamos cuidar de todos estes aspectos que compõe o todo. Sejam líderes, membros da comunidade, psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, etc, todos contribuindo para que este cuidado seja mais amplo e eficaz.

• Karen Bomilcar é psicóloga clínica hospitalar, mestre em Teologia e Estudos Interdisciplinares pelo Regent College (Canadá). Atualmente reside em São Paulo (SP) onde serve no discipulado e cuidado pastoral de pessoas de diversas comunidades cristãs.

O SOFRIMENTO E O CONSOLO

CRISTIANISMO HOJE | Quando menos esperamos, o sofrimento bate à nossa porta, entra sem pedir licença e se instala em nossa casa

Quando menos esperamos, o sofrimento bate à nossa porta, entra sem pedir licença e se instala em nossa casa. É uma visita incômoda, inoportuna e dolorosa. E ele se manifesta de muitas maneiras: na perda de um ente querido; no conflito que gera ruptura na família; na violência gratuita que nos vitima na rua; no filho que faz escolhas erradas; no diagnóstico da moléstia incurável; no acidente grava; no desemprego; na experiência de traição ou humilhação… Muitas são as formas, mas o sentimento comum a todas é: sofrimento.

Lamentavelmente, a Igreja contemporânea, com seu exagerado triunfalismo, prega que o mal já está vencido. Por isso, o crente precisa ter uma vida próspera, vitoriosa e sem sofrimento. Uma das abordagens pós-modernas da fé cristã ensina que quem está sofrendo fez algo errado. Ou encontra-se em pecado e sob o domínio de Satanás, ou não crê nem confia em Deus a ponto de contribuir financeiramente ou, então, está na igreja errada. É um Evangelho de ofertas, que nega a dor e a perda. Um Evangelho que desconhece que a Igreja de Jesus Cristo foi gerada, no primeiro século, com perseguição e sofrimento – e que esta Igreja continua sofrendo em várias regiões do mundo por causa do nome do Senhor.

Diante do sofrimento, perguntamo-nos, perplexos: “Como pode um justo sofrer nas mãos de um Deus que diz que é bom?” O sofrimento é um mistério. Não podemos explicar como pode um justo sofrer diante de um Senhor que é bom e que tem tudo sob seu controle. Sabemos, no entanto, que o Deus das Escrituras é pai de Jesus Cristo – o Deus encarnado que sofreu conosco e sofreu por nós. Por isso, ele nos compreende e caminha conosco nas nossas dores e angústias, consolando-nos e enxugando as nossas lágrimas. Um dia, nos encontraremos com ele e, como Tomé, tocaremos nas cicatrizes de seu amor por nós. Só mesmo um Deus ferido pela tragédia humana poderia nos curar e nos salvar.

Acompanhamos José na sua biografia relatada no Gênesis e nos compadecemos de todos seus infortúnios: primeiro, o ódio de seus irmãos, que o lançaram em um poço e, para livrarem-se dele, venderam-no como escravo. Depois, foi vitima da armação de uma mulher casada que, inconformada por ser rejeitada pelo rapaz hebreu, fez o marido jogá-lo no cárcere. Mesmo assim, a Bíblia não registra reclamações ou atos de rebeldia por parte de José. Do abandono e humilhação, tornou-se um ministro poderoso do Egito. Quando uma grande fome assola Israel e seus irmãos vêm ao Egito buscar comida, é José que os recebe no palácio real. Ele os tem em suas mãos para julgá-los ou despedi-los de mãos vazias; em vez disso, ele chora e se dá a conhecer a eles. Os irmãos temem uma vingança, mas José os perdoa, dizendo que não foram eles que lhe fizeram tudo aquilo, mas Deus que, em sua providência, transformou o aparente mal em sofrera em bem para todos.

No livro de Jó, Satanás se apresenta perante Deus e diz que ninguém o ama desinteressadamente. Na ótica diabólica, se o Senhor fizesse cessar as bênçãos sobre a vida de Jó, este se voltaria contra ele. Deus, então, dá permissão para o diabo oprimir a Jó, que perde tudo que tinha, vê a morte dos filhos e, por fim, adoece gravemente. Mesmo diante da incompreensão da própria mulher e do consolo ineficiente de seus amigos, Jó diz: “Eu sei que o meu Redentor vive, por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, não outros; de saudade me desfalece o coração dentro em mim”. Em meio à suas dores, sem entender o que lhe acontecia, Jó se entrega ao seu Senhor, expressa seu desejo e amor por ele e, cheio de esperança, sabe que o mal vai passar. Depois de tudo, quando o sofrimento cessa, ele conclui: “Eu te conhecia só de ouvir; agora meus olhos te veem”.

Em meio à humanidade que sofre, descobrimos que não somos os únicos, e que o sofrimento é parte integrante da nossa experiência existencial. Sabemos, no entanto, que o sofrimento, a maldade, a violência, a mentira, o ódio e a morte têm prazo de validade; eles são efêmeros e passageiros. A ressurreição de Jesus Cristo é o registro, no meio da História, de como será o final dessa mesma História. Ele nos assegura que somos parte de um projeto eterno, e que viveremos nossa humanidade de forma plena, sem sofrimento ou morte. Assim, para aqueles que buscam e praticam o bem, a eternidade já começou, pois o bem é eterno e o mal, passageiro.

O sofrimento nos mobiliza de tal maneira que não percebemos que ele sempre vem acompanhado. Uma companhia discreta, mas presente. A santa, bendita e doce presença do Espírito Santo, também chamado de Consolador.

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO HOMOLOGA PARECER QUE ACABA COM A CONVALIDAÇÃO EM TEOLOGIA

MEC | Parecer CNE/CES n 60/2014 institui as Diretrizes Curriculares Nacionais – DCN do curso de graduação em Teologia – Bacharelado

Esta foi uma luta travada por todas as instituições de ensino que possuem reconhecimento do Ministério da Educação. O parecer 60, de 2014, que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais – DCN para Teologia foi aprovado em 12 de março de 2014 e aguardava homologação. A publicação do parecer está na edição de 08/09/16 do Diário Oficial da União.

Após um ano da publicação desta Resolução, ficam revogados os efeitos do Parecer CNE/CES 63/2004, que dispõem sobre a regulamentação e reconhecimento civil de cursos teológicos livres. Com isso, não será mais permitido o aproveitamento de estudos e convalidação de títulos de cursos livres de Teologia.

Isso quer dizer que estudantes que terminam o curso livre este ano ainda podem convalidar seus diplomas fazendo matrícula no início de 2017. Depois disso, apenas quem cursar integralmente a graduação terá diploma de Bacharel, na UMESP ou em qualquer outra universidade que mantenha o curso de Teologia com reconhecimento do MEC.

C.S. LEWIS E O PROPÓSITO PRINCIPAL DO SER HUMANO

ULTIMATO | “Digno és, Senhor e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e para o teu prazer vieram a existir e foram criadas” (Ap 4.11).

Qual é o fim supremo e principal do homem? O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.1

Eu sempre concordei plenamente com a resposta, até ler o livro “The Problem of Pain”, de C.S. Lewis, onde ele faz a seguinte declaração:

“Nós não fomos criados primeiramente para amar a Deus, (ainda que tenhamos sido criados para isto também) mas para que Deus nos ame, para que sejamos objetos nos quais o Amor Divino ‘descanse’ satisfeito”.2

Em Ap 4.11 a palavra usada para “prazer” pode ser traduzida por: propósito, vontade. Todas as coisas foram criadas para Deus, de acordo com sua vontade, seu desejo, seu prazer. Acho que não tem como separar a vontade e o prazer dele. Se Ele tem vontade de fazer algo, é porque isto o satisfaz. É o seu prazer. Cl 1.16, Rm 11.36, Ef 1.5. Se pensarmos que o propósito supremo do homem é que ele faça algo para Deus, estamos centrando a sua existência nele mesmo, e Deus como objeto da sua ação. Se pensarmos que o propósito supremo do homem é receber algo de Deus, então o homem é que é o objeto, Deus é o Centro de tudo, inclusive da existência humana. Deus não existe em função do homem, e nem o homem existe em função de si mesmo. O homem existe em função de Deus. Ele é o recipiente da ação de Deus. Fomos criados para que Deus nos ame. Fomos criados para o seu prazer.

Criados para sermos recipientes do seu amor, agora somos caídos, corruptos, carentes da Sua presença, e Deus não vai ficar satisfeito até que sejamos quem ele planejou que fôssemos, que tenhamos o caráter adequado para receber o seu amor. Ele vai até as últimas consequências, até a morte, e morte de cruz. Ele também vai nos conduzir por caminhos que nos transforme – às vezes, caminhos desconfortáveis e dolorosos. O verdadeiro amor não vai se contentar que o seu “amado” permaneça na sajerta, na sujeira, no estado de domínio do pecado. Ele nos mostra isto na história de Oséias e Gomer. Depois de Oséias tirar Gômer da prostituição e casar com ela, a esposa volta para a prostituição. Mas Deus o ordena comprá-la novamente. Diante disso, uma das declarações mais amorosas de Deus se encontra em 11.8:

“Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? (…) Está comovido em mim o meu coração, as minhas compaixões à uma se acendem”.
Lewis tenta mostrar este amor de Deus para conosco usando algumas ilustrações, bíblicas, de relacionamentos. Todas são limitadas, mas juntas, elas pintam um quadro que nos ajuda a contemplar este amor divino.3

A primeira é a relação do artista e sua obra. Jeremias fala do oleiro e do vaso (18). Pedro nos chama de “pedras vivas” (1 Pe 2.5), e Paulo de “edifício de Deus” (1 Co 3.9). Todas falam do desejo do artista em executar sua obra com perfeição. Ele não fica satisfeito até que a obra tenha o caráter intecionado. É o seu prazer. É assim que Deus nos ama.

A segunda é a relação do homem com animais. O Salmo 23 é a analogia bíblica mais conhecida. É melhor do que a anterior, pois o “objeto” aqui é senciente. A relação do homem com o animal (o cachorro, por exemplo), visa, principalmente, a intenção do homem. O cachorro existe para realizar este desejo do homem, e não o contrário. O bem estar do cachorro será preservado, e a intenção do homem só será plenamente alcançada se o cachorro também o amar de volta. Para isto, o homem interfere na realidade do cachorro e o faz mais amável do que ele é na natureza.

A terceira é uma ilustração mais nobre, o amor de um pai pelo filho. Embora as relações paternais no período fossem mais autoritárias do que as modernas, no entanto, o padrão continua. O amor paternal significa “amor-autoridade” de um lado e “amor-obediência” do outro. O pai usará seu amor e autoridade para moldar o filho na pessoa que ele, na sua sabedoria e experiência, deseja que o filho se torne.

Por último, o amor entre um homem e uma mulher. O amor deseja e busca o bem, o crescimento, o aperfeiçoamento da pessoa amada. Quando amamos não paramos de nos importar com o estado do outro, se está agradável ou desagradável, decente ou indecente. Se uma mulher perceber que o marido deixou de se importar com o estado emocional e a aparência dela, ela irá questionar o amor dele por ela. O amor perdoa todas as falhas, e ama apesar delas, mas nunca deixa de desejar a remoção destas.

Lewis fala que o amor de Deus é persistente como o amor do artista; autoritário como o amor de um homem por seu cachorro; providente e venerável como o amor do pai pelo filho; zeloso, e inexorável como o amor entre os sexos. Não dá para entender isto. Ultrapassa todo o entendimento pensar que o Criador, que não precisa ou depende de nada, deseja, tem prazer e dá tanta importância a criaturas como nós. Só podemos nos por de joelhos em adoração. O dever principal da nossa existência deve ser glorificá-lo para sempre. A vida na sua plenitude é gozar deste amor com Ele.

NOTAS:
1. Primeira pergunta do Catecismo Maior de Westminster.
2. CS Lewis, The complete CS Lewis Classics, pg 574.
3. Ibid, 570-574

• Rosifran Macedo é pastor presbiteriano mestre em Novo Testamento pelo Biblical Theological Seminary (EUA). É missionário da Missão AMEM/WEC Brasil, onde foi diretor geral por nove anos. Atualmente, dedica-se, junto com sua esposa Alicia Macelo, em projetos de cuidado integral de missionários.